CALA-TE, PADRE! O MESSIAS É ZVI.

Em homenagem ao escritor Moacyr Scliar, um ensaio sobre “A balada do falso messias”.

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Quais identidades tais judeus construíram naquele navio com um homem cobrando-se por uma culpa, nadando em mar tão gélido? Uma embarcação onde um judeu palestino reclama aos seus da terra de onde vinha, a qual era a “terra santa” para seu povo, tão relutante em reivindicá-la e venerá-la?

São questões de honra e perplexidade mental, orgulho judeu e respeito às tradições que formam a imagem de um messias aspirante a uma representação entre famílias desoladas, porém esperançosas, que Moacyr Jaime Scliar, gaúcho de Porto Alegre, morto em fevereiro deste ano, dedica páginas de seu livro, homônimo ao conto analisado neste ensaio, à criação popular de um pequeno mito, seu messias.

Scliar é um dos principais expoentes da literatura do estado e de todo o Brasil. O escritor, nascido no ano de 1937, era formado em medicina. Porém, dividia a profissão de médico especialista em saúde pública com o exercício da literatura. Suas publicações, que somam mais de 70 livros, incluem crônicas, contos, ensaios, romances e literatura infanto-juvenil.

Dono de um estilo jocoso e leve, o qual lhe garantiu um público bastante amplo e variado, foi imortalizado pela Academia Brasileira de Letras em 2003. Antes disso recebeu uma diversidade de prêmios literários, entre os quais o Jabuti de 1988 e 1993, o Associação de Críticos da Arte (APCA) de 1989 e o Casa de lãs Americas no mesmo ano.

Um assunto recorrente em suas obras é a imigração judaica no Brasil, tema que dá embasamento ao conto “A balada do falso messias”, publicado em 1976. Pela literatura tanto de ficção quanto contada a partir de histórias reais, Scliar teve sua obra incluída na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, organizada pela National Yiddish Book Center, nos Estados Unidos.

“A balada do falso messias” retrata a viagem dos imigrantes judeus no início do século XX, mais especificamente no ano de 1906, rumo ao Brasil, buscando a “promessa da América”. O conto, em primeira pessoa, relata os percalços vividos por estes imigrantes oriundos da Rússia e da Palestina, desde a viagem propriamente dita, até um bom tempo após o estabelecimento das várias famílias em terras brasileiras. Erechim, no norte gaúcho, serve como cenário para a maior parte da narrativa por ser o rumo final da saga, para onde os recém-chegados rumaram após o desembarque na ilha das Flores, no estado do Rio de Janeiro.

Um narrador que nunca se mostra ativo dentro do grupo de imigrantes – do qual faz parte – apresenta a história que se desenrola a partir de uma espécie de flashback. O conto se inicia em um parágrafo no tempo presente, no qual são descritas as ações do sujeito, a princípio não identificado. Ao servir o vinho, ação que depois é situada na mesa de um bar – no último parágrafo, em que o autor retorna para o tempo presente – tal sujeito provoca uma reflexão do interlocutor, e assim o conto ruma para o início da história, em 1906, ainda na Rússia, mas já a bordo do Zemlia: o navio em partiram os judeus.

Desde o início deste enredo, dois personagens recebem uma atenção especial partindo do narrador. São eles Shabtai Zvi e Natan de Gaza. Enquanto este se sobressaia perante aos demais, causando curiosidade, por ser natural da Palestina (Eretz Israel), aquele se mostrava ligeiramente estranho por apresentar certa inclinação à liderança e à inquietude. Shabtai Zvi também era estranho por ser estrangeiro, mas isto se torna menos relevante em relação aos demais aspectos de sua personalidade. Define-se então, por esta trajetória, que temos um protagonista: um personagem complexo, responsável pelo acarretamento do futuro dos outros personagens e os próprios fatos vindouros.

No tocante aos acontecimentos, Shabtai Zvi não demora a se mostrar díspar em atitudes. Ainda no navio, espanca aquele que viria a ser seu fiel protegido e seguidor – Natan de Gaza, personagem secundário na trama, que maldizia sua terra natal e principalmente um dos principais dogmas do povo judeu, a proteção da terra prometida. Através deste fato já se ressalta a postura intensa e forte do devoto judeu, Zvi.

