Desgraciadamente el gobierno…

“Me dá uma impotência como pai sair por aí e dizer que tenho um filho desaparecido. Não conseguimos expressar nossa dor”, afirmou Mario César Gonzáles, cujo filho é um dos 43 estudantes desaparecidos há um ano em Ayotzinapa, México

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foto: Calvin Furtado

Atualmente, o Estado mexicano faz o que secularmente a colonização hispano-portuguesa se especializou em fazer ao longo de todo o continente americano: esmagar os povos originários. Homens e mulheres campesinos peregrinam por todas as partes do mundo e, entre os meses de maio e junho deste ano, foram recebidos na Argentina, no Brasil e no Uruguai. São pais e mães de estudantes desaparecidos de Ayotzinapa que partiram em caravana com os corações aos pedaços para reforçar uma versão diferente da história oficial contada pelo governo do México, e que tem sido sumariamente omitida ou silenciada pelos grandes conglomerados de comunicação da mídia hegemônica: eles querem justiça, querem solidariedade internacional, querem seus filhos de volta.

Na manhã do dia oito de junho, estiveram em Porto Alegre, no auditório principal do Instituto Latino-americano de Estudos Avançados (ILEA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), duas mães, um pai e um sobrevivente da fatídica noite do dia 26 de setembro e madrugada do dia 27 de setembro de 2014. Uma faixa com os dizeres Vivos se los llevaran, vivos los queremos foi estendida e cobriu a tradicional mesa de seminários e conferências acadêmicas. A plateia era composta por estudantes de geografia, história, ciências sociais, políticas públicas com idades médias semelhantes às dos 43 jovens desaparecidos de Ayotzinapa.

Primeiro, as duas mães falaram. Ficou evidente o quão difícil seria colocar em palavras os sentimentos que afloravam a cada tentativa de descrever o vazio que pode deixar um filho na trajetória de uma família. O pai de César Manuel Gonzáles, desaparecido desde setembro, Mario César Gonzáles, falou brevemente. Direcionou um olhar marejado e com palavras trêmulas, que demonstravam uma força inigualável de resistência. Sua face estava firme, demonstrava bravura, mas havia algo mais em seu olhar, traços rubros de uma angústia que jamais seria amparada, como um doloroso grito que permanecia sufocado. Usou palavras bem medidas para dizer que os 43 jovens desaparecidos eram iguais aos jovens que estavam ali a sua frente, que também eram seres humanos como os que estavam ali:

“Me dá uma impotência como pai sair por aí e dizer que tenho um filho desaparecido. Não conseguimos expressar nossa dor. Eles eram iguais a vocês”, completou.

mães de estudantes desaparecidos em Guerrero, no México, falam sobre sua luta por justiça na UFRGS, em Porto Alegre. A visita foi parte de uma caravana que passou por várias cidades da América do Sul. foto: Calvin Furtado

Dor que  não cessa

Antes de a palavra ser passada às mães que estavam presentes, dois professores contextualizaram a discussão. Elas se sentaram, beberam um pouco d’água e respiraram fundo antes de começar. Aquele pequeno momento de silêncio em que elas se preparavam era desesperador.  Era possível compreender o tamanho do desafio que a Caravana Sudamérica 43 representava, pensando que este ritual de preparação fora repetido em Córdoba, Rosário, Buenos Aires, Montevidéu, São Paulo até chegar a Porto Alegre – e que em poucos dias seria mais uma vez repetido no Rio de Janeiro. As palavras da mãe do estudante Jorge Antonio Tizapa Legideño, Hilda Legideño, elucidam o sentimento a partir da primeira frase que disse no encontro: desgraciadamente el gobierno miente.

“São parte do nosso ser (nossos filhos), nós os amamos. Se pudéssemos dar a vida para recuperar meu filho eu daria com muito gosto”, disse.

A outra mãe presente era Hilda Vargas, esposa de Mario César e mãe César Manuel Gonzáles. A consternação no pequeno auditório era geral, e com poucas palavras ela conclamou solidariedade internacional de todos os que pudessem se solidarizar.

“Está claro que foi o governo, eles deveriam proteger o povo, mas fazem o contrário. Pedimos a vocês que levantem a voz para nos apoiar”, pediu.

Cerca de 100 mil pessoas participaram de uma marcha na Cidade do México exigindo justiça por Ayotzinapa, no dia 26/09, quando o desaparecimento dos estudantes completou um ano. foto: Isabel Sangines/Somoselmedio.org

43 a menos

A tragédia da noite do dia 26 de setembro é assustadora em seu desenrolar despretencioso e corriqueiro. Começa com a organização dos estudantes para o tradicional boteo, um momento onde os alunos recolhem pequenas quantidades de dinheiro nas cidades próximas junto às pessoas que estão pela rua ou conduzindo um automóvel; o destino destes recursos é o custeio das atividades anuais da escola. Estavam em em Iguala, na província mexicana de Guerrero. A maioria dos estudantes descendiam de famílias de camponeses e viveram a maior parte da vida nas zonas rurais. Aos filhos destas famílias, genuinamente, o destino concreto são uma das 36 Escolas Normais Rurais como a que funciona em Ayotzinapa.

Realizado o boteo, os estudantes organizados reivindicaram alguns ônibus para seu transporte e eis que um dos motoristas negou-se a colaborar com o grupo e acabou por avisar seus superiores que acionaram a polícia. A partir disto, uma barreira foi montada pela polícia e dois assaltos se sucederam, um por volta das 21h30 e outro por volta das 23h. As informações oficiais, passado um ano do episódio, são desencontradas em relação ao relato dos sobreviventes e dos familiares que reivindicam saber o real destino dado para os corpos de seus filhos, que permanecem desaparecidos. A este episódio específico e a um conjunto de passagens semelhantes são dados o nome de “desaparição forçada”, onde visualiza-se agentes oficiais realizando tarefas oficiais   diretamente ligados a uma tragédia que teve o saldo de 43 desaparecidos, 26 feridos e 9 mortos segundo os relatos. Em síntese, Ayotzinapa resume a realidade do México, que contabiliza mais de 22 mil pessoas desaparecidas em seu território.

 

Desgraciadamente el gobierno…, pelo viés de Calvin Furtado

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