O VISITANTE

De um modo geral, esse é o brasileiro que maldiz a realidade brasileira (contra bolsas, contra cotas) sem se dar conta que faz parte dela, se excluindo, como um sujeito (como uma família) à parte de todo o resto, garantindo que esse é um país ruim, que seu povo é ruim, que ele somente é quem trabalha e sofre e é digno da felicidade.

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Drummond foi um poeta de dizer muito. De acordo com a definição de Baudelaire para arte difícil, era isso mesmo que ele fazia. Exprimia as emoções da maneira mais sincera sem soar ridículo. Sabia fazer um verso simples. Fluente, atinge-nos por completo, salve qualquer um que consiga escapar dessa poesia verdadeira, de uma voz profundamente delicada – até quando no peso dos abandonos, e direta.

Também Baudelaire quem deu uma definição de Beleza, que dizia que o Belo estava dividido em duas partes, uma universal e imutável ao longo do anos, e outra que cambiava justamente conforme seu tempo, ligada diretamente aos costumes ou a moral de uma época. Drummond também sabia fazer dessa beleza e falar de sua sociedade com uma irônica criticidade.

O homem disse para o amigo:

-Breve irei a tua casa

E levarei minha mulher.

.

O amigo enfeitou a casa

E quando o homem chegou com a mulher

Soltou uma dúzia de foguetes.

.

O homem comeu e bebeu.

A mulher bebeu e cantou.

Os dois dançaram.

O amigo estava muito satisfeito.

.

Quando foi a hora de sair,

O amigo disse para o homem:

– breve irei a tua casa.

E apertou a mão dos dois.

.

No caminho o homem resmunga:

– ora essa, era o que faltava.

E a mulher ajunta: – que idiota.

.

– a casa é um ninho de pulgas.

– reparaste o bife queimado?

O piano ruim e a comida pouca.

.

E todas as quintas-feiras

Eles voltam à casa do amigo

Que ainda não pôde retribuir a visita.

.

O amigo chega, conhece a casa, é recebido com salves, se diverte, vai embora e, dissimulado, reclama de tudo que viu. Depois volta várias vezes, pois lá está garantida a sua diversão. De um modo característico, esses são alguns políticos visitando a periferia de suas cidades, abanam, sorriem, depois maldizem e voltam pra casa. Então, depois de quatro anos, retornam, pois ali está garantida a farra que fazem ao governo. Igualmente o grande carnaval, que garante a festa dos endinheirados que, depois, maldizem as pessoas que o constroem e o fazem tão vibrante.

 De um modo geral, esse é o brasileiro que maldiz a realidade brasileira (contra bolsas, contra cotas) sem se dar conta que faz parte dela, se excluindo, como um sujeito (como uma família) à parte de todo o resto, garantindo que esse é um país ruim, que seu povo é ruim, que ele somente é quem trabalha e sofre e é digno da felicidade.  Alguém que gosta de relembrar o valor dos impostos, mas também é amigo das grandes empresas que recebem exoneração fiscal; alguém que provoca o confronto entre as pessoas e não colabora em nada para a justiça, antes quer fazer jus ao seu umbigo. Aquele oprimido que repete a lógica de seu opressor. São esses que maldizem o Brasil e sempre caem nas graças de glorifica-lo como potência econômica. São os mesmos gaúchos que glorificam suas bombachas que nunca usaram depois de saírem do estado, por mera vaidade.

E seguindo, são aqueles que clamam por paz, mas financiam a guerra estabelecida com o tráfico, porque clamam por paz ao som de explosivos, e Mujica é apenas um louco. É o amigo que vem visitar, e, em verdade, não se diverte, pois é falso, então, usa tudo o que pode e enfim vai embora vestido de uma repulsa tampouco verdadeira, pois é antes um aproveitador de situações tentando tirar delas o que convém. Esse é o homem que vende as balas de borracha e gás lacrimogêneo usadas contra manifestantes. Esse é o senhor que palita os dentes sem sentir ódio do governo quando vê ataques a população revoltada.

Os custos feitos com munição não estão claros em lugar algum. No portal de transparência, somos avisados que alguns custos, como o da Polícia Federal, não são inteiramente divulgados. Também é difícil encontrar o nome das empresas que fazem sua festa bélica. Em algum lugar cita-se: gasto de R$ 8 milhões com munições; segurança teve de ser reforçada. E daí? Também diz assim: A segurança da Copa das Confederações contou com 54 mil agentes e precisou ser reforçada para fazer frente às manifestações de rua que agitam o país. Um balanço do Ministério da Justiça, que será divulgado hoje, mostra que houve aumento de até 30% no policiamento de estádios, hotéis e aeroportos. As cidades-sede da competição também receberam lotes adicionais de munições de borracha, gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral, ao custo de R$ 8 milhões além do previsto. Parabéns.

Assim se faz: segundo o balanço, o número total de manifestantes nas seis cidades-sede chegou a 864 mil, ao longo dos 16 dias do torneio. A secretaria listou os três dias que considerou mais críticos, do ponto de vista da segurança: 15 de junho, na abertura do evento, em Brasília, quando 2.500 pessoas protestaram no Estádio Nacional Mané Garrincha, onde o Brasil estreou contra o Japão; 20 de junho, no Rio (Espanha e Taiti), quando 300 mil pessoas saíram às ruas, e em Salvador (Nigéria e Uruguai), com 20 mil manifestantes nas ruas; e 22 de junho, em Belo Horizonte (Japão e México), com 60 mil pessoas nas ruas.

Os amigos continuam fazendo sua visita. Mas já se escuta falar em revolta, depois de tantos anos, talvez. É preciso deixar claro que o processo, justamente por ser processo, não para. Cabe passar de mão em mão o bilhete que guarda o recado secreto mais conhecido. Pedras no caminho, a lua e o conhaque que nos botam comovidos como o diabo, a poesia que inunda a vida inteira, Josés, fogo, fogo, fogo! Fogo com as palavras mais proibidas de todos esses rincões, derramamento de sangue poético nos rituais mais profusos de ebriedade e carinho, avante. É preciso repassar esse bilhete dobrado em quatro partes, que se desdobra em dois movimentos:

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

O VISITANTE, pelo viés de Caren Rhoden

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