Não há como lutar contra Hercólubus

Hercólubus ou Planeta Vermelho, o livro que tem feito “Normas ABNT” cair na posição entre os mais lidos na UFSM

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Divulgação

Canta pelas rodas de samba brasileiras a bombom Alcione, e diz alardeante sobre um negão que há por aí digno de se tirar o chapéu. Não tão sucinta, mas também certeira, sua xará espanhola igualmente dedica honrarias a um ser especial, mesmo que por lá Alcione não seja gente, mas sim uma associação sem fins lucrativos que desenvolve suas atividades de maneira altruísta. O ser especial, no caso de lá, é Hercólubus, um gigante vermelho.

Mesmo sem lucros, a Alcione versão europeia aparentemente tem alcançado com êxito aquilo que prega como principal objetivo: difundir e distribuir o livro “Hercólubus ou Planeta Vermelho”, o novo peso na mochila de alguns estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Além de ler os livros das ciências racionais, os universitários têm dedicado preciosos minutos pelos gramados da instituição para saber mais, entre ensino, pesquisa e extensão, sobre as grandes fendas ao longo do mar, profundíssimas, que estão a fazer contato com o fogo da Terra, devido precisamente aos ensaios atômicos que estão a fazer os cientistas e as potências que se creem potências, sem medir as consequências das barbaridades que cometeram e estão a cometer contra o planeta e contra a Humanidade.

“Um dia, no ônibus, li aquela faixa no campus. Aquilo me uniu a algo, prendeu minha atenção”. O universitário ficou curioso. “No outro dia, em apenas uma manhã, durante uma aula, sem ouvir absolutamente nada do que falava o professor, li meu exemplar recém-adquirido. De graça, né? Todo mundo pede pelo correio ou consegue aqui no Campus mesmo”.

O estudante de Engenharia Mecânica Julio Vidal Teixeira não foi o único a perder o sentido da audição enquanto, estatelado, lia passagens como a que impugna e coloca contra a parede a astronomia mundial: “Assim como estão a fazer com Hercólubus, que se aproxima da Terra velozmente, rebaixando-o até se atreverem a dar o peso e a medida que este mundo tem, fizeram-no com os extraterrestres, deformando-os como gorilas, como animais, e essa é uma grande mentira”. Não conformado, Rabolú, autor do manifesto, é imperioso: “falso cem por cento, porque os habitantes dos demais planetas do nosso sistema solar e da nossa galáxia são super-homens e sábios”.

Conhecedor do futuro que nos espera, como afirma sua biografia no site da Associação Alcione, V. M. Rabolú é um colombiano, morto em 2000, que escreveu o livro “Hercólubus”, onde alega a existência de um planeta gigante que está vindo em nossa direção. “Não sou um mete medos, sou um ser humano que estou advertindo o que vem e o que vai acontecer.” Certos de virarmos pó, para Rabolú, a única maneira que a humanidade tem de se salvar é livrando-se das deformidades psicológicas e redimindo-se dos pecados que para nós, humanos, já estão implicados no cotidiano terrestre.

O autor nunca explicitou os motivos que o fizeram escrever o livro com muito sacrifício, deitado numa cama sem poder pôr-se de pé nem sentar. Como o célebre jornalista francês Jean-Dominique Bauby, que imobilizado após um Acidente Vascular Cerebral escreveu um livro através de um sistema de comunicação inédito baseado em piscadas do olho esquerdo, o colombiano Joaquim Enrique Amortegui Valbuena, nome de batismo de Rabolú, superou suas dificuldades para escrever de qualquer forma, como último recurso, porque “não há mais nada a fazer”, segundo o mestre.

Diferente das até hoje ilegíveis 400 páginas do Codex Seraphinianus, o livro do designer italiano Luigi Serafini (1949), Hercólubus tem pouco mais de 40, mas também apresenta outras maneiras de vida. Contudo, o último é democrático em, por mesmo que brote de quem já conhece o vindouro – outro mundo mais elevado -, ainda assim procura dialogar com os humanos, corrompidos e autodestrutivos.

A capa do famigerado. Em tom profético e com uma protestação fidedigna, o ocultista deixou como herança os ensinamentos do escritor também colombiano Samuel Aun Weor, fundador do gnosticismo samaelino. Aun Weor abandonou seu veículo físico em 1977. São obras suas “Antropologia Gnóstica”, de 1978, “Mensagem de Natal”, do mesmo ano, “Para poucos”, de 1980, “A Revolução da Dialética” e “Pistis Sophia Desvelada”, ambas de 1983. Além destas, também escreveu vivo mais de cinquenta livros sobre esoterismo. Quebrando os eixos, liberou seus direitos autorais. Fortemente influenciado por Samuel, Rabolú não se deteve.

