AO SÉCULO XXI, PRAZER, NAZIFASCISMO

O repúdio social contra os ataques de jovens nazistas do Rio Grande do Sul em pleno século XXI. Pelo viés de Bibiano Girard.

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Manifestantes seguram faixa com chamada contra a opressão. Direitos: kiranfoto.com

A geração jovem do nosso povo irá atrás de você. Você demonstrará o seu grande sacrifício por esta nação, assim se faz o desejo da juventude para ser abnegado. Por que você encara o conceito de fidelidade para nós. Então, nós desejamos ser fiéis.

Fidelidade é conceito procurado pelos povos, pelas pessoas dentro e fora de casa, no emprego, na luta política, no alcance de mudanças significativas. A fidelidade une, acopla pessoas pelo mesmo ensejo, por uma similar razão de existir, de resistir, de lutar, de se fazer atuante dentro da transformação que se procura. O parágrafo acima foi pronunciado nas primeiras décadas do século XX e até hoje perpetua a ordem e o domínio deste homem que foi leal a sua juventude, assim como os grandes líderes do mundo também o foram. Este homem é Adolf Hitler, chefe maior do partido Nazista da Alemanha. Um exímio assassino. Fanático  e demente.

“Mein Kampf”, traduzido para “Minha Luta”, o livro no qual Adolf expõe suas teorias para um Estado “perfeito”, escrito em 1924, é como um manual de vida para jovens e adultos do mundo inteiro até hoje. As teorias para uma vida melhor de Mein Kampf só não embolsam como partidárias pessoas que não captam a insanidade do julgamento, do assassinato e do preconceito. Para todos aqueles que acreditam que um país limpo é um país formado por pessoas da mesma raça, credo e opinião, Mein Kampf serve como uma sagrada escritura.

Porto Alegre, capital do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, tem assistido a atos nazistas há muitos anos. Ao contrário do que se pode imaginar, tais façanhas nazifascistas são obras de pessoas entre 20 e 40 anos, e não de anciões adoradores da velha Alemanha nazista da década de 1940.

Manifestante ergue o estandarte da "Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta FavelA". Atrás, manifestante segura uma Wiphala, bandeira que representa todos os povos andinos. Direitos: kiranfoto.com

Em 2011, grupos minoritários avaliados como problema da sociedade por coligações neofascistas, como o Utopia e Luta, no centro de Porto Alegre, ainda são hostilizados. Mesmo depois de sessenta anos. Mesmo depois de o Partido Nazista ter trucidado 17 milhões de soviéticos, 6 milhões de judeus, 5,5 milhões de alemães, 2 milhões de chineses, 4 milhões de poloneses, 1,6 milhão de iugoslavos, 1,5 milhão de japoneses, 535 000 franceses, 450 000 italianos, 396 000 ingleses e 292 000 soldados estadunidenses, Adolf Hitler ainda é herói para estes jovens. Limpou as ruas da Alemanha, eliminou moradores de rua, ciganos, homossexuais, doentes mentais. Foi um grande guia adotado por pessoas de variadas nacionalidades. Pessoas que buscam refazer tais façanhas: limpar o mundo da “sujeira humana”.

Após os atos preconceituosos por parte do grupo nazifascista em Porto Alegre, mais uma marcha tomou conta das ruas da capital. Desta vez o chamado à população era encabeçado pela comunidade autônoma Utopia e Luta. Às 19 horas, grupos de homens, mulheres e crianças foram surgindo pelas escadarias do viaduto onde se localiza o “Utopia e Luta”, batendo tambores, entoando gritos de ordem, segurando bandeiras e cartazes. Em um cartaz pequeno, a frase “contra todas as formas de opressão” traduzia o ensejo do protesto.

"Contra todas as formas de opressão". Direitos: kiranfoto.com

A “Comunidade Autônoma Utopia e Luta” é uma ocupação do antigo prédio do Instituto Nacional de Seguridade Social, ligado ao Ministério da Previdência, abandonado há anos. Fica localizada nas escadarias do viaduto Otávio Rocha, na Avenida Borges de Medeiros, uma das principais vias da capital gaúcha. Localizada na zona central da cidade, a comunidade tem como propósitos “construir uma forma diferente de sociedade, de organização e de vida para quem mora nesta comunidade, que busca uma autogestão e uma independência do sistema capitalista a sua maneira, construindo hortas, lavanderias comunitárias, local de costura, de uso por todos os moradores”, como Coordenação do Movimento se apresenta. Um dos fins mais válidos dos quais o grupo se propõe, é o de propiciar o acesso a moradias dignas, sendo reduzido o preço do aluguel para quem não possui condição financeira de pagar para ter o direito de residir em um lugar adequado. Esta comunidade, sem saber os reais motivos, foi duramente atacada pela segunda vez em pouco tempo pelo grupo neonazista do Rio Grande do Sul.

O grupo pichou suásticas (símbolo usado pelo Partido Nacional-Socialista de Hitler) e outros símbolos nazistas na fachada do prédio. Também foi encontrada uma foto do grupo hostilizando e esfaqueando a bandeira do “Utopia e Luta”.

Em entrevista ao Coletivo Catarse, Guilherme Schröder, integrante da comunidade atacada, falou que nesta segunda agressão ao patrimônio e também à liberdade de escolha do modo de vida, a bandeira foi outra vez agredida.  “Desta vez, ocorreu que eles tentaram arrancar nossa bandeira, novamente, e fizeram algumas pichações no nosso mural e também algumas pichações no viaduto. Já é uma ofensa reincidente. Alguns meses atrás eles arrancaram a bandeira que nos identifica e ridicularizaram-na”, disse Guilherme (veja vídeo aqui).

