LESTE EUROPEU A PARTIR DO SEU CINEMA

O recente cinema do leste europeu refaz o caminho do Comunismo fechado ao Mercado Aberto.

A+ A-

A Segunda Guerra Mundial (1939 – 45) mudou expressivamente a história dos povos e de seus países. Isso não é exatamente uma novidade, mas relembrar esse fato é realmente importante para pensarmos no que ocorreu após 1945. Podemos começar com o que havia pouco antes do século XX e de suas grandes guerras: conflitos que, mesmo com grande relevância para a história e a geografia do planeta, eram distantes e esparsos. É só depois da II Guerra que a geografia mundial seria realmente mudada. Algumas dessas mudanças têm conexões claras, como o sonho sionista do “país próprio”, que cunharia Israel. Já outras mudanças do cenário seriam indiretas. É o caso da descolonização na África e especialmente na Ásia. Em quinze anos nove países se tornaram independentes, um território que junto teria quase o dobro do tamanho do Brasil. Um duro golpe para as metrópoles que tentavam se reconstruir.

No Leste Europeu da II Guerra tínhamos aliados do Reich e países conquistados à força pela Alemanha. Com o sonho alemão de conquistas desmoronando, quem tomou boa parte daquele território foi o Exército Vermelho soviético. Assim, com ares de força libertadora, se tornava massiva a influência da União Soviética nesta parte da Europa.

Por influência soviética que estes países se tornaram regimes comunistas. Em alguns deles a força foi necessária, já em outros o apoio da população elegia democraticamente representantes comunistas.

Romênia e Tchecoslováquia (a união dos atuais Estados da República Tcheca e da Eslováquia) estiveram em lados opostos quanto ao início do Comunismo em seus governos. Para a Tchecoslováquia o processo foi mais natural, com apoio da população e eleições democráticas. Na Romênia o início é mais conturbado, com um golpe de Estado contra o Rei Miguel I.

A partir do início do regime comunista os dois países passam a compartilhar certas semelhanças históricas: ambos são aliados da União Soviética mas passam por momentos conflituosos com este país; por conta destes conflitos ganham a confiança do Ocidente por certos períodos; têm líderes que chegam a conquistar a população mas, por tomarem medidas impopulares,  perdem esse apoio.

Cena do filme A Confissão mostra inscrição real "Lênin acorde, todos eles estão loucos"

Alguns fatos históricos, no entanto, seriam exclusividade de cada um destes países. Na Tchecoslováquia o que se iniciou democraticamente vai se tornando cada vez mais ditatorial: com o apoio incondicional da URSS de Stalin (1924-53), uma caça dentro e fora do partido é iniciada e se torna cada vez maior – o filme “A Confissão” do grego radicado francês Costa-Gavras retrata esse período.

Em 1968, 15 anos depois da morte de Stalin, a “Primavera de Praga” ganha contornos, com várias reformas implantadas por Dubček, chefe de Estado tchecoslovaco. Por alguns meses medidas que ampliavam a liberdade de culto, de expressão e abertura para os países ocidentais foram sendo tomadas, até que o governo soviético de Brejnev, descontente com tais arroubos liberais, decide enviar tropas do Exército Vermelho e dos demais países do Pacto de Varsóvia à Tchecoslováquia. Mesmo gozando de forte apoio popular, a ocupação por parte do Exército Vermelho revoga as medidas liberais, o que dá início a grandes protestos.  Em sua maioria protestos pacíficos, que se tornariam famosos por constituírem um dos poucos movimentos populares contra o regime comunista soviético.

A Romênia vive uma situação mais complicada. Depois da implantação do Comunismo, disputas internas entre três correntes estalinistas acabam por minar o poder do Estado, que à troca de liderança invertia a direção de suas medidas. Na época, planos ambiciosos demais, como a construção de um canal entre o Rio Danúbio e o Mar Negro, mataram milhares de pessoas.

O ditador Nicolae Ceauşescu, que governou o país por mais de vinte anos, escala a hierarquia do partido comunista romeno, comandado por Gheorghe Gheorghiu-Dej. Com a morte de Gheorghiu-Dej em 1967, Ceauşescu assume o poder.