Antes de ficar imobilizado, Joaquim Enrique Amortegui Valbuena viajou por parte da América Latina instruindo o gnosticismo. Nas últimas semanas, os estudantes do Centro de Tecnologia da UFSM, onde cartazes do livro são mais recorrentes pelos painéis do que em outros centros da instituição, têm demonstrado que os seguidores de Rabolú não o deixaram esquecer.

Sem custos, todos têm o direito de pedir seu exemplar. E não existe distinção de leitor, muito menos sertão do mundo que impeça a chegada do livro comentado até mesmo no sonolento assunto na linha Universidade, às 17h, sentido Centro. Onde quer que seja, para quem for, afirma Alcione, o envio é gratuito. Para qualquer rincão do globo.

Há aproximadamente 2.000 estudos publicados em revistas científicas com base em observações realizadas no grande telescópio VLT, o Very Large Telescope, o maior do mundo, localizado no norte do Chile. Por estudar o universo debatendo teorias físicas com observações feitas por telescópios, a astronomia por vezes se confronta contra ela mesma, reafirmando a existência de estrelas, ora retificando pequenos enganos que o espaço nos prega.

Hercólubus ainda não foi constatado na esfera física da vida universal, mas como em Uqbar, o enigmático país do argentino Jorge Luis Borges, há vida pensante. E extraordinariamente à frente de nosotros. Assim como conjura a gigantesca e assustadora conspiração de intelectuais Orbis Tertius, que tenta conceber em Uqbar um novo mundo, Tlön, lesa-se a si mesmo o leitor que enjaular Hercólubus na ríspida ciência dos laboratórios astronômicos. É preciso buscar sua própria insustentável leveza do ser para depois pôr-se a perceber a verdade.

Por alguma medida ignota, a organização não guarda os nomes nem os endereços dos leitores ávidos pela chegada, através dos correios, do seu exemplar. É política de privacidade e também medida ética, segundo explica o perfil da organização numa rede social. Mesmo assim, o arrebatamento cósmico que contagia um bom leitor – transformando-o, depois da leitura, em uma peça do conhecimento coletivo – faz muitos hercolubanos saírem do anonimato por conta própria.

“Este libro te ayuda a eliminar tus defectos y a ser más feliz”, diz Leticia, uma leitora que se mostra animadamente auspiciosa, mesmo que nosso arremate existencial esteja por um fio. Um rapaz, entre as dezenas de mensagens na página da organização, solicitou seu exemplar na espera de encontrar a paz e entender um pouco mais dessa coisa caótica que está à sua volta.

Na esperança de não sentir o que Lars Von Trier levou aos cinemas em Melancholia apenas como obra de ficção, a espera pelo nosso cataclismo iminente dá-se em Hercólubus menos infeliz e, para alguns catedráticos, até mesmo promissora. Nele, a ansiedade nos ajudaria a lembrar, em vez de esquecer, o que desejamos. É ainda uma compilação de escritos que acena para a ação. Há um mundo que não pode ser percebido pelos sentidos, mas que de tão mágico e poderoso em poder nos ensinar, buscaremos. O ser humano busca a não ignorância. Mas o homem só pode saber aquilo que experimenta. “Acreditar não significa conhecer”.

Rabolú lança mão do pragmatismo impetuoso natural de obras apocalípticas para evidenciar que lutar contra o outro é lutar contra si mesmo. Aí estaria, ainda se especula, o ponto intenso do sucesso. Na figura de um planeta vermelho gigante que está em nossa direção, combater o inimigo torna-se abjeto. Faz-nos lembrar o presságio de Otaviano Marghera, no filme Saneamento Básico, quando livre para profetizar, Dr. Aristóteles ratifica: “Outros monstros vão surgir, mais fortes, maiores. E vamos matá-los outra vez, com armas mais terríveis, venenos ainda piores. E mataremos todos os monstros até que surja um monstro que não possamos matar e que nos mate”. Tentar abater o gigante vermelho é dar murro em ponta de faca. Se o temor pelo fim é manifesto em quem ainda não leu a obra, a sensação de inoperância, que em reles humanos seria aguardada, ao contrário, entre os hercolubanos mais sensatos ocorre de maneira diferente. Aguardam se livrar de seus erros e, um dia, quem sabe, alcançar a bonança de um venusiano.

NÃO HÁ COMO LUTAR CONTRA HERCÓLUBUS, pelo viés de Bibiano Girard

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