LATINOS: DARCY RIBEIRO, O AMANTE DO BRASIL

LATINOS: De assessor de Salvador Allende a fundador da Universidade de Brasília. Darcy Ribeiro e suas peles. Pelo viés de Bibiano Girard

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“Quanto a mim, o que tenho a dizer, confessional, é que sou um homem de sorte”. A citação lida para os presentes em um dos ritos de posse da Academia Brasileira de Letras simplifica em dezesseis palavras a vida e a obra de um brasileiro admirável, que ao pelejar contra as calúnias discorridas sobre seu país e sobre seus irmãos de candura, deixou de herança a seus conterrâneos toda a sabedoria das vitórias e toda a ciência humana para ver o outro, de suas contradições aos seus encontros. Da maravilha que é viver ao questionamento mais duro do que é lutar e, às vezes, perder.  Um homem adverso à estupidez não subjugada por quem teria capacidade de fazê-la. Com a habilidade que só os sábios dominam, defendeu em escritos toda a desmistificação sobre os “erros” do nascimento do povo brasileiro, o qual, para as classes abastadas, seria o problema histórico do atraso que o Brasil sofreria em relação ao mundo.

“Por isso mesmo, o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais”. Darcy ultrapassou a grotesca faceta dos livros-padrão, sobrepujou a concepção de ser somente um mestre reprodutor do que permanecia documentado nos livros sucessivamente historiados pela camada abastada, pelos intelectivos de escritório, pelos brancos colonizadores dos tempos de Cabral, aos emissários da voz da burguesia procriadora, sobretudo por empenhos exclusivos a sua conveniência, do segregacionismo e do convencionalismo. “Trata-se, obviamente, do discurso ideológico de nossas elites. Muita gente boa, porém, em sua inocência, o interioriza e repete. De fato, o único fator causal inegável do nosso atraso é o caráter das classes dominantes brasileiras, que se escondem atrás desse discurso. Não há como negar que a culpa do atraso nos cabe é a nós, os ricos, os brancos, os educados, que impusemos, desde sempre, ao Brasil, a hegemonia de uma elite retrógrada, que só atua em seu próprio benefício”.

Darcy Ribeiro nasceu em Minas Gerais, na cidade de Montes Claros, porta de entrada do sertão nordestino, no Vale do São Francisco. Era filho de Reginaldo Ribeiro dos Santos e de Josefina Augusta da Silveira. Em Montes Claros fez os estudos fundamentais no Grupo Escolar Gonçalves Chaves e o secundário no Ginásio Episcopal de Montes Claros. O menino nascido no ano da posse de Artur Bernardes como presidente da República, à mesma época em que São Paulo borbulhava com a Semana da Arte Moderna, pouco tempo depois se tornaria nome relevante equivalente a dos grandes políticos, dos intelectuais, dos abissais catedráticos e da classe cultural e científica do país.  

“Outra saudosa pele minha foi a de etnólogo indigenista. Vestido nela, vivi dez anos nas aldeias indígenas do Pantanal e da Amazônia”. Em 1946, já interessado nas realidades camufladas da fábula brasileira, forma-se em Ciências Sociais, com especialidade em Antropologia, pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. A partir do primeiro título profissional, Darcy Ribeiro não vivenciaria mais um ano sequer sem honrarias oferecidas, fosse dentro de Instituições, fosse pela leitura de uma de suas obras pelos educandos e cientistas do Brasil e do mundo, inclusive presentemente. Darcy queria perfilhar, almejava saber dos índios, conhecê-los não por fotografias de livros como se fossem produtos com rótulos, mas aspirava fazer-se indígena para apossar-se da noção do que isso representava aos olhos dos estranhos, os “cidadãos civilizados”. Para isso, destina seus anos iniciais como profissional ao esboço antropológico o mais contíguo da realidade dos índios do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia.

Impraticável a volta para o meio citadino sem elementos fundamentais de ciência inteiramente diferenciados. O antropólogo Darcy Ribeiro trazia boas novas a seu favor. Seguindo a ordem da antropofagia, tudo o que lhe restava era escrever, teorizar e apontar para o Brasil do início do século XX quem eram os moradores das matas. Com frutos vistosos pendentes de sua astúcia, cunha o Museu do Índio e formula o projeto de criação do Parque Indígena do Xingu. Décadas depois, o leitor brasileiro teria a oportunidade de ler “Diários Índios: os Urubu-Kaapor”, que difundiu integralmente as explanações de campo registradas em forma de cartas à Berta Ribeiro durante os anos de 1949 a 1951. Berta era casada com Darcy desde 1948. De origem judaica, veio morar no Brasil acompanhada da irmã, Jenny Gleizer, e do pai, Motel Gleizer. Com o sumiço da irmã, o pai vai à Europa, onde é preso em um campo de concentração e morto. A esposa de Darcy, ainda jovem, fica sobre responsabilidade do Partido Comunista do Brasil, do qual seu pai e sua irmã eram militantes.

Seriam o Partido Comunista e um protesto realizado em 1946 os responsáveis pelo encontro entre Berta e Darcy. Uniram-se além das núpcias tradicionais. Darcy descobrira além de uma esposa, uma companheira inigualável. No mesmo ano em que casaram, Darcy ingressou na Seção de Estudos do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Berta dá início, então, a seus próprios esboços, atrelando ciências aperfeiçoadas à faina de ambos. Berta chegaria aos índios Kadiwéu, Kaiwá, Terêna e Ofaié-Xavantes do Sul do Mato Grosso.

