ONDE VOCÊ GUARDA SUA LOUCURA?

Fotos da 1ª Marcha do Orgulho Louco de Santa Maria, realizada em referência ao Dia Nacional de Luta Antimanicomial

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Na tarde do dia 18 de maio, último sábado, ocorreu a 1ª Marcha do Orgulho Louco de Santa Maria. A atividade, alusiva ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial, teve início com uma concentração na praça Saldanha Marinho, onde ocorria a confecção de cartazes. Um deles, afixado na parede, indicava uma tenda das drogas: abaixo dele, nada que provocasse a atenção da polícia – lá estavam apenas refrigerantes, remédios, chás, café e outros produtos legais.

Com distribuição de material informativo, cartazes, cores e cantorias, a marcha organizada por estudantes, profissionais, familiares e usuários do serviço de atenção psicossocial da cidade e da região ocupou o calçadão e algumas das mais centrais ruas da cidade. Segundo Thiago Alves, residente do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e um dos organizadores da atividade, a ideia é unir forças por uma luta que não é só dos usuários dos serviços e trabalhadores em saúde mental: “Precisamos nos olhar para além dos serviços, todo dia é dia de luta, de pensar em saúde mental. Para cuidar do outro é necessário cuidar de si, pensar o respeito, a diferença, a loucura como algo humano”.

O Dia da Luta Antimanicomial alude aos princípios de um movimento internacional que ressignifica o próprio conceito de loucura e de normalidade, apontando os manicômios como espaços sobretudo de violência e de exclusão social das pessoas supostamente inaptas à convivência em sociedade. A concepção da pessoa em sofrimento psíquico como alguém dotado de subjetividade e individualidade, sujeito de direitos como qualquer outro cidadão orientou, em 2001, a aprovação no Brasil da Lei 10216, que instituiu a Reforma Psiquiátrica e buscou reorganizar as diretrizes da atenção à saúde mental no país, com o objetivo de substituir o arcaico aparato focado na internação em instituições hospitalares por uma Rede de Atenção Psicossocial, estruturada em unidades de serviços comunitários e abertos – exemplo da qual são, hoje, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Embora remeta às vitórias conquistadas legalmente pela aprovação da Reforma, a manifestação do Dia da Luta Antimanicomial não deixou de alertar, em cartazes e nos materiais distribuídos, sobre os retrocessos que o país vem vivendo, com a criminalização dos usuários de crack, alvos de políticas de higienização social por meio das ações de internação compulsória em massa, e com o projeto de uma nova Lei Antidrogas (PL 7663/2010), do deputado federal Osmar Terra (PMDB-RS), que propõe a intensificação da criminalização e da repressão às condutas relacionadas ao consumo de substâncias consideradas ilicíticas e o emprego de dinheiro público em instituições particulares para tratamento de usuários dependentes de drogas – as chamadas comunidades terapêuticas, que atuam com base no já superado método de isolamento e abstenção.

“Prender não é tratar”, “o carinho é o melhor remédio” eram algumas das palavras de ordem escritas nos cartazes que, ao som de músicas como “Maluco Beleza” e “Balada do Louco”, sintetizavam os princípios de uma proposta de reflexão mais humana sobre sanidade, loucura, diversidade e dignidade.

  

  

  

  

  

 

 ONDE VOCÊ GUARDA SUA LOUCURA?, pelo viés de Tiago Miotto.

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