O conto, mesmo trazendo uma das temáticas mais corriqueiras na literatura que Scliar deixou de legado, não se prende totalmente a este contexto. É nas terras gaúchas, doadas por um barão, que o autor apresenta uma personagem que remete a uma caracterização da situação e viver do povo instalado há séculos no estado do Rio Grande do Sul, com características de personagem de Erico Verissimo: foge dos “Abas Largas” e vem cavalgando dos pampas acompanhado por seu bando, reivindicando, saqueando e destruindo o fruto do trabalho árduo dos judeus.

É Chico Diabo, que não alcança o posto de antagonista, característica singular no conto, pois Shabtai não se opõe propriamente aos ideais de nenhum outro personagem. Apesar da existência de Chico Diabo, Shabtai é quem assume em determinadas passagens o posto de uma personalidade antagônica e conflituosa em seu âmago.

Uma chuva arrasadora de granizo e os malefícios causados pelo malfeitor Chico Diabo provocam o profundo desespero da colônia judaica, que se vê amedrontada e sem saída. Nesse ambiente caótico, Shabtai Zvi retorna de uma clausura auto-imposta, durante a qual estudara a Cabala, o misticismo, o ocultismo, a metempsiciose e a demonologia. Desse retiro, os colonos vêem surgir um homem diferente: volta com as falas de profeta, intenções e feições míticas. Magro pelo jejum, com uma longa barba grisalha e envolto por uma espécie de aura, grita ao povo que as mazelas pelas quais estavam sofrendo, no caso o pampeano e a chuva de gelo, seriam castigo divino. E mais, aponta a única salvação: abandonar tudo, construir um navio com a madeira das próprias casas, as velas com os xales de oração e rumar à Palestina. O conto e suas interlocuções na história mundial do passado e do presente.

“Castigo divino cai sobre vós!”. É esta a primeira frase que Zvi pronuncia ao povo quando retorna. Através dela, é possível perceber que Shabtai já não mais se considera parte do todo, e principalmente, como igual aos demais. Ao usar o pronome “vós”, deixa claro seus desígnios de representante de algo acima dos homens. Assim, tenciona ser o messias – e talvez acredite mesmo que seja – de uma população que aguarda a chegada do salvador há milênios. E, numa hora de completa aflição, suas pregações são acatadas por quem as ouve.

O desvario de uma colônia pregada por um messias bestial provoca a intriga dos não judeus que enviam o Padre Battistela, um tipo religioso comum, a fim de investigar o que se passa. Battistela vem ao encontro de pessoas na pior das consciências e assim é fortemente confrontado. Ao contradizer e questionar os judeus, foi duplamente contestado: primeiro, pela antiga questão da não aceitação de Jesus Cristo, e depois, pelo fato de que agora tinham já um messias.

A fraqueza de uma mente abalada traz a jovem Sarita, solitária, a se oferecer como seguidora excepcional: doa sua vida de solteira em detrimento à “causa do messias Zvi”. A noiva do messias é filha adotiva do gordo Leib Rubin, personagem complexo, por aceitar o messias e logo depois o recusar como tal, chamando a população a uma fuga para Porto Alegre, depois do sumiço de Zvi, ocasionado pela estranha morte de Chico Diabo. Enfermo, busca socorro com um curandeiro e com o “tal” messias, justamente o salvador da população que o Diabo aterrorizava.

Se Zvi era de fato o messias, então teve a escolha em suas mãos: terminar com a praga e exterminar o Diabo, correndo o perigo de ter seus súditos em risco ou salvá-lo e continuar a mercê do maldoso cavalariano? A dúvida sobre a veracidade da força do messias, falso ou não, persiste quando o narrador, que permanece incógnito, termina seu flashback: está sentado à mesa de um bar onde costuma encontrar com Zvi desde a morte de Sarita. Shabtai, ao fechar os olhos, transforma o vinho em água.

A incerteza do leitor, uma jogada literária, persiste e deixa transparecer a mensagem de uma dubiedade de visões, quando nos expõe personagens inconstantes, como todo ser humano, e que se submetem, ou não, em situações de angústia, ao acato do quase ridículo. A dúvida: aceitar uma última chance de esperança, mesmo grotesca, seria burlesco ou fato da fraqueza tomar o homem para o lado do que lhe é menos penoso?

CALA-TE, PADRE! O MESSIAS É ZVI., pelo viés de Bibiano Girard e Tiago Miotto

bibianogirard@revistaovies.com

tiagomiotto@revistaovies.com

Para ler mais ensaios acesse nosso Acervo.

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