Em seus primeiros anos de governo Ceauşescu consegue ser popular pelos bons ventos da economia de seu antecessor e por se posicionar de forma independente da URSS em casos como o da invasão soviética à Tchecoslováquia em 1968, fato que condenou publicamente. Mas, com o passar de alguns anos, sua popularidade diminui e seu ego cada vez mais inflado torna o governo centralista e autoritário. A época é de repressão, principalmente por parte da polícia secreta romena, a Securitate. Em uma população de pouco mais de 20 milhões de habitantes, o órgão chega a ter 11 mil agentes e mais de 500 mil informantes, uma taxa de um informante para cada 40 romenos.

Uma das maiores cicatrizes do governo Ceauşescu está na capital do país, Bucareste. Lá, o governo decidiu que todo o centro da cidade seria demolido para a construção de um grande Palácio e de um Centro Cívico. Várias construções históricas foram ao chão, mais de 30 mil casas e edifícios foram demolidos.

O ‘Palácio do Parlamento’, como é hoje chamado, abrigaria a Assembleia Nacional, a cúpula do governo e seus ministérios, o Supremo Tribunal e a residência presidencial. Um sonho megalomaníaco de uma época apelidada pelo governo de “Era Dourada”.

Uma cidade que se prepara para a recepção à comitiva do presidente, que nunca aparece; um bom “camarada” do partido que é capaz de enfrentar qualquer coisa para alfabetizar os adultos em uma pequena vila romena; um caminhoneiro que pega prisão perpétua por roubar alguns ovos na páscoa. Lendas contadas em cinco episódios mostram um pouco do cotidiano de milhares de romenos no filme “Contos da Era Dourada”.

O projeto, de 2009, apresenta seis capítulos independentes dirigidos por cineastas diferentes, que relembram diversas lendas que realmente eram contadas na Era Dourada de Ceauşescu. A repressão, a necessidade de valorização do sistema socialista e a pobreza podem ser considerados temas recorrentes que o filme, vinte anos depois do fim da Era Dourada, pretende resgatar.

E pela visão destes diretores e do roteirista Cristian Mungiu (do vencedor da Palma de Ouro de 2007 “4 meses, 3 semanas e 2 dias”) o espectador pode ver situações embaraçosas, dramáticas e outras que de tão disparatadas se tornam engraçadas. Como a de uma família que para não dividir um leitão, o mata na própria cozinha usando gás. Ou do fotógrafo que precisa arrumar uma foto para que Ceauşescu não apareça “tirando o chapéu” para um representante Ocidental. Lendas urbanas que invariavelmente acabavam de uma forma absurda e que caracterizam até que ponto ia a loucura do governo e a histeria popular numa época de ditadura.

Por trás desta “Era Dourada”, porém, a força soviética ruía e com ela iam os regimes socialistas nos demais satélites do leste europeu. Revoluções pacíficas e transições ocorriam em toda aquela região, inclusive na Tchecoslováquia, que teria sua “Revolução de Veludo” e a subsequente divisão entre República Tcheca e Eslováquia.

Na Romênia, novamente, o processo foi mais complicado e violento. Os fatos que depois ficaram conhecidos como “Revolução Romena de 1989” se iniciaram em dezembro daquele ano. Em Timişoara um fato irrelevante acabou sendo estopim da revolução: um sacerdote húngaro contrário ao regime de Ceauşescu foi demovido de suas atividades pelo bispo da cidade, o que o faria perder sua casa. Alguns religiosos então decidiram proteger o imóvel para que a ordem de desapropriação contra ele não fosse cumprida. Aos poucos se juntaram a eles estudantes e fiéis, que a essa altura protegiam sua religião contra o regime. Mais e mais pessoas protestavam e a polícia usava gás lacrimogêneo para dispersá-los, um esforço que se mostrou inútil. O descontentamento era grande e os protestos aumentavam por toda a cidade.

No dia seguinte a situação tornava-se insustentável. Um grupo de manifestantes invadiu a sede distrital do Partido Comunista e queimou documentos e panfletos. O exército também foi acionado pelo governo e diversos tiroteios aconteceram em pontos isolados da cidade, carros foram destruídos e o caos era geral.

Depois de alguns dias os esforços governamentais para que os protestos cessassem mostraram-se ineficazes e a notícia de que havia manifestações contra a ditadura Ceauşescu se espalhava. Em alguns dias um fato miúdo, o desalojamento de um padre, havia se tornado uma revolução popular que chegava à capital Bucareste. Lá o governo se reunia para decidir o que poderia ser feito, mas a única opção de Ceauşescu e sua família acabou sendo a renúncia e a fuga.

Nicolae Ceauşescu seria capturado em 25 de dezembro de 1989 depois de escapar de helicóptero da sede do governo no dia 22. No mesmo dia foi julgado junto da mulher, Elena Ceauşescu, e executado.

