CRACK: O USO, A REDUÇÃO DE DANOS E O TRATAMENTO

Entre os trabalhadores da área da saúde, parece ser consenso de que a ideia construída sobre o crack precisa de maior discussão social para que seu conceito não se reduza. O crack é uma droga que vicia com mais rapidez, porém nenhum estudo científico comprova que o vício começa na primeira vez de uso, como é divulgado na mídia. A droga atingiu camadas mais ricas da sociedade; enquanto apenas fazia parte de um cenário marginalizado, pouco se temia.

Campanhas como a "Crack nem pensar", do Grupo RBS, trabalham com o medo e o proibicionismo, ao invés de estimularem o debate.

O crack é uma etapa do processo de produção da cocaína. É um dos primeiros estágios e disseminou-se quando a venda dos solventes que purificavam a cocaína foi controlada, assim, o custo diminuiu para produção e para consumo, mas também o produto resultou de menor qualidade. Entre moradores de rua, ele também foi e é usado para enganar a fome e o frio, por exemplo. Para os que possuem o vício, existe tratamento dentro de centros de saúde pública: em Santa Maria, os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), a Casa de Saúde e o SERDEQUIM (Serviço de Recuperação de Dependentes Químicos), no HUSM (Hospital Universitário de Santa Maria) o fazem.

A política de Redução de Danos

O Ministério da Saúde faz uso da política de redução de danos. Ela promove a distribuição de insumos e material descartável, que reduzem os danos no indivíduo e, consequentemente, os gastos públicos na área da saúde. No caso específico do crack, o cachimbo não é distribuído, cabendo isso a organizações não governamentais – ONGs. Essa redução de danos que freia paulatinamente o vício e doenças que se associam ao consumo irresponsável, não está apenas para o crack, mas também para outras drogas, como as injetáveis.

O Projeto Ítaca da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) oferece, em períodos determinados no início dos semestres, cursos para capacitar interessados em pensar o uso de drogas e aí formar redutores de danos. É o único projeto proveniente de uma universidade no país. Professor da UFSM e Doutor em Ciências Sociais e Políticas pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, Guilherme Corrêa é coordenador das atividades. O trabalho forma uma corrente, pois quem aprendeu nos cursos, pode ser professor depois, ensinando o diálogo e analisando os casos especificamente, ou seja, de uma forma complexa, ouvindo o usuário e sua história, conversando para que o dependente administre seu uso, faça-o de uma forma mais “saudável”, sem a necessidade da proibição. O redutor de danos faz uma ponte entre o Sistema de Saúde e os usuários de drogas.

Guilherme Corrêa diz que a proibição é uma saída ineficaz, pois está baseada em medo e punição. “Se é um trabalho educacional, esse trabalho não pode ter como meio punição, proibição, nada disso”, diz, “o uso das drogas ilegais alivia o outro lado, que é o uso das drogas legais, das drogas com receita médica” que também causam vício. Isso não é uma forma de ratificar o uso, mas sim de pensá-lo.

As drogas legalizadas, como tabaco e álcool, são causadoras da hipertensão, uma das doenças que mais acometem a população brasileira, sendo também causada pelos altos índices de sal e gordura que consumimos associados ao modo sedentário de vida. “A questão é que a proibição não possui comprovações científicas”, afirma. Corrêa diz que o crack é uma droga especial, justamente por ser das impurezas da cocaína, então, mais uma das formas de administrar o uso é que ele seja feito de produtos com qualidade, mas quem controla a qualidade do que é criminalizado?

SERDEQUIM

No Hospital Universitário de Santa Maria, o tratamento para dependentes químicos é feito pelo SERDEQUIM, Serviço de Recuperação de Dependentes Químicos. Com 15 leitos, o período de recuperação de um interno fica em torno de dez dias, sendo que o ideal é o de uma semana. No entanto, a quantidade de pessoas é maior do que a disponibilidade de espaço físico, profissionais de saúde e tempo.

O número de dependentes do crack é baixo no SERDEQUIM por dois motivos: um, o álcool, ainda que a busca seja pela cura por dependência em outra substância, é sempre um ponto de encontro e, em grande parte, partida do vício; dois ou mais internos dependentes do crack, por força das relações, acabam por retornar ao vício. “Na verdade, o álcool é mais devastador do que o crack. O crack é uma droga muito perigosa, dano orgânico bastante sério, mas não dá para esquecer do álcool: diabetes, hipertensão, acidente de trânsito são causados pelo álcool. Acho que acidente de trânsito pelo crack não tem, não é?”, diz o enfermeiro do HUSM João Pedro de Barros.

