LORENZI: DE REPENTE SEM TETO

Texto, fotos e vídeo: reintegração de posse na ocupação São Lourenço deixa 20 famílias desabrigadas

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Moradores aguardam saber para onde ir. Foto: Bibiano Girard/revista o Viés

Nas primeiras horas de hoje, terça-feira, dia 3, os moradores da ocupação São Lourenço, próximo à Vila Lorenzi, zona sul da cidade, foram acordados com a chegada de dezenas de policiais do Batalhão de Operações Especiais da Brigada Militar. Equipados com ônibus, cães, cavalos e armamento, os policiais foram até a ocupação cumprir o mandado de reintegração de posse do terreno ocupado por aproximadamente vinte famílias desde janeiro.

Houve resistência dos moradores no início da manhã para que suas casas não fossem demolidas, mas duas residências acabaram sendo derrubadas com uma retroescavadeira, que dava suporte à polícia. As outras residências foram desmanchadas em partes pelos próprios moradores, que precisam guardar o material para possivelmente reconstruírem suas casas em outros ambientes da cidade. A prefeitura, assim como em outros problemas habitacionais pela cidade, tenta solucionar o problema a partir do programa “Minha Casa, Minha Vida”. Alguns moradores, no entanto, aguardam na fila há mais de três anos e, segundo eles, o cálculo é que há aproximadamente 5 mil pessoas esperando por moradia na cidade.

Moradores reclamam: "o proprietário disse que faria um acordo conosco, mas hoje vimos que não era verdade". Foto: Bruna Andrade/JornalismoB

O proprietário do terreno, Lucio Flávio, encontrava-se no local. Em entrevista à revista o Viés, Lucio disse que não se negou em conversar com as partes envolvidas, mas que o advogado das famílias o teria procurado apenas vinte dias atrás, quando a juíza já havia determinado a desocupação.

O prazo para o término da desocupação era seis da tarde. Muitos dos moradores tentavam, da forma que podiam, salvar os materiais utilizados na construção de suas casas – a maioria delas de madeira. O material era depositado por uma retroescavadeira na caçamba de um caminhão, e muitas tábuas e telhas acabaram sendo perdidas. As poucas peças de alvenaria ou azulejo foram completamente inutilizadas pela impossibilidade de removê-las em tão pouco tempo.

Moradoras acompanham máquina derrubar cerca construída por elas: "podia não ser o melhor muro, mas era nosso e tinha sido feito por nós". Foto: Bruna Andrade/JornalismoB

O proprietário do terreno cedeu um caminhão para transportar os móveis das famílias desalojadas. A Secretária de Habitação Magali Marques da Rocha, em reunião com os moradores nesta manhã, justificou a inoperância da prefeitura no caso dizendo se tratar de uma ocupação ocorrida em terreno particular, isentando a responsabilidade do poder executivo local quanto às condições de moradia de vinte famílias.

A prefeitura apenas cedeu um galpão aos moradores, localizado a 6 km da ocupação onde viviam, em outra zona da cidade, que deve servir como local provisório para as famílias que não tem para onde ir e como depósito para os móveis de todos. Os moradores desalojados relatam terem sido orientados a procurar a casa de parentes e conhecidos, pois o espaço do galpão ficaria disponível por apenas 10 dias.

Moradoras acompanham desmanche de residência. Foto: Bibiano Girard/revista o Viés

O desconforto de muitos dos moradores desalojados é em função da distância do trabalho e da escola para as crianças. Muitos dos moradores da ocupação trabalhavam nas redondezas. Uma moradora, que ia a pé até o trabalho, agora necessitará pegar dois ônibus para chegar ao serviço. Uma estudante do sexto ano letivo não sabe se continuará estudando, já que deve se mudar para a casa da avó, longe de escolas. As crianças que estão mais avançadas precisarão encontrar outro colégio e, além disso, enfrentarão problemas para continuar o ano letivo em função da instabilidade de sua situação atual.

Os próprios moradores desmancham as casas para guardar material de construção. Foto: Bibiano Girard/revista o Viés

Durante a reintegração, a imprensa foi impedida de chegar e permanecer no local pelo BOE, com a justificativa de que era um território sob domínio policial. As equipes da revista o Viés e do blog JornalismoB conseguiram acesso pela casa de moradores da vizinhança, mas foram chamadas a se retirar do local onde as casas estavam sendo desmontadas.

 

DE REPENTE SEM TETO, pelo viés de Bibiano Girard, Tiago Miotto e fotos de Bruna Andrade*

*Jornalista do blog JornalismoB

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