As façanhas de Darcy Ribeiro não se contiveram à aproximação com a atmosfera indígena e à abertura do pensamento do cidadão urbano sobre seus irmãos de mesma terra. Darcy era também um exímio educador. “Pele que encarnei e encarno ainda, com orgulho, é a de educador, função que exerço há quatro décadas. Essa, de fato, foi minha ocupação principal desde que deixei etnologia de campo”.

A partir de 1955 seria Professor de Etnologia da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, permanecendo no cargo por aproximadamente um ano. Em 1957, tornava-se Diretor de Estudos Sociais do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais do Ministério da Cultura, até 1961. Um pequeno passo dentro do Ministério o levaria ao cargo principal: em 1962, o então Presidente da República, João Goulart, convidava o jovem Darcy Ribeiro a tornar-se Ministro da Educação.

A nova capital brasileira completava dois anos quando a excitação do antropólogo Darcy Ribeiro uniu-se à percepção de um arquétipo pedagógico perfilado pelo educador Anísio Teixeira. Com o compromisso de transformar a silhueta da educação superior, emaranhando os distintos formatos do conhecimento para formar brasileiros militantes do desenvolvimento do país, Darcy e Anísio instituam a Universidade Federal de Brasília. Para dar literalmente alicerces à UnB, os desenhos dos prédios ficariam por conta, é claro, do arquiteto Oscar Niemayer. “Eu investia contra o analfabetismo ou pela reforma da universidade com mais ímpeto de paixão que sabedoria pedagógica. Não me dei mal. Acabei ministro da educação de meu país e fundador e primeiro reitor da UnB”.

Como os brasileiros bem sabem, o sonho de um país diferente dos Brasis que até então se conheciam virou pó nas mãos de militares golpistas. O governo de João Goulart, promissor em realizar reformas necessárias à constituição de um país mais justo e menos desigual, cai no dia 1º de abril de 1964. Darcy Ribeiro, assim como outros milhares de cidadãos, encontrava-se na lista das pessoas não quistas na concepção do Brasil militar: ame ou deixe-o. E infelizmente muitos adoradores da nação e do povo brasileiro saíram, pois “amar”, para os militares, não era o mesmo que “amar”, para os exilados. Darcy estava entre eles. No exílio, sua disposição para o romance arrebenta. Começa a escrever “Maíra” e “O mulo”.

O mundo daria voltas e mais voltas até Darcy Ribeiro ser empossado Vice-Governador do Rio de Janeiro em 1982, tendo como Governador e amigo o utópico e idealizador Leonel Brizola. “Sempre fui, em toda a minha vida adulta, um cidadão ciente de mim mesmo como um ser dotado de direitos e investido de deveres. Sobretudo o dever de intervir nesse mundo para melhorá-lo”.

Seria em 1983 que as capacidades de um vice-governador antropólogo e educador implantariam o projeto mais popular dos governos de Brizola: o Programa Especial de Educação, idealizado por Darcy, com a proposta da implantação de 500 escolas CIEPs, as quais seriam escolas de horário integral para crianças e adolescentes. “Obras, escritos, cargos, fiz, tentei e exerci muitos. Nisto gastei minha vida. Uns poucos deles ficaram com minha marca nos mundos por que passei, enquanto passava: um sambódromo, um parque indígena, museus, muitas bibliotecas, demasiados ensaios, quatro romances, muitíssimas escolas, algumas universidades. Não é pouco, quisera mais. Sempre quero mais. Muito mais”.

Conseguiria idealizar a Biblioteca Pública Estadual do Rio de Janeiro, a Casa França-Brasil, a Casa Laura Alvim, o Centro Infantil de Cultura de Ipanema e o afamado Sambódromo.   

E Darcy, por brasileiro nato e por amor irrevogável, não se esquecia também de sua latinidade. Suas ideias levou atravessando as fronteiras da América do Sul para implementar programas de reforma universitária, com base em suas ideias guardadas no livro “A universidade necessária”.

Darcy Ribeiro: assessor de Salvador Allende, assessor de Velasco Alvarado. Vice-governador do Rio de Janeiro, fundador e primeiro reitor da Universidade Federal de Brasília, educador, antropólogo, senador, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Paris IV – Sorbonne, político, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Copenhague, escritor, Doutor Honoris Causa pela Universidade da República do Uruguai, ensaísta, Doutor Honoris Causa pela Universidade da Venezuela, criador do Parque Floresta da Pedra Branca, no Rio de Janeiro, sendo a maior floresta dentro de um espaço urbano do mundo. Imortal.

“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. 
Tentei salvar os índios, não consegui. 
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. 
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. 
Mas os fracassos são minhas vitórias. 
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”

Darcy Ribeiro partiu para outra jornada em 17 de fevereiro de 1997, após ter organizado a Fundação Darcy Ribeiro e ter se dedicado a organizar a Universidade Aberta do Brasil. 

LATINOS: DARCY RIBEIRO, O AMANTE DO BRASIL, pelo viés de Bibiano Girard  

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  • Demetrio

    Muito bom o texto. Acabei por lembrar de outro educador, Simón Rodriguez, venezuelano do século XIX, professor e mentor intelectual de Simón Bolívar, que ao final da vida, solitário, pobre e esquecido, disse: “Tentei fazer do mundo um paraíso para os outros, acabei por fazer dele um inferno para mim.”

    Mas a lembrança dos vencidos da história é importante para os que hoje lutam por um mundo melhor.

    Um abraço.
    D