Grande parte dos internos procura a Unidade do SERDEQUIM por vontade própria, porém a ordem judicial também é uma maneira de conseguir vaga. A Unidade não trabalha sozinha, já que os postos de saúde locais contribuem para o auxílio de ex-internos que recaem, no entanto, essa rede não funciona completamente. O encaminhamento de outras unidades, como pelos CAPS ou secretarias de saúde acontece, mas é mais raro; se ocorresse, o trabalho poderia ser melhor para profissionais e usuários, já que o atendimento se prolongaria, não ficaria focado apenas no SERDEQUIM. A rede de apoio é fraca, “são vários serviços, mas se eles não se interligarem, fica difícil”, diz João Pedro de Barros, “e o tratamento não termina quando eles dão alta daqui”.

Jornal 100% Sobriedade (Foto: Portal da UFSM)

Laura Ferreira Cortes, enfermeira da Residência Multiprofissional, trabalha na recuperação de dependentes no SERDEQUIM e é uma das idealizadoras do jornal 100% Sobriedade, nomeado pelos próprios internos. Eles mesmos produzem o material que é publicado, que vai de desenhos a poesias como forma de trabalhar coletivamente a situação de dependência. Alguns, já recuperados, retornam e escrevem textos dando seus exemplos, já que, segundo o enfermeiro João Pedro de Barros, é mais fácil convencer alguém que faz o uso desmedido de alguma droga através do exemplo de alguém que também o faz, e não falando forçosamente.

A enfermeira Marlene Terra coordena um projeto federal para formar Centros Regionais de Referência em tratamento de álcool e outras drogas. Esse Centro não objetiva tratar dependentes, mas sim ser um centro de estudos que possa formar profissionais da área da saúde para trabalhar com dependência química. Os cursos irão capacitar médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, agentes comunitários de saúde, além daqueles que trabalham pela rede SUS (Sistema Único de Saúde) em consultórios de rua. O curso é uma parceria com a 4ª Coordenadoria Regional de Saúde, e vai abranger profissionais de 31 municípios. A metodologia é problematizadora, pois entende que a conversa com o usuário deve ser horizontal, logo, os primeiros a serem capacitados são os professores destes cursos.

O trabalho horizontalizado com os usuários vai ao encontro do que fala Laura Ferreira Cortes sobre o estigma criado sobre dependentes: “Algumas campanhas fragmentam e contribuem ainda mais para estereotipar as pessoas, para fragmentar o planejamento das ações de saúde”; dessa forma, reduz-se o conceito e fica no imaginário um usuário que não é bem daquela forma. João Pedro de Barros complementa “porque não se incentiva uma vida saudável?”.

CAPS AD

O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Santa Maria possui duas unidades de CAPS AD, modalidade que tem seu trabalho voltado ao auxílio de pessoas com transtornos mentais causados pela dependência de álcool e de outras drogas psicoativas, entre elas, o crack.

A unidade Caminhos do Recomeço oferece tratamento terapêutico e operativo para jovens até os 29 anos e, devido à faixa etária, o crack figura como a principal droga causadora de dependência. A unidade Caminhos do Sol atende a pacientes maiores de 30 anos e, devido a esse perfil, o alcoolismo figura como principal dependência, seguida do vício de crack.

A procura pelos serviços do CAPS dá-se de várias formas: a pessoa encaminha-se voluntariamente, ou então pode ser encaminhada pela família, pela Justiça, por outros serviços de saúde ou ainda pelos conselhos tutelares. Assim que é cadastrado, o dependente passa por uma entrevista prévia, que define o turno e a freqüência das visitas ao Centro.

