Tivemos o mesmo sonho de algumas semanas atrás: falamos com a Vespertinos

Quinteto santa-mariense leva a vida cantando as cores de um encontro que, depois da chuva, pode já ter acabado.

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Foto: Angela Pimentel.

Luciana, a dona do Café Cristal, perambulava de um lado para outro do balcão atendendo a pequena multidão que invadia o espaço interno do café. Em uma das mesas, Igor Hardock Fuchs, baixista, vioaguardava alguém. Cinco minutos depois, Matheus Toledo fazia companhia. Acho que conheço um deles, disse alguém na mesa ao lado. Eu vi um show público no coreto da Saldanha, completou outro.

Eu nunca tinha visto eles como grupo, mas conhecia quase todos das andanças noturnas do centro e do Bairro do Rosário. Tempos depois, os cinco estreavam, no palco do Theatro Treze de Maio, ponto central da cidade, o primeiro espetáculo sentado (você pode conferir o relato em crônica de Mariana Feistauer sobre sua corrida para chegar – atrasada – no espetáculo da banda). No outro dia, a boca do povo comentava sobre a originalidade do quinteto. O som tem um quê de uma longa estrada de asfalto em tarde quente. As letras chegam por Martim, vocal e letrista da banda. “Ele traz um projeto e depois ele mesmo decide quebrar a sequência imaginada”, explica Alê, o Alexandre, guitarrista e vocal. “Eu gosto disso, de ver que a gente entende a música, mas que na mesma hora pensa nessa quebra”, completa Mateus, o baterista e integrante mais recente. Agora eles são a Vespertinos. Uma banda autoral, e cheia de charme, de Santa Maria.

Então a sua avó tocava gaita, Martim? “Sim, tocava mesmo”, responde o rapaz minguado de olhos sinceros. Martim está entre dois de seus quatro companheiros de banda. Alê, o guitarrista, mantém sob a franja erguida olhos de penetrável negrume. O pai, que ouvia vários discos, é sua primeira memória musical. “Ninguém na minha família é músico, na real, mas temos uma ligação com a arte sonora. Lembro de crescer ouvindo Black Sabbath, os discos dos meus pais”. Do outro lado, está Mateus, o baterista recente, o cabeludo daquela gangue agora sentada num sofá da produtora de vídeos de um deles no Centro. Eu sou a visita, mas saquei os vespertinos como imaginava. São serenos, no conjunto, como sonoramente lembram suas canções que falam de amor, tardes, escadas e cafés.

É tarde de sábado e o calor geralmente por aqui infernal resolveu dar uma amenizada. Mesmo assim, damos uma passada no Mercado da Índia para buscar cerveja, picolés e refrigerante. A sala onde a entrevista ocorre pertence a Matheus Toledo, o tecladista da banda, que está sentado à minha esquerda. À direita, irônico e encabulado, Igor responde pouco. Mas parece gostar de ironizar a vida. Há algum tempo, descobriu que tinha uma síndrome que simplesmente se vinga do próprio corpo. “Eu vivo assim, brigando comigo mesmo”. E dá risadas.

Essa é a formação básica da banda santa-mariense Vespertinos. Básica no sentido de ser apenas uma superficial apresentação quase numérica e resumida dos integrantes da banda. É preciso dizer que Toledo comanda a idéia do que é a banda e se anima a qualquer pergunta. Tem o espírito do integrante apaixonado. O espírito da banda salta antes na voz dele. Às vezes, depois de começar animado a responder minhas perguntas, lembra de questionar os colegas sobre alguém querer responder: “Deixa para ele mesmo, é o nosso homem-propaganda”, diz Alê. Na verdade, ele parece saber mesmo sobre o que fala. “Desde o início, eu suei pra fazer a banda tomar corpo, assim, um conceito. Eu curto mesmo, sabe?”. Igor concorda e reconhece o empenho de Matheus, que detém um apelido oculto [e pelo jeito cômico] entre os amigos. Mas cita o trabalho dos outros, quase em ordem, em demonstração.

Os Vespertinos passam pelo pátio mais charmoso da cidade. Foto: arquivo.

