“A FORÇA DA CLASSE TRABALHADORA É A ORGANIZAÇÃO”

Cada um à seu jeito, Orwell, Eisenstein, Leon Hirszman e um casal de ativistas canadenses, Avi Lewis e Naomi Klein, mostram como a organização, ou a falta dela, podem ser tudo ou nada para o operariado.

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“A força da classe trabalhadora é a organização. Sem organização de massa o proletariado é nada, com organização é tudo. Ser organizado significa unidade de ação, unidade das atividades práticas”.

Eisenstein inicia seu “A Greve” com essa citação de Lênin. Muitos anos mais tarde poderemos ver, em filmes e livros documentais, a força de tais palavras. Como elas podem ser tão reais mesmo com o passar de décadas e em lugares tão distantes como a Rússia Czarista, o Brasil da ditadura militar, o Reino Unido pós I Guerra Mundial e a Argentina da crise de 2001.

Cada um à seu jeito, Orwell, Eisenstein, Leon Hirszman e um casal de ativistas canadenses, Avi Lewis e Naomi Klein, mostram como a organização, ou a falta dela, podem ser tudo ou nada para o operariado.

Eisenstein em 1927 ainda vivia no cinema mudo e lembrava em seis atos o que acontecia na Rússia czarista. Um massacre contra uma greve por melhores salários e condições de trabalho. A montagem é que sobressai – a repressão é vista junto das imagens de um encontro patronal, a cavalaria pressiona os operários daqui e os patrões fazem suco espremendo um limão de lá. “Você pressiona com força e consegue… suco”.

George Orwell em 1937 lançava “O Caminho para Wigan Pier”. O livro (já comentado aqui na revista por Nathália Costa), conta um pouco da experiência de Orwell no norte da Inglaterra, região produtora de carvão, e seu contato com os mineiros que lá trabalhavam. Orwell escolheu criar duas partes quase independentes em seu livro, uma documental e outra ensaística. Na primeira delas, Orwell relata tudo que viu, como se sentiu e como aquilo afetava a ele e as diferentes classes. Na segunda parte, Orwell se permite a uma crítica à forma que o Socialismo é pensado na Europa.

Orwell não esconde sua admiração pelos mineiros. Quem lê seu relato passa a admirá-los também. Hoje esse tipo de mineiro já não habita a Inglaterra. Um pouco pelos avanços tecnológicos e das legislações trabalhistas, um outro tanto pela diminuição significativa das reservas de carvão mineral de um país que já as explorava a séculos. Mas o retrato feito por Orwell provavelmente continua existindo em pontos mais distantes da nossa visão. A China, um bom exemplo disso, continua mantendo a mineração nos moldes de Wigan Pier de Orwell. Por ano centenas de mineiros chineses acabam mortos ou soterrados para que a produção chinesa se mantenha no mesmo ritmo (hoje a China responde por quase metade da extração de carvão mineral do planeta).

Mas algo foge dos fortes mineiros ingleses. Não são relatados por Orwell greves ou paralisações. O que Orwell mostra são vidas miseráveis, casas ou barracos imundos e homens humildes que não tem outras perspectivas que não a mineração e seus males. Não parece, em uma leitura preliminar, que ali existam sindicatos fortes capazes de defender os interesses dos mineiros. Até por que a região tem uma massa de mineiros desempregados quase igual ao de empregados.

Mesmo assim Orwell percebe astutamente que, havendo greves ou paralisações, as famílias mineiras ficariam muito mais unidas que as da classe média. O que para o autor se deve aos conceitos diferentes que existem entre as duas classes para a chamada “lealdade familiar”: “Não pode haver um sindicato eficiente de trabalhadores de classe média, pois numa época de greve quase toda esposa de classe média iria atiçar o marido a furar a greve e a ficar com o emprego do colega”.