Mas os atos violentos atentados por coligações neonazistas não são recentes. Em novembro de 2010 a Polícia Civil do Rio Grande do Sul apreendeu em uma residência localizada na Rua Riachuelo, no Centro da cidade, localizado próximo à Comunidade Autônoma, material diverso com apologia ao nazismo e a Adolf Hitler. O delegado encarregado pela ação, Paulo César Jardim, que coordena o combate ao neonazismo no Estado, afirmou que o lugar era mais uma célula neonazista no Rio Grande do Sul. Havia no local material para briga, como estiletes e correntes, além de roupas com a suástica, livros e CDs apologéticos. O grupo neonazista gaúcho é formado por jovens de 15 a 30 anos, ricos, pobres, classe média.

Na mesma ocasião das apreensões, a polícia encontrou vídeos em que aparecem cenas de violência contra negros, homossexuais, judeus e manifestações contra o senador Paulo Paim (PT), defensor das cotas raciais nas universidades brasileiras.

Levanta FavelA. Direitos: kiranfoto.com

Em 2005, quatro jovens autodenominados skinheads, os quais perseguiam negros, homossexuais e judeus, foram indiciados pela polícia por tentativa de homicídio. Em maio do mesmo ano, um grupo de jovens que usavam quipás, o pequeno chapéu utilizado pelos judeus, encontrava-se em um bairro de intensa vida noturna da capital gaúcha quando aproximadamente dez skinheads, entre eles os quatro indiciados, os atacaram a facadas. Os jovens foram internados com várias perfurações nos órgãos, mas resistiram à agressão. A ofensiva foi arranjada precisamente com data escolhida, 8 de maio – 60 anos do fim da Segunda Guerra Mundial – o que para a polícia e para o Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) explicitaria a intenção do grupo: matar como forma de revide à data na qual o nazismo como forma de governo foi combatido.  O mesmo grupo skinhead havia espancado um jovem punk no ano de 2003. No episódio, oito skins foram condenados a 126 dias de trabalhos comunitários.

Conforme publicado pelo “Utopia e Luta”, esta última marcha, ocorrida na sexta-feira, dia 8 de julho de 2011, conseguiu juntar centenas de pessoas indignadas com o que vem ocorrendo no Rio Grande do Sul. “Porque tanto ódio? Existe uma força contrária muito grande para aqueles que se propõem a mudar o sistema, mesmo que da sua maneira, no seu espaço. E esses grupos não se posicionam apenas contra comunidades autônomas que querem mudar o mundo, se posicionam contra gays, negras e negros, judias e judeus, pobres, moradores de rua, e se posicionam muitas vezes com violência”, explicita a coordenação do movimento.

Os serviços governamentais que estudam tais grupos agressores já coletaram documentos os quais indicam que os grupos neonazistas estão muito bem espalhados pelo país e tem sim uma força perigosa a pessoas pertencentes a alguma “categoria humana” a qual não seja aceita pelos integrantes. Há ramificações em todo o país. No estado de São Paulo, a zona do ABCD e a capital são os locais onde os grupos são mais violentos. Em Santa Catarina, agem, maiormente, na cidade de Joinville. No Rio Grande do Sul,  têm evidência na região metropolitana de Porto Alegre. E não é apenas um grupo. Há dissidências entre eles.

E como no início dos anos 1940, quando a sede do Partido Nazista do Rio Grande do Sul funcionava com bandeira na porta, os neonazistas já pensam em cargos políticos. Segundo o delegado Paulo César Jardim, os grupos articulam também candidaturas políticas em pequenas cidades.

Movimentos e comunidades como o “Utopia e Luta” terão bastante trabalho pela frente caso os poderes públicos não consigam derrocar tais comitês neonazistas. Grupos como o Blood & Honor (Sangue e Honra), por exemplo, já existe há mais de 9 anos, e continua com seiva preconceituosa, capaz de crimes hediondos, mesmo depois de a polícia ter conhecimento dos episódios e da história de alguns integrantes. O que se sabe é que os nazifascistas brasileiros seguem com força sua empreitada. O grupo Neuland (terra nova, em alemão), atribuído ao economista paulista Ricardo Barollo, já tem atribuída em sua lista de investigação criminal duas mortes no Paraná.

Com a Marcha da Liberdade de um lado, a Marcha da Maconha do outro, e vários pequenos protestos pelo país inteiro, o ato da última sexta-feira merece uma atenção mais rigorosa da sociedade brasileira. Fez-se necessária a presença de muitos, já que o desinteresse da mídia em divulgar o agravamento dos fatos deixa também um vácuo entre aqueles que não se calaram e foram às ruas e aqueles que, em suas casas, de nada sabiam. “Caminhamos pelas ruas do centro de Porto Alegre com a digna resposta a qualquer grupo neonazista, fascista, machista, racista, que tente levantar a bandeira do ódio e do preconceito”, defendem os manifestantes.

As pessoas vão às ruas. Direitos: kiranfoto.com

O Movimento Utopia e Luta declara:
O repúdio a tais agressões contra a sociedade porto-alegrense com símbolos sinônimos de morte, destruição, preconceitos, genocídios e barbárie que a humanidade tem lutado e luta por desterrar de suas sociedades em procura de um mundo de vida e não de morte e segregação étnica.

AO SÉCULO XXI, PRAZER, NAZIFASCISMO, pelo viés de Bibiano Girard, com contribuição textual do Coletivo Catarse e Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta FavelA.

bibianogirard@revistaovies.com

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