RUÍNAS DE OUTRA ÉPOCA

Em Pelotas, por detrás do abandono de grandes prédios, a zona do porto esconde uma situação pela qual parte do extremo sul gaúcho vem passando. Pelo viés de Liana Coll

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O que contam as ruínas de grandes prédios na zona do porto de Pelotas? São muitas as indústrias que hoje só existem na memória e nas estruturas abaladas do que um dia representou o desenvolvimento da cidade de Pelotas, localizada no extremo sul do Rio Grande do Sul.

Prédios em ruínas na zona do porto, fundos da antiga fábrica de cerveja. Foto: Liana Coll

Quando perguntamos aos pelotenses o que são aqueles imensos prédios abandonados na zona do porto da cidade, surge um quadro da Pelotas próspera de até meados do século XX. Os nomes das indústrias que faliram ou abandonaram a região vão surgindo à cabeça dos moradores e as suposições e explicações pelos prédios em ruínas começam a ser desenhadas.

Ouvindo algumas histórias e percorrendo a região, com aparência quase fantasmagórica não fosse a significante população que a habita, tecemos alguns motivos pelos quais a metade sul rio-grandense, em especial o município de Pelotas, não manteve a prosperidade e acabou estacionando no tempo em alguns aspectos.

Era a cidade do “tinha”, dizem alguns pelotenses, pensando no brusco desaceleramento industrial da cidade. Tinha a fábrica de cerveja, tinha a fábrica de tecidos, tinha o frigorífico, tinha o porto em pleno funcionamento, tinha a fábrica de massas e biscoitos e assim vai. Se o capital cultural e turístico é forte, o capital que geraria grande renda à região foi enfraquecido ao longo dos anos principalmente pela não adaptação aos processos de modernização do modo de produção fabril. Ainda há produção industrial, mas a relevância está longe do que um dia foi.

A mão de obra operária e a questão do negro

A Princesa do Sul, como é chamada a cidade, crescia, durante todo o século XIX, às custas da mão-de-obra escrava. Os negros eram o sustentáculo dos trabalhos duros das charqueadas, principal atividade desde o nascimento de Pelotas, em 1830, até o início do século XX. Em 1888, com a abolição da escravatura assinada, os recém-libertos continuaram trabalhando para os senhores fazendeiros, por falta de opção e de perspectivas de uma vida realmente livre e, paralelamente, alguns deles começaram a desenvolver atividades em outros setores (em indústrias, construções, chapelarias, etc).

Na última década do Império, os negros eram cerca de seis mil. No início da República, compunham, juntamente com mestiços, aproximadamente 30% da população urbana de Pelotas: eram os braços da cidade e, com tal papel, carregavam o desenvolvimento com grande sacrifício e pouco retorno financeiro. Muitos deles, a esta época, trabalhavam como estivadores no porto da cidade, que já havia sido o mais movimentado da cidade até meados do século XIX. Esse trabalho, mesmo que duro, possibilitava a eles certa ascensão social, já que o trabalho portuário inferia algum prestígio.

A indústria de alimentos e o porto foram os empregadores que proporcionaram o ingresso do negro no mercado de trabalho do final do século XIX até o século XX. As atividades realizadas eram árduas e muitas vezes desumanas. A liberdade era restrita ainda, mas “a passagem de escravo para operário implicou na ascensão do prestígio do trabalhador na hierarquia social”, conforme dizem Marcus Vinicius Spolle, Doutorando em Sociologia da UFRGS, e José Carlos Gomes dos Anjos, professor da Universidade. Os donos de fábricas, ou aqueles que pensavam em abrir uma, sabiam da ansiedade dos recém-libertos para serem reconhecidos como igual e aproveitaram-se disso para se instalarem em Pelotas. Além disso, instalar indústrias e depósitos em frente a um porto movimentado e a uma linha férrea em funcionamento era (e é) uma estratégia básica dos industriais.

Rua do porto de Pelotas. À esquerda, prédios abandonados. À direita, um guindaste dentro do porto, que está sendo reativado. Foto: Liana Coll

O setor portuário e alimentício, junto com as outras indústrias (têxtil, papeleira e química, entre outras) empregavam também um número significativo dos brancos, entre eles imigrantes e mulheres. De acordo com dados da época, no ano de 1950 a população total de Pelotas passava dos 100 mil habitantes e a população urbana chegava a quase 80 mil. Existiam 861 estabelecimentos de pequeno comércio, que empregavam 2.284 funcionários, e 151 estabelecimentos de comércio maior, que empregavam, por sua vez, 1.735 funcionários. Já as indústrias eram, no total, 413, e empregavam 6.271 funcionários. São números que demonstram a expressiva relevância industrial e comercial para a população. É por isso que, com a não-adaptação à revolução tecnológica que estava por vir, um oco iria instalar-se na vida dos trabalhadores.

