LATINOS: NÃO TIVE TEMPO PARA TER MEDO

A série LATINOS de hoje traz um ícone saliente na luta armada brasileira: Carlos Marighella. Pelo viés de Bibiano Girard.

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Caminhou pela Alameda Casa Branca, em São Paulo, indo ao encontro de seus companheiros Frei Fernando e Frei Ivo, presos pelos militares dias antes. Neste momento, às 20h00, dirigiu-se ao Fusca usado para os encontros habituais de troca de informação ou novos acordos. Dias antes, Frei Fernando fora obrigado a ligar para Carlos dizendo pelo telefone, com uma arma apontada para sua cabeça, depois de dias e mais dias de tortura pelos policiais do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS,) o código que usavam para se encontrar: “Aqui é o Ernesto, vou à gráfica hoje”. Carlos Marighella seguiu o chamamento como de costume, seguindo as normas de seu manual: portava um revólver e possuía duas cápsulas de cianureto consigo. Exatamente em frente ao número 800 da Alameda, uma caminhonete permanecia estacionada com policiais, e próximo dali, dentro de um carro, acariciavam-se um casal de namorados. Marighella entrou no carro onde estavam os freis. Os religiosos pularam para fora do automóvel como mandado pelos militares na espreita. Percebendo a emboscada, Marighella tentou reagir, mas foi morto a tiros pelos policiais da caminhonete. Durante o tiroteio, o casal de namorados do carro também penetrou na armadilha contra o inimigo número 1 do governo militar: os supostos amantes eram, na verdade, o delegado Sérgio Fleury e Estela Borges Morato, investigadora do DOPS que simulou namorar Fleury. Baleada no tumulto que igualmente deixara morto o protético Friederich Adolf Rohmann, faleceu ali mesmo. Estava morto o principal inimigo dos militares. Mas a partir daquele momento, construía-se mais um herói nacional que, anos mais tarde, seria homenageado pelas autoridades brasileiras. O corpo de Carlos Marighella encontra-se hoje sepultado em uma jazigo desenhado especialmente para ele por ninguém menos que Oscar Niemayer. Na lápide a frase: “Não tive tempo para ter medo”.

Carlos Marighella era baiano, mulato, comunista, guerrilheiro e poeta. Nascera na rua do Desterro, em Salvador, filho de uma negra, Maria Rita, de pais escravos, e de um imigrante italiano, Augusto. Fora aluno da antiga Escola Politécnica da Bahia para cursar Engenharia Civil. Datam desta época suas réplicas em exames documentadas em poesia. Carlos apontava desde cedo sua enorme inventividade e raciocínio veloz. Tamanha era a dimensão de criatividade e audácia que, durante a efervescência política da década de 1930 que assolava o Brasil de lado a lado, Marighella decide ingressar na Juventude Comunista, sendo preso logo em seguida por ter “ridicularizado” a figura do interventor Juracy Magalhães em versos burlescos demais para a cólera e a aspereza de Juracy. Marighella conheceria pela primeira vez o espancamento por ordem do poder.

Contudo, os homens do poder não sabiam que aquele simples estudante e militante da Juventude Comunista se tornaria um dos maiores guerrilheiros urbanos que o Brasil já teve e um escritor astuto. Muito menos imaginariam que suas próprias teorias sobre a situação do Brasil, dominado pelas estratégias estadunidenses de erradicação da militância comunista, seriam ovacionadas por cientistas marxistas e por milhares de entusiastas de uma mudança radical contrária ao imperialismo e à ditadura. Eram tempos de Guerra Fria e, ironicamente, os Estados Unidos fariam do “Minimanual do Guerrilheiro Urbano”, escrito pelo próprio Marighella em 1969, um livro base traduzido pela CIA – Central Inteligence Agency, para distribuir entre os serviços de inteligência do mundo inteiro e para servir como material didático na Escola das Américas mantida no Panamá.

Outras obras do “guerrilheiro urbano mais perigoso do Brasil” foram censuradas pelo regime militar brasileiro, mas nem por isso não foram editadas. Em 1970, “Pela Libertação do Brasil” ganhou uma versão na França financiada por intelectuais marxistas.

Quando Carlos decidiu abandonar o curso de Engenharia Civil, lá pelos idos de 1934, seu entusiasmo político o faria ingressar no Partido Comunista Brasileiro (PCB). A partir desta decisão, Marighella se torna um dos combatentes centrais do partido, mudando-se para o Rio de Janeiro a fim de trabalhar na reorganização do Partido criado em 1922. Após sua primeira prisão, pelo crime de escrever versos, Carlos conheceria a obscuridade dos porões de duas ditaduras brasileiras por muitas ocasiões. Em 1936, pouco tempo depois de chegar ao Rio de Janeiro, a ditadura de Getúlio Vargas não o aceitaria como cidadão comum brasileiro: era a época de caça aos comunistas. A Revolta Vermelha de 35, mais popularizada como Intentona Comunista, uma tentativa de golpe contra o governo de Getúlio Vargas, desempenhada em novembro de 1935 pelo Partido Comunista Brasileiro em nome da Aliança Nacional Libertadora, traria às celas do Brasil nomes relevantes, da luta armada ou não, da época. Entre eles, Graciliano Ramos. Marighella seria preso por subversão pela polícia de Filinto Müller no mesmo ano que outra personalidade perseguida por Vargas fora também presa: Olga Benário. O baiano permaneceria por um ano nas celas. Olga seria enviada para os campos nazistas e assassinada pelo regime de Adolf Hitler. Graciliano sobreviveria e seria libertado anos depois. Novamente na rua, Marighella entra para a clandestinidade, sendo recapturado em 1939. Só sairia de mais este cárcere seis anos depois, com a anistia no processo de redemocratização do Brasil.

