LATINOS: PINO, A ARGENTINA COMO BANDEIRA

LATINOS: A trajetória da vida de um cineasta e político que sonha com uma Argentina mais justa. Pelo viés de Bibiano Girard e Liana Coll.

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“No extremo sul da América Latina desdobra-se o triângulo da Argentina, uma superfície quase tão grande como a Europa Ocidental, mas com apenas 15% de sua população. Da Terra do Fogo à Quiaca, 4.000 Km de extensão com todos os solos e climas. Uma costa marítima de 900.000 quilômetros quadrados e uma das maiores reservas de água potável do planeta. Cultiva 30 milhões de hectares e mantêm outros tantos de terras fiscais, mas sem uma legislação que a proteja frente ao latifúndio e sua crescente ‘estrangeirização’. É um dos grandes produtores mundiais de alimentos, mas um terço da população vive em condições de pobreza” (Argentina Latente, 2007).

Estas são as palavras de um senhor de cabelos brancos que denunciam a casa dos setenta anos aos quais pertence seu narrador. Demonstrando a potencialidade dos argentinos em fazer-se novamente um país moderno e de vanguarda, produzindo grande parte do que seu próprio povo necessita, Fernando Ezequiel Solanas desfecha: “Uma indústria petroleira estatal que obteve a auto-suficiência, mas que foi privatizada com manobras fraudulentas”.

De boné ou com a cabeleira um pouco desorganizada, Fernando caminha pelas ruas de Buenos Aires como um cidadão comum. O atentado que o ferira com seis tiros nas pernas e a frase deixada como aviso pelos atiradores, “si no te callás la boca, la próxima es en la cabeza”, fizeram-no impacientar contra quem mandara emboscá-lo. De diretor de cinema, roteirista, ator e produtor de cinema engajado com as causas sociais e a luta do povo por direitos, Pino Solanas, como é conhecido, engajou-se na política para lutar contra o neoliberalismo que, segundo ele, segue através do governo de Cristina Kirchner: “o governo do Partido Justicialista representa um falso progressismo que, para além dos discursos, tem uma cara neoliberal”. Solanas, que se denomina homem da real esquerda, também acusa a presidente Cristina Kirchner de ser uma “falsa” esquerdista. “É aliada aos capitais estrangeiros, entre os quais companhias telefônicas e de minérios”.

Nascido em Buenos Aires em 16 de fevereiro de 1936, Pino Solanas despontou nos últimos anos como um prenúncio de inovação e emersão da esquerda na luta para reverter o quadro atual da sociedade argentina arrasada pela crise de 2001, fruto de anos de despatriotismo. Enquanto o país era ofertado “a preço de banana” para o imperialismo estadunidense, desde os ditadores, passando pela década de devassa de Carlos Menem na presidência, até o presidencialismo do casal Kirchner, Pino Solanas persistia sua luta audaciosa contra o desmembramento de sua pátria. Junto à peleja política de cidadão insatisfeito, Pino refletia em sua obra cinematográfica o inconformismo socialista sobre a desigualdade e os aparatos opressores.

Em 1968, com trinta e dois anos, Solanas realizava clandestinamente seu primeiro longa-metragem, “La Hora de los Hornos”, gravado em preto e branco. Sobre a realização de um longa dividido em três partes que trata sobre o neocolonialismo e a violência em seu país e em toda a América Latina, Pino desabafa: “como posso transmiti-los o que significou para nós essa época quando tínhamos menos de trinta anos e desafiando medos e proibições nos lançamos a mais bonita e difícil de nossas ‘aventuras’, como foi conceber e realizar ‘La Hora de los Hornos’? Como poderia narrar-lhes a violência institucionalizada e o desânimo imperante em mais uma década de ditaduras e de governos surgidos sob a cobertura da burguesia e do patronato nacional?

No ano seguinte Pino organizaria a confraria de cinema Cine Liberación, junto a Otávio Getino, os quais unidos conseguiriam demonstrar em suas películas o engajamento pela construção de sociedades mais justas e da descolonialização do pensamento intelectivo. Nessa época o país era governado por uma junta militar autodenominada Revolución Argentina, presidida pelo general Juan Carlos Onganía, o qual dirigia um projeto político e econômico fundamentado em uma série de medidas a fim de abrir o mercado interno aos monopólios internacionais e também no congelamento dos salários. A Argentina fervia. Em Córdoba acontecia o cordobazo. Em Corrientes, o correntinazo. Em Rosário, o rozariazo. Todos assim denominados por serem movimentos de protestos acontecidos entre maio e setembro de 1969 contra a ditadura de Onganía. Os protestos incluíam manifestações e greves. Pino impulsionavam um circuito alternativo de difusão através de organizações sociais e políticas de resistência à ditadura.