A desestruturação do desenvolvimento pelotense

Muitos fatores apontam os porquês das indústrias terem gradativamente perdido força na cidade. Em 1951 quedas constantes de energia elétrica prejudicaram as fábricas, e a predominância de indústrias quase artesanais no modo de produção dificultava a entrada destas no aceleramento do processo modernizador.

O contexto trabalhista, no entanto, iria sofrer uma mudança radical na década de 1980, quando a revolução tecnológica realmente chegava à região. Conforme explica o filósofo, historiador e pedagogo norueguês Robert Kurz,”Sem uma base nacional que garantisse o consumo, foi necessário a expansão transnacional, ou o chamado processo de globalização que, por sua vez, gerou o questionamento na lógica da produção fordista e no padrão do consumo de massa. Essas transformações implicaram alterações na lógica das políticas estatais e do próprio Estado, ou seja, o neoliberalismo e a “invenção” do Estado mínimo vão garantir a desregulamentação dos direitos trabalhistas e o baixo custo da força de trabalho, tanto nos países centrais como na periferia, pois o capital globalizado e sem pátria agora busca produzir onde o custo da produção é baixo: salários, matéria-prima ou infra-estrutura”.

Manter o número alto de trabalhadores nas fábricas sairia caro, frente à concorrência com indústrias equipadas com maquinários modernos que barateavam o custo de produção. A saída seria a inserão na modernização e a qualificação de pessoal para operar os modernos equipamentos. Mas, se por um lado a classe trabalhadora ia qualificando-se em determinados setores, como os de siderurgia, por outro lado fragmentava-se e precarizava-se em outras áreas. Uma parcela passou a operar uma multiplicidade de máquinas e outra, bem maior, estacionou, não conseguindo qualificação para tais funções e conseguindo emprego apenas parcial/temporário, ou mesmo não conseguindo emprego. Negros (A cor da pele pode ter sido utilizada como fator de diferenciação no mercado gaúcho), mulheres e imigrantes foram os mais afetados nessa mudança.

Além disso, muitas indústrias não conseguiram nem acompanhar o ritmo de tecnologização que ocorria no resto do mundo e em pólos mais avançados do próprio Brasil. Se faltava mão-de-obra qualificada entre os trabalhadores, também faltava investimento por parte dos donos das indústrias. Por isso, algumas faliram, outras foram embora para estados mais vantajosos financeiramente e outras, poucas, seguiram a funcionar.

Os sindicatos trabalhistas, que eram fortes e atuantes na época de força portuária, perderam força com a criação do Órgão da Gestão de Mão-de-Obra, em 1993, o qual administrava e mantinha um cadastro de trabalhadores avulsos.

A introdução de equipamentos como o guindaste exigia mão de obra qualificada para operá-los. Foto: Liana Coll

O Sindicato dos Arrumadores perdeu associados e, após a primeira metade da década de 1990, sofreu um processo de” terceirização e flexibilização do trabalho”, segundo Marcus Vinicius Spolle e José Carlos Gomes dos Anjos. Os novos trabalhos, perigosos e desqualificados, estavam vinculados aos setores arrozeiros da região: limpeza de silos, sacaria, recolhimento de resíduos dos processos produtivos, entre outros.  Esses trabalhadores, devido ao serviço ser considerado desqualificado e baixo, acabaram por tornar-se invisíveis para a sociedade. Hoje, os arrumadores da indústria  arrozeira perderam prestígio sócio que os antigos estivadores desfrutavam (vale lembrar que a categoria “arrumador” nasceu com o trabalho de estiva e é utilizada no setor arrozeiro atualmente).

O porto de Pelotas, com ou sem estivadores e, mesmo com certa modernização em sua estrutura, foi desativado ainda na década de 1990 e permaneceu assim até o presente ano, quando foi vinculado ao porto de Rio Grande. Os planos de reativação ainda estão em andamento.

Abaixo, breves informações sobre alguns prédios das antigas indústrias fixadas em Pelotas.

Ruínas que contam sobre outra época

Sociedade Anônima Moinhos Rio-Grandenses  (SAMRIG) – A empresa é a atual Bunge. Em Pelotas, era responsável por extração de óleo.