O que nos traz ao Brasil do fim dos anos 70. Leon Hirszman realizava o filme “Eles não usam Black-tie” tendo como personagens centrais operários paulistas. Para produção o diretor mudou-se para São Paulo e num misto de sorte e vontade filmou cenas das greves que aconteciam no ABC paulista, região mais industrializada do país, e sua repercussão.  O documentário “ABC da Greve” nunca foi totalmente terminado por Hirszman, devido à morte do diretor alguns anos depois, mas a força de suas imagens é inegável. Lula, agora ex-presidente da República, pode ser visto muito mais jovem, inflamando e coordenando as massas na luta por salários e condições de trabalho mais dignas.

Mas o documentário quer mostrar mais que isso. Depois de quinze dias parados e com o sindicato, dirigido por Lula, sob intervenção federal, a greve é interrompida. Lula, que desde a intervenção do Ministério do Trabalho havia desaparecido, volta para chamar os metalúrgicos do ABC de volta ao trabalho. Serão 45 dias sem greve, essa é a promessa dos metalúrgicos para que os industriários e o sindicato da categoria negociem um acordo.

Nesse momento o documentário de Leon Hirszman se torna único. Dali para frente veremos a vida dos metalúrgicos e de suas famílias nas mais de 150 favelas na região. É pra lá que os responsáveis pelas maiores linhas de montagem de automóveis, junto com mais outros milhares de operários de todo o maior campo industrial brasileiro, foram mandados para que se mantivesse uma mão-de-obra barata, para que o país se mantivesse competitivo e para que a economia crescesse. É essa visão realista de Leon Hirszman que choca. Afinal, de que adianta crescimento se for para poucos privilegiados?

Há uma forma de mudar essa realidade? Orwell se questiona em “O Caminho para Wigan Pier”. Eisenstein ao fim de “A Greve”, quando os grevistas são executados como vacas, avisa: “casos como esse aconteceram em Lena, Talka, Zlataust, Yaro, Slavl, Tsaritsin e Kosterma. Lembrem-se, proletários!”, um aviso contra as barbáries czaristas e pró-socialismo. Leon Hirszman evidencia Lula. Os ativistas Avi Lewis e Naomi Klein precisavam da resposta.

Os diretores/roteiristas de “The Take” são questionados em programas de TV e rádio sobre o que consideravam ser a solução para os problemas do neoliberalismo que tanto combatiam em protestos por todo o mundo.

A resposta veio da Argentina. Em 2001 a Argentina estava no epicentro da maior das crises financeiras de sua história. Desde meados da década de 90 com a privatização do capital e com a abertura de capitais a Argentina já seguia um caminho que levaria à crise. Depois do chamado “corralito”, a fuga do capital para países estrangeiros, o governo decidiu controlar os saques bancários da população, instituindo-se o máximo de 1000 pesos semanais por pessoa.

Assim, uma crise econômica se tornou política e os chamado “panelaços” atingiram seu auge. “Qué se vayan todos!” gritavam os manifestantes. Essa crise provocou um movimento de saída de capital e de falência de várias empresas, que passaram a não arcar mais com seus empregados.

“The Take” mostra a forma encontrada por alguns desses operários para sobreviverem. Algumas, depois muitas, empresas fechadas foram “tomadas” pelos empregados que nela trabalhavam. Várias dessas empresas passaram a ser administradas por estes empregados, que dividiam a receita entre eles, sem um patrão para lhes levar o lucro.

Diversas empresas não só se mantinham com essa forma de administração, mas se expandiam e incentivavam outros grupos operários de assumirem suas empresas “sin patrón”. O documentário de Lewis/Klein segue a tentativa de um grupo de empregados de tomarem para si o controle da empresa onde trabalhavam, deixada por seus donos anteriores.

“Com organização o proletariado é tudo”, dizia Lênin em 1907. E ele nunca esteve tão certo.

“A FORÇA DA CLASSE TRABALHADORA É A ORGANIZAÇÃO”, pelo viés de João Victor Moura

joaovictormoura@revistaovies.com

Para ler mais resenhas acesse nosso Acervo.

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  • Ivan

    Muito bom o artigo!!

    Valeu