O Cine Liberación seria convidado por Juan Domingo Perón, presidente da Argentina anos depois, para que gravassem alguns depoimentos seus em Madri, Espanha, durante seu exílio, a fim de que estes fossem mais uma forma da tomada de poder contra os disparates das ditaduras. Tais depoimentos dariam origem aos filmes “Perón, la revolución justicialista” e “Perón: Actualización política y doctrinaria para la toma del poder”. Em 1975, depois da morte de Juan Domingo, já com a Argentina sendo presidida por Izabelita, a terceira esposa de Perón, que assumiu o cargo após a morte do marido, Pino termina as gravações de seu primeiro longa-metragem de ficção chamado “Los Hijos de Fierro”. Com a queda de Izabelita do poder, em 1976, deposta pela junta militar encabeçada por Jorge Rafael Videla, Pino entrava na lista dos procurados pela Aliança Anticomunista Argentina, mais conhecida por “Triple A”, que além de ameaçá-lo de morte atenta-o de seqüestro. Assim como muitos sul-americanos que tiveram que deixar seus países durante os anos complicados das tiranias encabeçadas pelos Estados Unidos, a fim de barrar o crescimento do socialismo e do comunismo, já que os tempos ditavam a Guerra Fria entre capitalismo versus comunismo, Pino exila-se na Espanha, estabelecendo-se, depois, na França.

Gerardo Vallejo, Pino Solanas, Juan Domingo Perón e Octavio Getino em Madrid, 1971.

Se Pino Solanas fora obrigado a deixar seu país de origem, o cinema, ao contrário, não deixara Pino escapar. Mesmo exilado, grava o documentário “La mirada de los otros”, enquanto mesmo longe participava de organizações de solidariedade às Mães da Praça de Maio e demais organizações de defesa dos direitos humanos. O cinema era sua principal ferramenta de denúncia contra o que se passava na Argentina tomada por obscuridade

Com a queda da ditadura, em 1983, Fernando volta à Argentina.

“Vuelvo al sur,

como se vuelve siempre al amor

vuelvo a vos,

con mi deseo, con mi temor”

Filma, logo, “Tangos, o exílio de Gardel”, ganhador de prêmio no festival de Veneza. Em 1988 filma “Sur”, aclamado com prêmios em Cannes. Na década de 1990, a vida de Pino tomaria um rumo diferente.

Trajetória política

Pino Solanas. Créditos: Sítio InfoSur http://infosur.info/

Fernando Solanas inicia o envolvimento direto com a política no início da década de 1990. Pino havia promovido uma assembleia, no ano de 1989, congregando os sindicatos audiovisuais para discutir e encabeçar uma lei de radiodifusão substituta da que havia sido implantada no período de ditadura. Essa congregação torna-se um marco na atuação em questões do cenário público. Mas o “estopim” para a militância política acontece em 1991, quando o cineasta critica, em um jornal, o governo do neoliberal Carlos Saúl Menem: “é um grupo de delinquentes que está saqueando o patrimônio público”. Três dias depois da publicação da matéria, Solanas leva seis tiros nas pernas por dois homens desconhecidos e recebe a advertência: “da próxima é na cabeça”.

Em vídeo, Solanas diz que Menem pensa que o povo argentino é imbecil e que o presidente estava à frente de um bando de delinqüentes que estavam saqueando o patrimônio público. Fala, também, que não ia se calar por nada. E não se calaria, mesmo recebendo uma ameaça grande. Ainda na maca, a caminho do hospital, Fernando Ezequiel Solanas, revoltado, fala da venda da YPF – Yacimientos Petrolíferos Fiscales – para um conglomerado espanhol, reduzindo a quase nada a verba pela extração do petróleo que ficaria, de fato, na Argentina.  A máfia menemista não iria intimidá-lo.