Antiga fábrica de massas e biscoitos, a Cotada. Foto: Liana Coll

Cotada SA– Nome oficial: Atingo Produtos Alimentícios Ltda. Antiga fábrica de massas e biscoitos. Moradores do bairro dizem que costumavam ver os donos, japoneses, passarem com seus carrões elegantes rumo ao trabalho na fábrica. Declarou falência na década de 1990. Nos últimos anos, foram realizadas exposições de arte no interior do prédio, parcialmente deteriorado. No ano de 2009 foi anunciada a compra da estrutura pela Universidade Federal de Pelotas para a instalação de cursos engenharias e licenciaturas noturnos. Por enquanto, as obras ainda não iniciaram.

Parte reformada da antiga fábrica de fiação, onde hoje funciona uma casa de festas norturnas. Foto: Liana Coll

Lateral do mesmo prédio. Foto: Liana Coll

Fábrica de Tecidos – A fábrica estava instalada no prédio em que hoje funciona a casa de festas noturnas “Luna Porto”. A estrutura está parcialmente reformada, mas grande parte dela não é utilizada. A Compania Fiação e Tecidos Pelotenses, como se chamava a fábrica, foi fundada em 1908 e funcionou até 1974, quando declarou falência.

Os empregados eram 1514, dos quais 1015 eram mulheres, de acordo com o Livro de Registros de sócios do Sindicato de Empregados das Indústrias de Fiação e Tecelagem de Pelotas. O material para a fabricação de tecidos, o algodão, chegava através do porto de Pelotas em fardos de 200kg e ia, carregado pelos funcionários, direto para os depósitos, para depois ser transformado em fio. Os fios, por sua vez, juntos eram transformados em tecido.

A fábrica, segundo depoimentos de funcionários dados a Cíntia Vieira Essinger e Letícia Mazzucchi Ferreira no artigo “Espaço dos tecelãos: um estudo sobre o patrimônio operário de Pelotas – RS”, oferecia péssimas condições de trabalho e mantinha um regime rígido, como muitas da época. A Cia Fiação e Tecidos Pelotenses foi uma das maiores da época e impulsionou a formação do bairro da Várzea, no entorno, já que os operários precisavam morar perto do local de trabalho.

Cervejaria Rio-Grandense- De acordo com Carlos Alberto Tavares Coutinho, do blog Cervisiafilia, foi fundada em 1889 pelo capitão Leopoldo Hartel, um imigrante alemão da região de São Leopoldo. O empresário, para realizar tal empreendimento, pediu empréstimo a outro dono de cervejaria instalada na cidade, a Ritter. Na década de 1920 já havia expandido suas locações, com a compra de outros prédios (todos na zona do porto) e chegava a produzir 16 mil garrafas de bebidas (cervejas Peru, Moreninha, Preta e Commercial e gasosas), distribuídas de bondinho pela cidade. Findou na década de 1940 e seus prédios, antes de quase serem demolidos, serviram de depósito de arroz.

Em 1944, a fábrica foi comprada pela Companhia Cervejaria Brahma para a instalação de uma filial e distribuidora, que se manteve até 1998, quando já tramitava um pedido de demolição da estrutura no Ministério Público.

Atualmente, as enormes estruturas não passam muito de paredes. Portas e janelas dos suntuosos prédios foram roubadas e quem passa pela frente enxerga pessoas circulando nos cacos dos andares. A polícia seguidamente “bate” no local em busca de criminosos.

Um dos prédios da Cervejaria Rio-Grandense. Foto: Liana Coll

Kasper & Cia Ltda – A empresa fazia esmagamento de soja em Pelotas. Não ficava exatamente na zona portuária, mas próxima a ela. Hoje, realiza, no Mato Grosso do Sul, armazenagem, esmagamento  e comercialização e exportação de grãos de soja, além de outras atividades. Foi fundada em Carazinho em 1965 por Teldo Kasper. De acordo com o sítio da Kasper, “No início da década de 80 com o aumento da ociosidade no setor industrial de esmagamento de soja a Kasper percebeu as oportunidades que o crescimento da agricultura no Centro Oeste do Brasil iria oferecer, e optou por investir em grandes áreas de produção no cerrado sul-mato-grossense, abandonando a área industrial no sul do País”. As oportunidades referidas fizeram com que ela entrasse nos ramos da pecuária e da agricultura, em todas as suas fases e segmento, ou seja: plantio, colheita e comercialização, cria, recria e engorda. A localização é estratégica, pois o Mato Grosso oferece vantagens em relação a outras áreas. Grandes áreas de terra para a criação de gado e cultivo de vegetais (soja, algodão, millho, sorgo, algodão, trigo. No local onde funcionava a Kasper, recordada pelos pelotenses pelo mal cheiro que exalava, hoje funciona a Green Horse, empresa de montagem e assistência técnica de tratores.

