NOVAMENTE O CAMINHO DE CABRAL

Com a crise europeia, jovens fazem o caminho que seus conterrâneos exploradores fizeram séculos atrás. Pelo viés de Bibiano Girard

A+ A-

Desde o início da crise datada de 2008, mas com raízes parcimoniosas de endividamento erguidas ainda no início do século passado, espanhóis e outros habitantes da zona do Euro voltam novamente seus olhos para a América. Novamente a menina dos olhos dos exploradores espanhóis, que vieram à América para dominar territórios através da construção de fortalezas, de cidades, de igrejas evangelizadoras dos povos que deveriam ser “civilizados” e da demarcação à força de grandes espaços geográficos, volta ao mapa dos, agora, imigrantes. Há séculos a empreitada tinha como força afiançar para a Coroa toda a riqueza sob e sobre este território, procurando assegurar o estilo de vida dos burgueses e do Estado do período. O sistema de vida transformou-se extremamente de lá para cá, mas foi apenas os europeus sentirem o fundo dos bolsos vazios para que os países da América do Sul começassem a receber novamente “interessados”. Agora, com o intuito um pouco diferente: dar aos desempregados uma nova saída.

O povo latino tem por característica ser demasiadamente acolhedor e hospitaleiro. Em grande maioria, todos os estrangeiros que procuram estas bandas para habitar ou visitar são recebidos com honrarias de reis. Contudo, há anos os brasileiros e seus irmãos de continente não percebem este mesmo acolhimento europeu por parte do povo, das elites ou dos governos do Velho Mundo. Fomos destratados centenas de vezes em aeroportos, fomos deportados, esculachados e inferiorizados durante anos sem ao menos um pedido de desculpas das embaixadas. Tudo funcionava duramente como mecanismo de segurança capital para garantir aos europeus um patamar de vida privilegiado, sem invasores internacionais, sem imigrantes pobres pelas ruas, sem mulatos roubando empregos ou tentando “fazer a vida à custa do Euro”.

Desde a vitória de Margaret Thatcher na Inglaterra, em 1979, país precursor na concretização do neoliberalismo europeu, o continente empenhou-se velozmente em asseverar-se como o ponto médio neoliberal do globo, reconstruindo o conservadorismo agressivo não adotado desde a primeira fase do século XIX: abrangia uma experiência de transferir o Estado de Bem-Estar, favorecendo as classes superiores em deturpação e exclusão das classes mais baixas. A estas sobraram os cargos de mão-de-obra perenes. Criaram-se os Estados onde o bolo maior trabalharia e continuaria sem poder ascender socialmente ao menos que desfizesse de seus semelhantes de classe e entrasse no bolo das elites despreocupadas com a situação do assalariado. Enquanto outros poucos se aproveitavam do trabalho e da imagem construída pelo lucro de bem-estar social em todas as classes, o neoliberalismo forrava o chão dos mais carentes e enganava a população endividando-a. O que vemos hoje comprova que o plano não funcionou como esperado. A Europa deve, e muito, e quer cobrar do próprio povo o que necessita para sanar as dívidas daqueles que desde o início foram beneficiados pelo sistema vigente: as elites, os banqueiros, os empresários e os próprios governos.

Do outro lado do Atlântico faltava pouco para a mesma receita ser implantada. A vitória de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, assinalou a abertura do exercício neoliberal estadunidense. O neoliberalismo tornou-se, neste momento, doutrina oficial da política econômica do governo Reagan, a qual se perpetuou descaradamente nas mãos da burguesia durante toda a década de 1980.

Por aqui, Pinochet já havia colocado as luvas de fora na tentativa da efetivação, mesmo antes de Thatcher, do neoliberalismo. O general Augusto Pinochet se fundamentou em “El ladrillo” , balanço instituído por economistas chilenos, sobretudo os graduados na Universidade de Chicago, os chamados Chicago Boys, para uma reforma na economia que estava em andamento durante o governo do socialista Salvador Allende, derrubado pelo golpe de 11 de setembro. Pinochet implanta então o isolamento da economia com o Estado, repreendendo o sindicalismo, concentrando a renda nas classes ricas e privatizando os bens públicos.

Não demoraria para que a política econômica irregular neoliberal invadisse o pátio dos países ditos centrais: os periféricos sudamericanos. A sedução do capital de lucro e o discurso novo de supremacia e “crescimento assegurado” chegam à Argentina com Carlos Menem, no México com Carlos Salinas de Gortari, Carlos Perez na Venezuela e também com Fujimori, acusado de crimes contra os direitos humanos, no Peru. No Brasil, restou a Fernando Collor de Melo a abertura do mercado, o enfraquecimento do Estado, a aflição popular sobre o desemprego crescente e a bomba da inflação, vestígios presentes anos depois até o fim do governo Fernando Henrique Cardoso. Tudo isto embasado na teoria privatizadora como a única saída para o enriquecimento estatal e fortalecimento da economia, criando a fantasia de que privatizar era sinônimo de dinheiro revertido ao governo e garantia de empregos, o que incidiu totalmente oposto.

