O IMPÉRIO CONTRA-ATACA

Mais do que lacrimogêneo, a verdadeira vertigem é assistir a juventude carapintada-apartidária-pacifista-sirvamnossasfaçanhas-eternamenteemberçoexplêndido simplesmente desconstruir.

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A revolução, sem demora, nos remete perplexidade e incredulidade. De todas as passeatas realizadas pelo Bloco de Lutas pelo Transporte Público, a da última quinta-feira (20/06/13) foi a maior em número de participantes – mais de 20 mil contabilizados pela BM e grande mídia – e a menos representativa no sentido de unidade do movimento. São Paulo repetiu Porto Alegre e agora Porto Alegre repete São Paulo. Reverbera na cabeça de muitos dos manifestantes as palavras de ordem “sem partido, sem partido!”, transparecendo claramente que o movimento repartiu. Em Porto Alegre, nenhum integrante de movimento social ou partido político foi agredido ou hostilizado, entretanto, parte considerável da massa cambaleava saltitante com os dois pés direitos, solidária ao apelo criminalista da imprensa “sem violência”. A revolução corre risco de ser deturpada e alienada. Ninguém disse que seria fácil.

Foto: Calvin Furtado/ TrançaRua

É preciso deixar claro que o hino racista do Rio Grande do Sul não nos representa. O hino nacional, menos. Deixemos o ufanismo bitolado dentro dos estádios. Mais do que lacrimogêneo, a verdadeira vertigem é assistir a juventude carapintada-apartidária-pacifista-sirvamnossasfaçanhas-eternamenteemberçoexplêndido simplesmente desconstruir. Da mesma maneira que tentam conduzir a marcha para qualquer lado, oferecem uma generalidade constrangedora de reivindicações, direcionando o objetivo real – transporte 100% público, abertura das contas das empresas de transporte, passe livre para estudantes, idosos, desempregados – para a vala comum: a dos rebeldes sem causa, ou, rebeldes de qualquer causa.

A revolução é resiliente. A revolução regenera. Atravessa um momento reflexão.

À tarde, momentos antes da manifestação, o clima em Porto Alegre era de estado de sítio. Universidades cancelaram aulas, o comércio de bens e serviços liberou os funcionários mais cedo, a frota do transporte coletivo foi recolhida. Garoa, frio, véspera de mais um inverno sulino. Debandada em massa do centro. A cidade preparava o palco para mais um eminente embate. A passeata transcorreria normalmente. Partiu do centro, passou pela zona portuária, até se direcionar ao bairro Cidade Baixa, mais precisamente no entroncamento das avenidas João Pessoa com a Ipiranga. Ali, mais uma vez, a polícia defendeu com bombas e tiros a bastilha. Estopim para um novo surto de depredações, violências e prisões. Cobertura ao vivo das principais rádios e imagens ao vivo para a TVCom diretamente do RBSPixel. “Vândalos iniciam confronto que teria tudo para ser pacífico…”. É o povo contra o povo. 1964 motivos para refletir.

A Brigada Militar deu sinal de queria uma trégua. Só que não. Distribuiu panfletos contra a violência nas manifestações como cortesia, em uniformes executivos. Depois vieram mais  bombas de efeito moral, tiros de balas de borracha, tropa de choque, batalhão de operações especiais e cavalaria. A ingenuidade de alguns vai ao encontro dos ardilosos interesses de outros. Os estalos das ferraduras no asfalto informam mais que toda a mídia golpista.

Nesta mesma tarde fria e chuvosa, curiosamente, o governador Tarso Genro recebeu manifestantes, jornalistas e ativistas digitais para um diálogo presencial e virtual no Gabinete Digital. O foco das discussões e reivindicações foi centralizado na repressão e excessos cometidos pela Brigada Militar durante os protestos. O governador justificou que os aparatos de segurança mudam lentamente, que seu governo trabalha para mudar esta mentalidade e estabelecer uma nova cultura na corporação. Defendeu que a grande maioria dos manifestantes não quer confronto com a polícia nem depredações, e cobrou condução às lideranças do movimento:

-Importante que haja condução desse movimento. Importante lembrar que um movimento anárquico pode ser cooptado pelo fascismo. A história mostra os movimentos sendo cooptados pela DIREITA.

Resta saber qual direita ele se referia.

 

Marcha da polícia, dos reaças, dos pacificistas e dos coxinhas

 

“A polícia olhou pra marcha

Achou que era confusão,

Ela tinha um pá de bomba

E explodiu a multidão

 

Acorda povo, acorda povo!
Eles tem sangue nos olhos

E querem te calar de novo!”

 

“O reaça entrou pra marcha

Achou que era diversão,

Fez uma lista de causas

Centralizada em corrupção.

 

Acorda povo, acorda povo!

 

Querem usar do passe livre

Para eleger o tucano!”
“O pacifista entrou pra marcha

Com buque de flor na mão.

Aplaudiu policial

Cantando violência não.

 

Acorda povo, acorda povo!

 

Eles tem cara pintada

E só assistem a rede Globo!”

 

“O coxinha entrou pra marcha

com o celular na mão,

fez check in na prefeitura

E filmou a rebelião.

 

Acorda povo, acorda povo!

 

Eles são oportunistas

E cantam hino do Rio Grande!”

 

O IMPÉRIO CONTRA-ATACA, pelo viés do colaborador Calvin Furtado*

*Calvin é jornalista e faz parte do TrançaRua

 

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