Olvebra – Realizava esmagamento da soja e a produção do óleo Violeta. Funcionou até meados da década de 1990. Junto com a Kasper era responsável por grande parte do esmagamento de soja até a década de 1970, de acordo com estudos de Pedro Marcelo Staevie, Professor Assistente do Departamento de Economia da Universidade Federal de Roraima.

Campus Porto UFPEL, no local do antigo Frigorífico Anglo. Foto: Liana Coll

Entrada para o bairro da Balsa: um muro o separa do campus. Foto: Liana Coll

O novo campus da UFPEL e a entrada do bairro da Balsa, dividido por um muro. Foto: Liana Coll

Frigorífico do Anglo O Frigorífico que existiu também em outras regiões do Brasil foi fundado por ingleses, durante a segunda guerra mundial. Assim como a fábrica de tecidos, também contribuiu para o surgimento de um bairro, o bairro da Balsa. A família de ingleses que era dona do frigorífico exportava carne enlatada para o exército inglês e aliados durante a guerra.  O frigorífico era o maior empregador entre os anos 1950 e 1960 e atraía pessoas de outras cidades (Canguçu, Piratini, Arroio Grande e Jaguarão).

Os industriais ingleses não demonstravam muita preocupação com a qualidade de vida dos funcionários, pois, segundo trabalho realizado por Neuza Regina Janke, “já não se defendia a construção de moradias para os trabalhadores como forma de cooptá-los ou coagi-los a um trabalho metódico e controlado pelo capital”. A preocupação era com o lucro, e não com a situação social dos funcionários.

De acordo com moradores do bairro da Balsa no mesmo trabalho de Neuza Janke, quase todos dali trabalhavam no Anglo e, quando ele fechou, na década de 1990, foi uma tristeza grande pelo desemprego, mas, por outro lado, não houve problemas em relação a ficar “sem teto”, pois um conjunto habitacional já havia se formado nos arredores (mesmo que desorganizadamente). Entretanto, o bairro continua até hoje com condições precárias de saneamento. Os ingleses, por sua vez, puderam regressar à terra próspera quando se viram em dificuldades.

No grande local onde funcionava o Anglo, hoje está sendo construído o Campus Porto da Universidade Federal de Pelotas. Um muro separa o campus do bairro da Balsa.

Ainda há muito a percorrer

Pelotas, como se pode notar, viveu momentos de franca prosperidade em todo o século XIX e em parte do século XX. A atividade das grandes charqueadas fazia circular uma grande renda na cidade. O resultado daquela riqueza ainda se vê nas estruturas das enormes fazendas e dos prédios suntuosos, que reproduziam os modelos arquitetônicos europeus e copiavam o modelo que deveria ser seguido. A cópia e a falta de um modelo específico de trabalho de acordo com o contexto da região também pode ter influenciado na falência das empresas. Além disso, muitas eram de capital estrangeiro e não mantinham um compromisso com a terra. Mas mesmos os empresários pelotenses tiveram dificuldades em levar os negócios adiante quando os problemas surgiam.

Ainda há mais fábricas sobre as quais não há muita informação e muito o que percorrer para retomar a relevância econômica que Pelotas tinha para o estado do Rio Grande do Sul e para o país. Não por uma questão puramente econômica, mas sim pelo desenvolvimento social da população que precisa de trabalho e renda para viver com condições dignas de vida. Só assim a população de lá falará orgulhosamente do presente e não viverá contando as histórias do passado. 

Além das fontes citadas ao longo da reportagem, também foram consultados os seguintes trabalhos e endereços eletrônicos:

Dissertação de Mestrado de Roberto Vieira Júnior

Blog Pelotas Cultural

Confira mais fotografias de prédios em ruínas e também de prédios históricos reformados e restaurados no centro de Pelotas, clicando aqui.

RUÍNAS DE OUTRA ÉPOCA, pelo viés de Liana Coll

lianacoll@revistaovies.com

Leia mais:

O CASTELO EM FRAGMENTOS

SWIFT ARMOUR, ENTRE O PROGRESSO E A ESPERANÇA

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  • gladimir

    Eu achei o site por acaso, e gostei ! São pessoas como vcs que com muito esforço, conseguem nos fazer viajar no tempo e na verdadeira história de pelotas, contada pelas ruína dos prédios que sobraram !!!