O assistente social Muriel Anselmo Oliveira, que trabalha no CAPS AD Caminhos do Sol, fala sobre o cotidiano dentro do Centro: “A rotina de tratamento envolve oficinas operacionais de culinária, corte e costura ou horticultura, que servem também como tratamento terapêutico. Além de grupos de apoio, em que cada dependente fala sobre o andamento de seu tratamento, cada paciente recebe um atendimento individual, com psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais.”  Se um dos pacientes deixa de comparecer às reuniões, é necessário fazer uma busca ativa, indo até a sua residência e descobrindo o porquê de sua ausência. Porém uma das maiores deficiências dos Centros de Santa Maria é relacionado ao transporte. Por não ter um carro próprio, as buscas ativas são quase impossibilitadas. Além disso, muitos pacientes vêm de bairros afastados dos CAPS e necessitam pegar mais de um ônibus, porém a burocracia e a demora para conseguir um cartão junto à Associação de Transporte Urbano (ATU) algumas vezes acaba desestimulando-os a comparecer nas visitas, principalmente na fase inicial do tratamento, considerada a mais difícil.

O CAPS AD, no entanto, não consegue suprir totalmente a demanda. A unidade Caminhos do Sol, por exemplo, tem a capacidade de fazer acompanhamento de 25 pacientes por turno, entre alcoolistas e dependentes de outras drogas. Quando alguém procura o serviço e o grupo está completo, faz-se um cadastro e, assim que vaga um lugar – por desistência do paciente ou por esse ser liberado – procura-se ele.

O Centro de Atenção Psicossocial não trabalha com internações, e sim com tratamento ambulatorial. Quando o grupo de profissionais do CAPS vê a necessidade de internação de algum dos pacientes, encaminham-no para outros locais. Na cidade, o principal hospital público que oferece o serviço é a Casa de Saúde.

CASA DE SAÚDE

A Casa de Saúde de Santa Maria é administrada pela SEFAS – Associação Franciscana de Assistência à Saúde, num convênio que envolve a prefeitura de Santa Maria e o governo estadual para que se possam oferecer leitos pelo Sistema Único de Saúde. Entre os serviços oferecidos, está o de internação para dependentes do uso de crack.

Na Casa de Saúde, os internos são divididos em duas alas: a primeira oferece 15 leitos para adolescentes masculinos; a segunda ala, que iniciou no início de 2010, possui 10 leitos para mulheres, com prioridades para as grávidas encaminhadas por ordem judicial, e que ficam até o fim da gravidez; a terceira ala possui quatro leitos psiquiátricos, para pacientes que não são usuários de crack ou de drogas, e sim possuem quadros graves de doenças como bipolaridade e esquizofrenia.

O serviço possui psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e um psiquiatra, além de estagiários de Terapia Ocupacional e Fisioterapia. Esses profissionais aproveitam o momento de internação para a desintoxicação para trabalhar com os pacientes outros temas, como a prevenção à recaída, orientações sobre doenças sexualmente transmissíveis e planejamento familiar.

O encaminhamento pode dar-se por ordem judicial ou pela 4ª Coordenadoria de Saúde, mas, na maioria das vezes, dá-se pela psiquiatra do CAPS. Se houver leito vago, o usuário é internado imediatamente, caso contrário busca-se outros serviços de internação dentro e fora da cidade, o que acontece frequentemente, visto que o serviço está sempre lotado. O período de internação varia de 21 dias a 3 meses, dependendo da avaliação dos profissionais sobre o avanço do tratamento do paciente e assim que recebe alta, o paciente continua sendo acompanhado pelo CAPS AD.

O índice de recaída de dependentes de crack é maior que o de outras drogas, visto que o seu perfil costuma ser o de uma pessoa de zonas de vulnerabilidade social e econômica, vinda de famílias multiproblemáticas, que assim que recebe alta, volta a essa realidade. Nota-se assim que o acompanhamento, tratamento e internação oferecidos pelos serviços de saúde pública necessitam de mais investimentos, pois não suprem a demanda do número de dependentes necessitados de tratamento.  Mesmo que suprissem, esses serviços não resolveriam sozinhos o problema, visto que é necessária uma política pública, não só na área da saúde, que aja na base da sociedade, que melhore a qualidade de vida dessas pessoas, e assim afaste-as das condições que podem levar ao uso. Não basta apenas tentar remediar quando o problema já está instaurado. 

Reportagem extendida da publicada sob o título “O Uso do Crack” na revista Sintoma, do curso de Jornalismo da UFSM.

CRACK: O USO, A REDUÇÃO DE DANOS E O TRATAMENTO, pelo viés de Caren Rhoden e Felipe Severo

carenrhoden@revistaovies.com

felipesevero@revistaovies.com



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