Mas a vida dá suas reviravoltas. Libertado em 1945, elege-se deputado federal constituinte pelo PCB no ano seguinte, defendendo os anseios operários, apontando as apavorantes condições de vida do povo brasileiro e o imperialismo desmedido que tomava conta do país. Entretanto, perde seu mandato dois anos depois por banimento do próprio partido pela repressão do governo Dutra. A clandestinidade seria novamente o caminho de vida. Viaja para a China entre 1953 e 1954 para conhecer de perto a recente revolução sínica.

Com ascendência, Marighella voltava a refletir sobre os problemas agrários do Brasil, redigindo, em 1958, o ensaio “Alguns aspectos da renda da terra no Brasil”, que tem como frase inicial o seguinte parágrafo:

“O fundamento geral da questão agrária no Brasil reside em que o monopólio da terra é a causa do nosso atraso. Abalado ou eliminado esse monopólio, as forças produtivas darão um salto para a frente”.

Mas o Golpe Militar e os anos desastrosos ditatoriais estavam por surgir. Enquanto a dança sórdida dos militares dava seus ares na arena do poder com a queda do sistema democrático de eleições, com o bloqueio da posse de João Goulart, após a renúncia armada para Jânio Quadros, Carlos Marighella concebia o amanhã catastrófico que esperava de si sua bravura. Seria nos próximos anos que suas obras mais formidáveis seriam registradas, como “Algumas questões sobre a guerrilha no Brasil”, escrita em Cuba durante a I Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade. Antes desta visita à Havana, Marighella já havia renunciado à Comissão Executiva do PCB por discordar dos caminhos “amenos” pelos quais o partido pretendia lutar contra os ditadores. Em 1964, no primeiro ano da ditadura brasileira, fora preso dentro de um cinema. Em 1965, escreve “A crise brasileira”, quando escolhe pela ousadia da luta armada.

O Partido Comunista Brasileiro expulsaria Carlos em 1967 por discordar das ações que o militante tomava para tentar combater a ditadura que Castelo Branco repassava a Arthur da Costa e Silva. Seria em fevereiro do ano inesquecível para história, 1968, que Marighella fundaria o grupo armado Ação Libertadora Nacional (ALN), responsável, junto ao grupo armado Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8), do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick.

Charles Burke Elbrick passava em seu Cadillac pelo bairro de Botafogo quando o grupo de doze pessoas posicionadas em lugares táticos incidiu sobre o carro do embaixador do país mais poderoso e conivente com as ditaduras latino-americanas. O plano se saiu bem-sucedido e entrou para a história como a primeira ocasião que um embaixador tornava-se refém de uma guerrilha. A ALN e o MR-8 buscavam a libertação de 15 presidiários sob poder militar, o que de fato aconteceu. O embaixador foi trocado pelos presos políticos que aterrissaram no México na manhã de 7 de setembro. Marighella, com tantos anos de embates e prisões, fora pendurado nas paredes das ruas e das delegacias brasileiras como inimigo nº 1 do “Estado de ordem, paz e progresso do Brasil”. A tiros, na noite de 4 de novembro de 1969, Marighella deixava o posto de inimigo do Brasil para tornar-se, anos depois, herói da pátria. Em 1996, o Estado brasileiro reconheceu a responsabilidade pela morte de Carlos Marighella e foi decidido que sua última e por mais tempo companheira de vida, Clara Charf, deveria receber pensão vitalícia do governo.

Getúlio Vargas suicidou-se na madrugada de 23 para 24 de agosto de 1954. Eurico Gaspar Dutra faleceu em 11 de junho de 1974. Castelo Branco morreu, logo após deixar o poder, em um acidente aéreo. Costa e Silva faleceu em 1969 de AVC. Sérgio Fernando Paranhos Fleury, o delegado da tortura, morreria dez anos depois de Marighella por afogamento, o que até hoje é contestado, já que seu corpo não foi necropsiado. Há indícios de “queima de arquivo” por parte de seus companheiros de ditadura. Charles Burke Elbrick, a mercadoria de troca dos revolucionários, faleceu em 1983 de derrame cerebral. Frei Fernando e Frei Ivo continuam vivos. Muitos brasileiros seguem esta história, mas do lado de Marighella.

A viúva Clara Charf no local onde Marighella fora assassinado, onde agora há um pequeno monumento em sua homenagem. Foto: Antônio Milena/ABr

“Por que ele foi morto? Porque a sociedade não era justa, não tinha terra e trabalho para todos. (…) Graças a pessoas como Marighella chegamos ao Brasil que temos hoje, que está longe de ser perfeito, mas melhorou muito em relação ao que era naquela época”, disse Clara Charf, a companheira de “Mariga”, como Carlos era conhecido pelos íntimos, que continua seu trabalho de reconhecimento da importância histórica do marido.

LATINOS: NÃO TIVE TEMPO PARA TER MEDO, pelo viés de Bibiano Girard

bibianogirard@revistaovies.com

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