“Houve revolução em nossa cidade?” Essa é a pergunta que de forma bem humorada o filme “Ao Leste de Bucareste” tenta responder. Anos de repressão e de uma política de enfraquecimento das lideranças políticas levaram a apatia de grande parte da população romena. Uma revolução generalizada de nascente popular seria quase impensável.  Timişoara, “capital” dos acontecimentos daquela época, viveu dias de campo de batalha. Bucareste, a capital do país, também foi palco de diversas manifestações que acabaram depondo o regime de Ceauşescu. Mas em outras partes do país pairam muitas dúvidas quanto aquelas revolução: “teria acontecido em nossa cidade?”. Se o movimento ocorreu antes da renúncia de Ceauşescu foi revolução, se aconteceu depois da queda do ditador foi festa popular, não revolução.

No marco dos 16 anos da revolução um programa de uma pequena rede de TV de uma cidade da Romênia convida um professor e um aposentado para falarem de suas experiências no dia da revolução. O cenário dos acontecimentos, a pequena cidade, não demonstra ser palco de uma revolução, mas a discussão parece importante.

Em sua parte final o programa local, chamado “O Tema do Dia” é mostrado, com telefonemas que desmentem o pobre professor Manescu, um alcoólatra que jura ter protestado contra o regime na frente da sede do Partido local. Mesmo que várias ligações insistissem em dizer que, naquele dia, ele estivesse bêbado em um bar da cidade.

O filme trata com humor de um tema importante, “saímos realmente às ruas para protestar por algo?”, e pode ser transportado para o Brasil: haviam “caras pintadas” espalhados pelo Brasil, ou só nas grandes cidades? Houve manifestações pelas “Diretas” espalhados pelos quatro cantos do país, ou na verdade a maioria dos brasileiros nem fazia ideia do que acontecia?

E o que ficou para as gerações futuras? A situação ficou melhor com a mudança do governo autoritário para governos liberais? Na República Tcheca o crescimento econômico melhorou a vida de boa parte da população, a inflação é bem controlada e o desemprego tem índices aceitáveis. Mas, isso tornou a população crítica ou apática às questões políticas?

Na época comunista conseguir alimentos, roupas e bens materiais não era tarefa tão fácil. Passados muitos anos, supermercados surgiram e se tornaram uma “mania nacional” na República Tcheca. Famílias inteiras marcavam dia, se arrumavam e iam às compras, afinal, não há nada melhor que poder comprar tudo que o dinheiro permite! Em 2005 o país entrava na União Europeia depois de um plebiscito popular favorável à UE. Mas dois jovens cineastas não estavam satisfeitos com a situação antes deste plebiscito. As campanhas publicitárias governamentais enfatizavam a necessidade de se dizer SIM à União Europeia sem apresentarem o porquê dessa necessidade.

O consumismo e a apatia popular levaram Vít Klusák e Filip Remunda a escolherem como projeto de conclusão de curso na Universidade de Cinema de Praga a produção de um documentário sobre essa obsessão por hipermercados. Mas não um documentário que mostrasse a história desse processo, ou que tivesse diversas entrevistas com economistas e historiadores. Não. Eles decidiram que a melhor forma de mostrar esse vício tcheco seria um esquema “faça você mesmo”. Assim, eles se tornaram os donos de um hipermercado que abriria as portas com o sugestivo nome “Sonho Tcheco”, mesmo nome do filme de 2004. O hipermercado, no entanto, nunca existiria, seria apenas uma fachada de lona em uma planície.

O filme aborda de uma forma original o limite, ou a falta dele, na publicidade. Só o que há de real no “Sonho Tcheco” é a propaganda, massiva, em outdoors, na TV, no rádio e espalhados por toda a cidade em panfletos, pontos de ônibus e até do lado de fora dos trens.

A inauguração e a sequente decepção de todos aqueles que correm por mais um hipermercado tornou-se discussão pelo país no que foi chamado “efeito Sonho Tcheco”. Levou também à discussão da necessidade de a República Tcheca entrar na União Europeia.

O novo cinema do leste europeu pode ser bem humorado, mas sempre quer fazer o espectador pensar sobre si e sobre o mundo à sua volta.

LESTE EUROPEU A PARTIR DO SEU CINEMA, pelo viés de João Victor Moura

joaovictormoura@revistaovies.com

Para ler mais resenhas acesse nosso Acervo.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone