A LUTA E A ALEGRIA DOS MORADORES DO JARDIM ITAQUI

Maracatu e Jardim Itaqui, por Naiady Piva

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Foto: Melissa Andreata

A rua 4 do Jardim Itaqui, em São José dos Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba), se coloriu na tarde deste sábado (8) de um jeito que nunca tinha se visto antes. Pessoas vestidas de branco, as meninas com saias compridas, alfaias, caixas, agbês, gonguê. Encostada no muro do terreno da Cláudia – dona da casa que serve de espaço para as atividades da Associação Comunidade Jardim Itaqui- escutei de uma moradora “mas o que é maracatu? Esse povo de branco ‘tá é parecendo umbanda!’” e, de outra, a resposta bem-humorada “ora, mas você não foi buscar no Google? Eu também não sabia nada e vi lá: ma-ra-ca-tu”.

O arrastão promovido pelo grupo curitibano Maracatu Itá teve início na avenida Joroslau Sochaski, onde foi interrompido algumas vezes por carros e cavalos que transitavam pela região e, então, percorreu as quatro ruas da vila que é atualmente morada de cerca de 150 famílias. Embora a maioria das pessoas da comunidade sejam negras morando às margens da capital brasileira “europeizada”, “onde todo mundo é branco”, nenhuma delas havia sequer ouvido falar no ritmo que tem origem na manifestação cultural dos escravos no nordeste. Aliás, é comum em dia de atividade na Associação a presença de um carro que fica encostado a cerca de 150m com um potente som ao ritmo de sertanejo ou funk no melhor estilo batidão.

Ao contrário dos arrastões no centro da capital em que estudantes universitários se unem à população que perambula pelas ruas do entorno cercando os músicos, no Itaqui ninguém quis ficar a menos de vinte metros de distância. As crianças correndo com os ouvidos tampados para proteger-se do barulho e dançando daquele jeito que elas fazem tão bem, pulando de um lado para o outro e remexendo todo o corpo. Os adultos olhavam, em silêncio, sem saber o que fazer, mas acompanhando a procissão. E quem olhasse de longe poderia até achar que aqueles não haviam simpatizado com a novidade. Mas quando os músicos pararam para trocar de formação, Aline, moradora do bairro, comentou comigo “avisa lá que eles podem estar cansados, mas eu não estou, então podem continuar!”.

Quase uma hora e meia depois, de volta à rua em frente à casa da Cláudia ela, emocionada, explicou a luta do povo do Itaqui e convidou o grupo “por favor, se tiverem um tempinho estão convidados a vir ensinar o maracatu ou algum batuque pras nossas crianças, e também para os nossos adultos”. Em uma roda com cerca de 100 pessoas entre batuqueiros, moradores e militantes do movimento popular o grito “a nossa luta é todo dia, queremos água, luz e moradia!” foi entoado por todos.

Foto: Carlota Xavier

Itaqui, um povo de luta

O Itaqui fica pra lá da periferia de Curitiba, o que faz com que tenha gente que ache que lá é uma terra sem lei e podem fazer o que querem. Há cerca de um ano atrás, um caminhão de caçamba destes que trabalham para a milionária indústria da construção civil chegou de surpresa e resolveu despejar o seu entulho na entrada da Rua 4, com lixo hospitalar e tudo.

As mulheres da ocupação fizeram uma barricada e prenderam o caminhão até que a ação fosse interrompida e imediatamente ligaram para que os advogados conhecidos do movimento popular fossem lá prestar solidariedade.

Ao verem os advogados, os capangas logo acusaram: “vocês são eleitoreiros, só vem aqui ajudar o povo para conseguir voto” ao que uma moradora correu em casa buscar um jornal e jogou-o dentro da caminhonete “aqui no Itaqui as candidatas moram aqui mesmo, e elas são duas!” referindo-se à dobradinha Cláudia e Josi que saíram como deputadas estadual e federal por um partido de esquerda em 2010. Uma delas então se apresentou como “A Candidata”, disse que era socialista e que eles poderiam se retirar. A empresa nunca mais voltou.

Mineradora Saara e o início da resistência

Cerca de 70 famílias residiam e haviam comprado seus terrenos no Jd. Itaqui de dois loteadores clandestinos em 2008. No entanto, na mesma área, que é Área de Proteção Ambiental (APA) por ficar à margem do Rio Itaqui, a mineradora Saara extraía areia com autorização do Instituto Ambiental do Paraná (IAP). Esta prática deixava gigantescas crateras que se enchiam de água proveniente dos lençóis freáticos, cavas que além de ser motivo de insegurança comprometiam o terreno sobre o qual as casas estavam construídas e que lá estão até hoje.

Sob a alegação de que aquele terreno era impróprio para moradia e de que estavam fazendo um favor a eles, a Saara oferecia aos moradores do local “cheques-despejo” de no máximo R$ 2.000,00 e aceitasse quem quisesse, pois as máquinas chegavam a escavar em uma distância de apenas três metros da porta de algumas casas que assim corriam o risco de ruir.

Os moradores decidiram, então, que existia uma alternativa ao cheque-despejo: a luta. Com pneus e entulhos paralisaram as atividades da mineradora e nenhum caminhão ou trator sairia ou entraria no Itaqui enquanto as atividades da Saara não fossem interrompidas. A mineradora não acatou e chegou a se utilizar de métodos bandidos, como ameaça aos moradores e participantes do movimento.

Foram meses de protestos e reuniões com representantes diversos do Estado, governo do estado e município. Hoje em dia a Saara paralisou, mas a vida no Itaqui não é fácil. Ela é como a vida em toda periferia: serviços públicos precários e descaso do poder público, além de viverem a constante ameaça de despejo por ocuparem uma área que o Estado chama de irregular para moradia, embora não seja irregular para a extração de areia ou para abrigar o pátio da montadora francesa Renault, que fica há alguns metros da ocupação.

Foto: Carlota Xavier

A LUTA E A ALEGRIA DOS MORADORES DO JARDIM ITAQUI, pelo viés da colaboradora Naiady Piva*

*Naiady é formada em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná.

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  • lucia

    pois é também vivo um dilema, tenho um terreno totalmente legalizado, escriturado e tudo ..e quando chego lá vejo meu lote totalmente submerso pelas águas, sendo que não autorizei ninguém a tirar areia do meu lote, vou lutar e não vou desistir, pois tenho todos documentos do terreno a 25 anos, brincadeira estou indignada, mas vamos a luta.
    Era um lugar lindo, totalmente plano e firme, meus cachorros brincavam lá, e simplesmente um belo dia me deparei com esse cenário, é lamentável.