As letras chegam da casa de Martim, da casa e da cachola. É ele quem escreve estrofes bucolicamente sutis como “tudo pra te ver, na terça um café, fim de semana tenho fé, uma vez ao menos vou te ver” enquanto, no palco, seu semblante se mantenha macambúzio. Os vespertinos têm um pouco disso. No seu texto de apresentação ao público, escrito pelo agitador cultural Atilio Alencar, a Vespertinos é caracterizada como uma sensação ensolarada, desbotada, diria eu, sem soar pejorativo. A falta de cores soa mais suave. Não cantam coisas alegres nem aplaudem o sol. Fazem folk, de uma pegada bem confidencial. Se você ouve as canções e depois conhece os meninos da banda, saca tudo na mesma hora.

Cantam e falam a partir de uma alegria quase doída. Arte com alma íntima, daqueles que saberiam fotografar o odor da chuva depois do temporal. O baterista silencioso Mateus Cordenonsi, que já fez parte de outra banda que emplacou nome na cidade, a Falsetes, coça o queixo ouvindo seus parceiros responderem. “Eu não tinha muito dessa pegada antes de chegar à banda, mas os meninos me conheciam, viram um show e, quando perderam o último baterista, me convidaram. No fim das contas, se formos pensar que ensaiamos menos de nove meses antes do show, o projeto final saiu direitinho”, opina. E realmente. O que fez a Vespertinos saltar aos olhos dos santa-marienses foi, quem sabe, esse rompante de quem parece saído da escola há três anos com o amadurecimento musical de velhos bossa-nova numa tarde em Itapuã. Do entusiasmo de Toledo, fez-se um espetáculo bonito. E bem original, o que faz diferença.

Ainda no mesmo texto de apresentação, Alencar diz que o único excesso da Vespertinos é a coragem de ser simples. Simples, aqui, tem que ser bem delineado: ao assistir ou ouvir a banda, é só fechar os olhos para encontrar o caderno de rabiscos de Martim, sentado, quieto, como de costume, a pensar. Alexandre, o guitarrista sério, parece envolver todo o conceito das canções sem sentenciar frases de impacto. Falam o que sentem. Cantam o que vivem. Parecem integrantes de uma banda de longa data que ainda nem se conhece por completo. É um constante vai-e-vem de sensações. São recém meninos que cantam um descer de escadas a sorrir, como naquele sonho que se repete. Eles sonham. Colocam cor em suas sensações. Não se sabe de onde veio o nome da banda, que surgiu entre brincadeiras, idéias, aquele velho turbilhão horrível de dar nome a algo que se concebe. Cheio de veias, de vida e de histórias. Igor, ao meu lado, apóia o rosto nas mãos. Mais ouve do que fala. É o único iluminado pelo sol. Pergunto sobre o futuro. “Planos ainda sem nome”, diz rindo, “quase como pensamos o nome da banda”. Eu questiono como foi. Não se dá qualquer nome a uma banda que fala da saudade sem cor. “A gente gosta dessa palavra. E é um horário bom de viver”, diz Toledo. Entende quando falamos em simplicidade? O nome do que fazem representa a calma com que levam a vida.

Como já dito, tudo na Vespertinos acontece de maneira sensata, mas 2015 foi, para eles, o ano mais emblemático. Só no ano passado, a banda lançou o primeiro EP (que dá para ouvir no yt), e dois clipes oficiais, também abertos ao público nas redes. Depois de circularem por várias cidades e diferentes festivais, em 2016 a Vespertinos fechou o Acid Rock, importante ponto de encontro da música das redondezas. Não há melhor horário do dia para sentar, dar play no som e conhecer os meninos: uma cadeira e um final de tarde são praticamente o espírito da banda.Mesmo que Alvorada, escrita por Martim e musicada logo no começo da banda, diga que a cadeira ao nosso lado pode estar vazia. São meninos melancólicos, ou pelo menos cantam a melancolia. Numa passagem, os próprios integrantes reagem à sua música da seguinte forma: também cantamos a sutileza com que as distâncias vão separando as pessoas. As distâncias, diríamos. Não a música. A música da Vespertinos aproxima. Principalmente se for naquele belo final de tarde que vai perdendo a cor.

A Vespertinos encerra o festival Acid Rock. Foto: Pedro Lenz Piegas

Tivemos o mesmo sonho de algumas semanas atrás: falamos com a Vespertinos, pelo viés de Bibiano Girard.

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