VILA CAATINGA

A área, considerada como ocupação irregular pela Prefeitura, abriga centenas de casinhas, em sua maioria de madeira. O esgoto passa a céu aberto pela frente das moradias e desemboca no canal. Pelo viés de Liana Coll

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 A Vila Caatinga, em Pelotas (RS), compreende cerca de cinco quadras, distribuídas de maneira irregular, como se fossem labirintos em algumas partes, e termina nas margens do canal São Gonçalo. Se procurarmos informações sobre ela, não encontraremos muita coisa nos sítios de busca. Há algumas notícias, veiculadas pelo jornal impresso de maior circulação da cidade, mas que na verdade apenas a mencionam em notas sobre prisões relacionadas ao tráfico de drogas. Sobre a situação das famílias que lá vivem, no entanto, não há nada.

A área, considerada uma ocupação irregular pela Prefeitura, abriga centenas de casinhas, em sua maioria de madeira. O esgoto passa a céu aberto pela frente das moradias e desemboca no São Gonçalo. A eletricidade, em muitos pontos, é obtida pelos “gatos”, em uma situação parecida com a Ocupação da Gare e a Vila Brenner, em Santa Maria (RS). As crianças andam de pés descalços e entre uma brincadeira e outra denunciam no olhar a situação precária que enfrentam todos os dias. No verão, os moradores relatam não dormirem até certa altura da madrugada, ou da manhã, quando fecham suas portas e, enfim, entram no sono pesado. Isso porque os mosquitos, atraídos pela zona de alta umidade, incomodam o descanso.

Há dois anos e meio a ONG SOS Animais realiza um trabalho de controle de doenças e de população de animais, por meio de castrações, na Vila Caatinga. Em outra situações, acompanhei o trabalho dos voluntários e tracei um perfil de uma das famílias residentes na área. No dia 17 de dezembro de 2011, passados quase dois anos dessa outra oportunidade, constatamos grande mudanças a respeito do trato com os animais e da receptividade dos moradores para com o grupo, que de dois em dois sábados percorre a vila aplicando medicamentos, agendando castrações sem custos e conversando com os moradores sobre os cuidados que são possíveis de se ter com os bichos.

No início, cerca de 80 injeções de sarna eram aplicadas a cada sábado. Nesse último dia, apenas seis, devido a quase inexistência da doença atualmente. Antes, quase todos se recusavam a castrar os animais, julgando ser uma agressão essa medida para controle da população canina e felina. No último sábado, os moradores que ainda não haviam agendado as castrações saíram às portas para colocar seus nomes na lista daqueles que queriam aproveitar a última oportunidade. Última porque em janeiro, o grupo da SOS parte para o mesmo trabalho nas Doquinhas, outra vila perto da Caatinga.

Todas as quartas-feiras, quatro profissionais veterinários castram animais em situação de necessidade, e cujos donos não têm condições de pagar pela cirurgia, incluindo os da Vila Caatinga. É uma forma de controlar a população de animais da cidade e diminuir também os maus-tratos, já que muitas ninhadas são jogadas fora e, indesejadas, também acabam alvo de violência nas ruas. Até a última quarta-feira, cerca de 350 animais já haviam sido castrados e outros 15 haviam sido operados para retirada de tumores. Na Vila, no último sábado de trabalho, apenas duas ninhadas novas foram identificadas, o que é muito pouco se comparado aos primeiros sábados de mutirões, quando se notava muitos filhotes novos.

Mas se a população da Caatinga hoje já sabe, em sua maioria, como cuidar dos animais, na vida delas pouca coisa muda com o passar dos anos. O poder público já ameaçou, em diferentes épocas, desapropriar os moradores e colocá-los em outra área. No entanto, não ocorreu a desapropriação. E muito menos houve esforço para melhorar a estrutura da comunidade, a qual já está na área há pelo menos quatro décadas, segundo a moradora Nara. Entra administração e sai administração, a Vila Caatinga continua a ser vista como um problema sem solução, e não como uma área onde indivíduos têm seus direitos de vida digna negados.

Abaixo, fotografias realizadas em 17 de dezembro de 2011, durante um mutirão da SOS Animais. Nesse sábado, além do atendimento aos cães e gatos, o grupo entregou lápis e giz de colorir para as crianças, arrecadados em campanha, e um folheto “de colorir”, o qual por meio de uma linguagem didática e clara, também ensina as crianças os cuidados com os amigos de estimação.

Para ver as fotos, aguarde a página carregar completamente e clique nos ícones (caso não consiga visualizar as imagens, entre em contato conosco).

VILA CAATINGA, pelo viés de Liana Coll
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  • Zé Souza.

    No sul: por que Vila Caatinga? Isto na sexta economia do planeta e governada pelos contrutores da CIDADANIA dê maneira POPULAR, DEMOCRATICA E TRANSPARÊÊÊÊÊÊÊNTE.