TRÊS DA MADRUGADA

Três da madrugada, quase nada, a cidade abandonada e essa rua que não tem mais fim.

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Aconteceu agora, duas e pouco. Sussurros do rumo de fora, calçada. Outono, segundo dia. O frio é forasteiro em tempo de tardes quentes. A madrugada, esse animal instigante e insaciável que brota todos os dias das cinzas e engole os homens. Domingo para segunda. O rompimento dos sonhos. A metamorfose das ninfas. O breu. Quem sussurra? É ela, mulher. Bate à porta e se oferece: já estive na cadeia. Gasta um boné branco, calças. Deve perceber o frio, bêbada. Cigarro, fumaça. Da sacada, observo o ninguém. Ela me fisga, incita. De longe, intui. Quer gritar, cachimba. É ela, mulher. Assentada, ponto de ônibus. Adormecer, não. Quem sabe mais rua abandonada. Centro da cidade. O interfone toca. É ela, a madrugada.

Imagens do escuro, silêncio. Há somente a mulher, inconsolável. Quer entrar, não. Quer parar de beber, não. Quer saber onde está, não. Quer apenas despertar, sim. O sonho terrível, a mesma hora de sempre: três da madrugada.

 

 

Três da madrugada

 

Quase nada

A cidade abandonada.

E essa rua que não tem mais fim

Três da madrugada, tudo e nada, a cidade abandonada

E essa rua não tem mais nada de mim

TRÊS DA MADRUGADA, pelo viés de Bibiano Girard

Três da madrugada, de Carlos Pinto e Torquato Neto

bibianogirard@revistaovies.com

 

 

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