O fato desencadeia concretamente o repúdio do cineasta ao presente governo e às ideias que colocavam a Argentina nas mãos de estrangeiros. Meses depois, já em 1992, o ex-deputado nacional Luis Brunati convida-o a encabeçar uma grande frente política e social. Nasce a Frente del Sur, integrada por vários partidos políticos e organizações sociais. Ele, então, se candidata a senador, recebe 7,8% dos votos, mas renuncia à vaga. Um ano depois, em 1993, tenta candidatura para deputado federal pela Frente Grande, partido criado no mesmo ano por dissidentes do Partido Justicialistas, que não concordavam com a política de Menem. Dessa vez, é eleito e assume o cargo.

“Em 1991 tive um confronto com o presidente Carlos que me processou diversas vezes. Reiterei minhas denúncias e por isso sofri um atentado à bala. Nessa época a oposição estava muito desunida. Várias organizações e pessoas comuns pediram que eu fosse candidato a deputado. Assim foi, mas não porque queria ser deputado. Fundei a ‘Frente Sul’ e tive 8% dos votos em Buenos Aires. Como não estava na carreira política tradicional, e sim para criar uma oposição, renunciei à vaga e passei a trabalhar no interior do país fundando a Frente Grande (em 1993). Impulsionei o nascimento de uma grande força de oposição ao modelo neoliberal. Mas depois tivemos uma luta interna dentro da própria Frente”.

É chamado a Nova York para receber o prêmio Human Rights Watch, da ONG homônima que faz pesquisa e advoga no campo dos direitos humanos.

A Frente Grande tornava-se uma opção eleitoral frente à União Cívica Radical, principal partido de oposição ao governo, que havia desapontado os oposicionistas por assinar o Pacto de Olivos. O objetivo do pacto era entrar em acordo sobre uma série de reformas constitucionais. Uma das reformas era a possibilidade de reeleição de Carlos Menem, o qual, de fato, se reelegeria na próxima eleição, perpetuando o caminho de privatizações de grandes indústrias do país, sempre com um dedo estadunidense envolvido, e envolvendo-se em uma série de denúncias de corrupção.

A Frente Grande, no entanto, entraria em crise devido a alguns membros se voltarem para a direita. Em 1997, Fernando termina o mandato de deputado federal e se afasta um pouco do cenário político.  A “Frente Grande” dá início a negociações com setores de centrodireita. Um Solanas decepcionado com o sistema partidário clássico decide voltar-se ao engajamento no cinema novamente: “seria um erro reduzir isso à atuação na política eleitoral formal. Estaríamos desvalorizando o compromisso político que têm dirigentes sociais, sindicais, culturais, que trabalham todos os dias comprometidos com suas comunidades. A esses compromissos não renuncio, é toda minha vida. Cheguei à política sem fazer carreira política tradicional. Não abandonarei a política, mas volto à política que fiz toda minha vida, através do cinema. Não perderei tempo em disputas eleitorais inúteis”.

O novo estopim para o envolvimento direto na política surge no início dos anos 2000, com a profunda crise pela qual passava a Argentina. Inicia uma procura por setores de esquerda e sindicalistas para organizar uma nova militância desvinculada do peronismo tradicional. Alguns anos depois, nascia o Proyecto Sur.

Mas o cinema continuava sempre ao lado de seu fiel companheiro. Em 2004 Pino apresenta o documentário Memoria del Saqueo no 54º Festival Internacional de Cinema de Berlim,onde recebe o prêmio maior, o Urso de Ouro por sua trajetória cinematográfica. No mesmo ano, em consequência das visitas que faria ao país de Hugo Chávez e depois à ilha de Fidel para apresentar seu filme, Solanas teria a oportunidade de expor aos dois presidentes a necessidade de instituir um canal televisivo sul-americano. Meses depois entrava no ar a Telesur.

“Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.
Vuelvo al Sur,
llevo el Sur,
te quiero Sur,
te quiero Sur…”

Em maio de 2007, pelo novo partido, lança candidatura para a prefeitura da capital, Buenos Aires. No primeiro turno, o centrodireita Maurício Macri fica na frente, seguido de Daniel Filmus e de Pino Solanas, este com 12% dos votos. No segundo turno, no dia 31 de julho, a aliança conservadora de Maurício Macri vence. Solanas, em pouco mais de 20 dias e com apenas 40 para fazer campanha, é lançado como candidato à presidência da Argentina pela segunda vez (a primeira havia sido em 1995). Perde, mas o pouco mais de 1% dos votos que recebeu engloba um resultado até surpreendente para uma campanha que durou poucos dias. O “Proyecto Sur”, formalizado no mesmo ano, une partidos como o Movimiento Libres Del Sur, Partido Socialista Autêntico, o Buenos Aires Para Todos, o Movimento Socialista dos Trabalhadores, entre outros.

O Proyecto Sur tem grande proximidade com os movimentos sociais argentinos, como o MST e as Mães da Praça 25 de Maio. Fernando Solanas é o principal nome do partido e toda a sua trajetória profissional, tanto no cinema quando na política, encaixa-se perfeitamente na ideologia do Proyecto. As propostas, visíveis tanto na plataforma de metas do partido quanto no que diz Pino nos seus filmes, defendem o freamento e a contenção do neoliberalismo para garantir a soberania nacional na exploração dos recursos naturais da Argentina, a realização de reforma agrária, a valorização do potencial da sociedade, tanto na realocação dos profissionais e das investigações realizadas dentro do país em postos tomados por estrangeiros, quanto na atenção ao que dizem os movimentos sociais e as minorias, entre outros tópicos. O “Proyecto Sur” impulsiona, também, os movimentos estudantis e sindicais.

“ Nosso projeto incluiu nacionalizar o petróleo e o gás e revisar todas as concessões. Temos um terço da população na pobreza, e com a renda anual gerada pelas nacionalizações poderíamos acabar com os indigentes no país. O outro ponto que nos é caro é relançar uma verdadeira revolução no ensino, na ciência, na tecnologia e na saúde. Democratização da democracia. Não se pode fazer tudo isso sem um aprofundamento da democratização das instituições da República. Precisamos democratizar os partidos políticos, o futebol, os sindicatos. A maior parte das indústrias terceiriza as funções, 55% dos trabalhadores argentinos trabalham sem seguridade social. Essa é uma batalha cultural de democratizar a sociedade para caminhar rumo a uma democracia participativa e social de verdade.”

Em 2009, Solanas concorreu para deputado federal, sendo o segundo candidato mais votado. Nesse ano, o deputado concorreu novamente para a prefeitura de Buenos Aires, mas Macri reelege-se. Pino, então, volta-se ao apoio à candidatura de Alcira Argumedo, do mesmo partido, para a presidência. Porém, na eleição primária da semana passada, nas quais a população vota em quem deve ser candidato, Alcira não conseguiu eleitorado suficiente. A eleição primária, que é uma novidade na Argentina, teve como resultado Cristina Kirchner em primeiro lugar e a exclusão da candidata do Proyecto Sur nas eleições.

A presidência ainda pode ter um caminho longo para ser alcançada, mas enquanto isso, os dez deputados do interbloco “Proyecto Sur” que estão em exercício de mandato, entre eles Fernando e Alcira, vão gradualmente tornando o partido e suas propostas mais conhecidos. O interbloco é formado pelos partidos Proyecto Sur, Partido Socialista Auténtico, Buenos Aires Para Todos, Movimiento Libres del Sur, Si Por la Unidad Popular e Diálogo por Buenos Aires.

Fernando Ezequiel Solanas, com 75 anos de idade, planta, com o Proyecto Sur, o sentimento de que a Argentina tem potencial para se erguer na luta por mudanças do cenário onde mais de 30% da população está abaixo da linha da pobreza. Nos seus filmes e nos seus projetos políticos, a bandeira de um apaixonado por seu país e a revolta por vê-lo tomado por autoridades que não valorizam os recursos e a força próprios do país.

“Llevo el Sur,
como un destino del corazón,
soy del Sur,
como los aires del bandoneón*.”

* Os trechos ao longo do texto são da música “Vuelvo al Sur”, escrita por Fernando Solanas, com melodia de Astor Piazolla e atualmente regravada pela banda Gotan Project.

LATINOS: PINO, A ARGENTINA COMO BANDEIRA, pelo viés de Bibiano Girard e Liana Coll.

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  • Natália Carezzato

    Parabéns pessoal, a revista se supera a cada matéria! Argentina: se te extraña!!! Beijos.