Enquanto a Europa caminhava sorrindo, mas pisando em ovos, a América Latina via, vagarosamente, suas estatísticas melhorarem. Na crise financeira de 2008, tomada por especialistas como sucessora em tamanho da crise de 1929, esta ocorrida durante o ápice do liberalismo clássico da auto-regulação e do mercado livre, os problemas financeiros de alguns países europeus que estavam submersos sob os pés dos governantes e as mesas dos investidores rasgaram o chão europeu como um vulcão. No momento de desespero, governos tentaram diminuir os impactos da crise ajudando setores mais críticos da economia com pacotes bilionários. A comunidade mundial ainda não compreendia o que se passava em reuniões a portas fechadas entre governantes, banqueiros e empresários. O pacotão que pouparia empregos e abrandaria os efeitos negativos da desordem no setor financeiro não funcionou. A população começava a receber as cartas de demissão e alguns já procuravam um lugar para morar depois do despejo. Com tantos pacotes de auxílio aos grandes endividados, como banqueiros, a arrecadação destes governos diminuiu e a dívida pública só aumentou. Na região do Euro, por exemplo, a dívida dos países integrantes não deve ultrapassar 3% do Produto Interno Bruto. Na Grécia, no entanto, a dívida pública deve atingir nos próximos meses 120% do total do PIB do país. A dívida é pública, então quem deve pagar é o povo. Assim pensaram os governantes europeus.

Os protestos começaram pela Grécia, mas também na Irlanda, em Portugal e na Espanha a ira popular ferve. As pessoas começaram a sentir, no final de 2008, que os jovens, os pobres e os desempregados estavam sendo os burros de carga da dívida criada pelo desleixo interesseiro de seus Estados. Além disso, o povo percebeu que os banqueiros franceses e alemães que emprestaram muito dinheiro para os países em crise cobrariam mais tarde por tudo isso. E cobraram. Os grupos dos “indignados”, como se chamam na Espanha, e dos “aganaktismenoi” – ultrajados -, da Grécia, a cada dia crescem mais.

Praça da Porta do Sol, Madri. Perto da meia-noite, cerca de 20 mil pessoas aguardavam as doze badaladas do relógio da Real Casa de Correios que marcariam a passagem de sexta para sábado e a entrada de todas elas, oficialmente, na ilegalidade. O relógio começa a bater e todos levantam as mãos em um grito mudo. À décima segunda badalada, irrompem palmas e gritos em êxtase, e o contingente a perder de vista canta em uníssono: “o povo, unido, jamais será vencido”.

A cena foi protagonizada pelos milhares de cidadãos que ocupam as ruas da Espanha desde o último domingo e fazem parte do movimento M-15 (nome em referência à data do início das manifestações, 15 de maio). Da reportagem “Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”

Forças populares como o M15 estão tomando as ruas, mas seus governantes preferem ignorar os levantes populares ou repreendê-los pela força policial. A mídia tradicional brasileira faz o mesmo, escondendo o desmoronamento da Europa para não ter que “torcer o braço” e demonstrar que o continente dos sonhos pode estar se transformando no continente da desesperança. A União Europeia, mesmo tão nova, se comparada ao tempo de permanência de um tipo de sistema financeiro sobre comunidades gigantescas, parece ter encontrado já o caminho do fim ou de uma época de breu.

Essencialmente dessemelhante ao sistema bipolar no qual o mundo viveu até poucas décadas atrás, as alterações globais que demandaram  mecanismos econômicos abissais – entre mercados formados por dezenas de países detentores de milhões de habitantes – foram irrelevantes e indiferentes quanto a sua população. O que restou foi um pensamento computadorizado de mundo, ignorante e ineficaz. A sociedade mundial do início do século parece ter aberto um pouco dos olhos para perceber que os problemas e a instabilidade social, com fome e desempregada, necessita urgentemente das forças políticas, sociais e culturais.

A complexidade das soluções para problemas mundiais de segurança alimentar, segurança econômica e segurança ambiental está mais próxima da ânsia de jovens em desarmá-la. Contudo, o sonho utópico de realizar qualquer revolução, ainda mais atual após a Primavera Árabe, esbarra na burocracia e na força política, monetária e militar dos Estados europeus. Assim, jovens que agora percebem a situação que seus países os colocaram após anos de ilusão, constroem sua carreira em graduação e pós-graduação naquele continente para depois tentar a vida nas terras onde aportaram Cabral e Colombo há mais de 500 anos. Mesmo que de porta em porta procurem emprego, os jovens europeus têm voltado para casa sem perspectiva alguma.

Os jovens espanhóis e os filhos de brasileiros habitantes de Portugal estão fazendo o caminho das naus. A procura é maior pela potência regional, o Brasil. O ministro do Trabalho brasileiro, Carlos Lupi, admitiu que o Brasil necessita de 1,9 milhões de pessoas altamente qualificadas e que a Espanha poderia suprir parte das necessidades. Contudo, os espanhóis e portugueses em busca de trabalho na América Latina têm em mente um recado econômico no bolso: os salários que são pagos a trabalhadores importados, atualmente, equivalem a um quarto dos praticados na Espanha anterior à crise.

“Recebemos muitos e-mails de brasileiros que, mesmo sabendo que a situação está ruim aqui, querem vir para cá”, diz Ruth Teixeira, presidente da Associação Mais Brasil, entidade que apoia imigrantes brasileiros em Portugal . “Aconselhamos que, se a pessoa tiver um bom emprego, que não venha”, termina.

NOVAMENTE O CAMINHO DE CABRAL, pelo viés de Bibiano Girard

bibianogirard@revistaovies.com

 

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone