BANCÁRIOS: ELES TÊM POR QUE RECLAMAR

A greve é dos bancários, a culpa é dos banqueiros. Pelo viés de Bibiano Girard e Letícia Fontoura.

A+ A-

Piquete formado por funcionários da agência Banrisul/centro em Santa Maria. Foto: Bibiano Girard.

Os bancos voltaram a funcionar. Após 21 dias de greve – uma das maiores paralisações nacionais em número de funcionários favoráveis à greve – teve como desfecho para a classe vitórias e derrotas. Mais de 430 mil bancários aderiram à paralisação em todo o país, deixando mais de nove mil agências fechadas. Ao longo do tempo, piquetes foram formados em frente às agências com faixas e distribuição de material explicativo com os porquês da escolha pela paralisação.

Na análise geral, vários pontos ficaram desfavoráveis às reivindicações iniciais dos trabalhadores. Porém só depois de vários dias de portas fechadas é que alguns avanços para os bancários foram alcançados. Por exemplo: a partir de agora é proibido divulgar os rankings individuais por funcionário dentro de cada agência a fim de acabar com a cobrança de metas por pessoa, efeitos da famigerada meritocracia.

A última greve nacional da categoria não afetou apenas à população que teve de atrasar contas e esperar alguns dias a mais para recebimentos. Por trás da greve, no âmago do protesto, havia dezenas de interesses primordiais da classe que luta contra a ganância dos bancos. Os cinco maiores bancos do país (incluindo Itaú, Banco do Brasil, Bradesco, BNDES e Santander) lucraram, aproximadamente, R$ 26 bilhões somente no primeiro semestre de 2011, mas seus funcionários não perceberam melhorias significativas com a entrada de tanto dinheiro nos cofres dos patrões.

Os patrões, alocados nos grandes centros urbanos, decidem de lá, a portas fechadas, o futuro monetário de milhares de famílias e as condições de trabalho dentro das agências, com funcionários pressionados a cumprir metas, somando adoecimentos físicos e mentais. Sem a contratação de novos funcionários, os clientes esperam por longo tempo ser atendidos para descobrir, ao final de tudo, que os juros “comeram” muito de seus faturamentos. Os banqueiros ficaram com boa parte da fatia de seus salários.

Como forma de coibir manifestações ou deslegitimá-las, os bancos contam também com o apoio da mídia burguesa, principal receptadora dos patrocínios milionários feitos pelos banqueiros. Forma-se o círculo vicioso vantajoso a ambos os lados. Os bancos patrocinam a mídia dos jornalões, das rádios e das emissoras de televisão pertencentes aos grandes monopólios, e estes se calam ou procuram “noticiar” apenas o lado negativo das greves.  Além disso, um dos maiores financiadores da mídia hegemônica é o próprio Estado, propagandeando ilusões de ascensão econômica do povo. Um exemplo disso é o Banco do Brasil que “investiu” mais em publicidade do que transnacionais como a Coca-Cola e a Nestlè no primeiro semestre de 2011. Como consequência, parte da população vira-se de costas às causas pertinentes dos bancários, mesmo que esses sejam funcionários como muitos dos usuários dos serviços dos bancos. É a velha tentativa, ainda poderosa, de colocar classe contra classe, categorias contra categorias, enquanto os banqueiros aproveitam os milhões diários que entram em suas próprias contas.

Campanha da FETRAFI-RS.

Por trás de tudo o que é dito midiaticamente, os bancários estavam sentados em frente às agências, não apenas pedindo aumento de salário. O pedido era de reposição de perdas salariais frente à inflação. Centenas de pessoas criticaram a paralisação porque “os bancários recebem bem, trabalham com ar-condicionado, não levantam peso e pouco se mexem”, como ditava uma propaganda preconceituosa na rede social Facebook. Contudo, para os desavisados, o Conselho Nacional de Previdência Social, na busca de reduzir o déficit previdenciário do Brasil, constituiu uma resolução, a 1236. Elaborada pelo Conselho junto com os Ministérios da Saúde e do Trabalho, a resolução seria uma fórmula exemplar de arrecadação para a previdência, sendo considerada um avanço pelos especialistas da questão de saúde do trabalhador.

Periódico do Sindicato dos funcionários do Banco do Brasil.

O plano é simples, o mesmo como fazem as seguradoras: quanto maior o risco, mais caro o valor. Pois os bancos estão na lista de instituições que teriam cobranças diferenciadas a partir da resolução caso fosse aprovada. Os riscos de adoecer sendo bancário são imensos.

Na década de 1990 os bancos realizaram muitas adaptações, objetivando o abatimento dos custos operacionais, ou seja, reduzindo os gastos gerais de cada agência. Tais ajustes não foram apenas um presente das inovações tecnológicas, mas sim uma opção econômica das empresas em busca de lucros excessivos, alterando significativamente a organização do trabalho em sintonia com o arquétipo neoliberal empregatício. A fadiga dos funcionários começava: sobrejornadas, metas abusivas de receita, pressão, gerenciamentos autoritários e medo. “Talvez mais do que qualquer outra categoria profissional, a bancária é a que melhor parece expressar a condição moderna do desgaste humano no processo de trabalho”, apontam Jacéia Aguilar Netz, Especialista em Saúde e Trabalho (UFRGS), e Jussara Maria Rosa Mendes, Doutora em Serviço Social pela PUC/SP.

Digitação, levanta e senta, coluna ereta enquanto atende ao público e cálculos quilométricos diariamente feitos e refeitos trazem, sim, problemas à saúde de muitos bancários. Os funcionários expõem: o trabalho é norteado por números, prazos, múltiplas tarefas e datas-limite impossíveis de serem desempenhadas. Dentre essas metas a cumprir e seguros a vender, há o constante medo de errar um cálculo por parte de alguns funcionários, principalmente os que atuam nos caixas dos bancos, pois qualquer zero digitado erroneamente será descontado do enxuto salário do escriturário.

Banrisul, o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, em greve. Foto: Bibiano Girard.

As doenças mais freqüentes em funcionários de bancos são Lesão por Esforço Repetitivo (LER), Depressão, Síndrome do Pânico e Estresse agudo. Entre os bancários, segundo números do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), o número de afastamentos por esforço repetitivo ou distúrbios osteomusculares passou de 787 em 2000 para 1019 em 2004 em sete bancos analisados. O INSS reconhece em documentos que a categoria bancária é a que mais adoece. O Bradesco, maior banco privado do país, apresentou os maiores números de novos casos de LER. Os grevistas pediam melhores condições de trabalho, mas somente a sorte e o bom-senso poderiam trazer significativas mudanças, pois quem rege as “leis bancárias” do país é a FENABAN, a Federação Nacional dos Bancos, uma representação das instituições financeiras do país. Com isso, os bancos privados, como o próprio Bradesco, também fazem parte da mesa de negociações. Outro motivo de receio para a classe pode estar contido nos comunicados difundidos pela Federação e seu diretor de Relações do Trabalho, Magnus Apostólico, que nos primeiros dias de manifestações deixou claro, durante entrevistas, que para a FENABAN a greve era “sem propósito”. Ainda no comunicado difundido pela Federação, a greve é taxada como “injustificada”. Para terminar o texto, a FENABAN reconstrói o posicionamento neoliberal comodista: coloca o povo contra os grevistas, “lamentando que a greve tenha sido deflagrada em período de pagamento de aposentados”.

Durante toda a greve, a FENABAN tentou desarticular o movimento “orientando” os bancos a conseguirem, de forma legal, garantir o atendimento da população. Porém, enquanto as filas crescem em dias normais nas agências, a própria FENABAN não orienta os bancos a contratarem mais funcionários, como reivindicado pelos bancários paralisados.

Funcionários de bancos privados também fizeram parte das paralisações. Foto: Bibiano Girard.

Os grevistas pediam uma reposição salarial que acompanhasse os percentuais da inflação durante o período, de 7,4%, mais um aumento real de 5% (o aumento real é o valor acrescido aos salários sem contar os dados da inflação). Calculando a reivindicação, os grevistas pediam 12,8% de acréscimo. Na reunião com a FENABAN, comandada pelos banqueiros donos de corporações privadas, como o Itaú e Bradesco, a categoria acabou aceitando o reajuste de 9%, calculando a inflação em 7,4% mais o aumento sobre os salários de 1,5%. De 5% de aumento real, a categoria acabou recebendo 1,5%. Como forma de não cortar o ponto dos dias não trabalhados, a Federação indicou uma compensação com prestação de jornadas suplementares, de 2 horas a mais por dia, até o dia 15 de dezembro de 2011. Nenhum banqueiro cogitou passar o final de ano sem alguns supérfluos em sua mansão fora do país.

A mídia burguesa e tendenciosa é uma das principais fontes do sectarismo sindical e de não-apoio das massas ao processo grevista. Enquanto todos não perceber que estão inseridos na luta das categorias organizadas, banqueiros, por exemplo, continuarão exploradores e gananciosos.

Nem todas as laranjas estão podres. Sobre o enriquecimento dos banqueiros e seus lucros abissais, a jornalista Salete Lemos, então apresentadora da TV Cultura, “soltou o verbo” ao vivo falando o que muitos brasileiros gostariam de dizer num espaço difusor. Assista o vídeo abaixo:

BANCÁRIOS: ELES TÊM POR QUE RECLAMAR, pelo viés de Bibiano Girard e Letícia Fontoura*

*Letícia Fontoura é acadêmica do 4º semestre de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone