LATINOS: O AMAUTA REVOLUCIONÁRIO

As duas vidas de Mariátegui, o homem que sabia de si e do mundo. Pelo viés de Nathália Costa

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A primeira vida

A todos cabe uma vida só. Ao menos, retirando as crenças extracorpóreas, ao tempo em que pisamos na terra, de uma vida só desfrutamos. Mesmo que essa mesma vida, formada pela sua especificidade de anos e de trajetos, possa dar infinitas voltas ou abarcar as mais diversas fases.

Um homem que tenha vivido duas vidas é um homem que pôde olhar para fora e decidir modificar o seu curso. Para um homem pobre, sem estudo superior, mas com imensa capacidade autodidata de se formar e de reformar a realidade, duas vidas significam dois caminhos escolhidos para traçar. Peruano, latinoamericano, marxista, comunista, amauta revolucionário: José Carlos Mariátegui é conhecido entre os estudiosos da realidade latina como um dos primeiros intelectuais marxistas do nosso continente. Nascido em 14 de junho de 1984, em Moquega,  Mariátegui pouco estudou, porém ingressou nas redações dos jornais muito cedo.  Nas palavras de Florestan Fernandes, era artífice de sua própria grandeza.

Em 1909 trabalhava no jornal La Prensa, de cunho bastante direitista. É apreciador das artes e aos poucos começa a caminhar para perto da intelectualidade limenha. Sua família se muda nesse ano para a capital do Peru, Lima, onde Mariátegui entra em contato não só com as possibilidades jornalísticas de La Prensa, como também com as efervescências culturais da cidade.

Começa no ano de 1909, em Lima, a primeira vida de Mariátegui – chamada ironicamente pelo próprio como a idade da pedra. Sonhador, utópico, vanguardista e artista, o intelectual peruano mistura-se com outros artistas e personalidades da época, consolidando uma fase de boêmia e até mesmo de anarquia intelectual. É da primeira fase que surge a famosa revista Colónida, de vida bastante curta, mas de produção cultural intensa (1916).

José Carlos Mariátegui.

Na época Mariátegui escrevia com o pseudônimo de Juan Croniquer, um arauto do romantismo europeu transpassado na América Latina. Como dito no livro de Leila Escorsim (Mariátegui – Vida e Obra, Editora Expressão Popular), “Colónida era a expressão da idade da pedra: a recusa das instituições vigentes no Peru (a nauseante oligarquia criolla de que falava); uma forma de anticapitalismo romântico, combinando traços de misticismo e de boêmia”. No mesmo período, um incidente causado por Mariátegui e amigos que partilhavam das mesmas crenças culturais, parou Lima: acompanhados em um cortejo, ao som de Marcha Fúnebre de Chopin, os amigos e Mariátegui dirigiram-se ao cemitério da cidade com um violinista e uma bailarina russa interpretando a canção, aos olhos de todo o conservadorismo da capital. Eram freqüentes essas intervenções na turma de Mariátegui.

Porém, os tempos logo mudaram. Mariátegui começa a trabalhar em El Tiempo, um jornal um pouco mais progressista para a época, diferente em atuação do La Prensa. Aos poucos, sua vontade intelectual começa a ser direcionada aos trabalhadores e operários de seu país, visto que as próprias insurreições proletárias e estudantis começam a dar as caras nessa época no Peru. Com a co-criação de Nuestra Época, Mariátegui – juntamente com César Falcón e Félix Del Valle – começam a escrever para esse povo limenho da classe trabalhadora. Ainda não marxista, nem comunista, porém voltado aos interesses do povo. Mariátegui rompe de vez com a fase da pedra quando sai de El Tiempo e começa a escrever em La Razón. No período de governo de Augusto Léguia (conhecido por ter tido dois mandatos no país, um de 1908 a 1912, e outro de 1919 a 1930, sendo o segundo o famoso oncenio da história peruana), a política norteamericana entrou com todas as forças no país de Mariátegui, enquanto o mesmo fazia oposição ferrenha. Léguia inventou uma forma de se livrar de Mariátegui enviando-o à Europa, com uma bolsa de estudos e qualquer desculpa para não deixá-lo mais circular livremente no Peru.

Mariátegui e a esposa Ana Chiappa.

Seria justamente essa mudança para a Europa que abriria as portas para a nova fase de Mariátagui: a idade da Revolução. O jovem peruano conhece a Itália, fazendo de lá o seu espaço para os estudos marxistas e para a entrada de seu mundo de vez no comunismo. Lá, não estuda formalmente em nenhuma universidade, e é justamente por esse fator que muitos de seus biógrafos o reconhecem como um verdadeiro autodidata. Observa a formação do Partido Comunista na Itália e vê o avanço do fascismo no país. Começa a agregar o materialismo histórico como forma de ver e observar a realidade. Leu muito o pensamento de Antonio Gramsci, Marx e Engels, os escritos de Lenin e dos bolcheviques da Revolução Russa, o sindicalismo de Sorel e muito dos ativistas italianos da época. Porém, como o mesmo fala, foi na Europa que se tornou latinoamericano,

Só me senti americano na Europa. Pelos caminhos da Europa, encontrei o país da América que deixara e no qual vivera quase como um estranho e ausente. A Europa me revelou até que ponto eu pertencia a um mundo primitivo e caótico; e, ao mesmo tempo, me impôs, me esclareceu o dever de uma tarefa americana.

A segunda vida

Mariátegui retorna comunista e marxista. Novamente em Lima, envolve-se com Haya de La Torre, outro intelectual de esquerda no país, que o convida a palestrar na Universidade Popular Gonzáles Prada sobre a crise mundial. Tornam-se amigos, escrevendo e vivenciando juntos uma experiência de esquerda no Peru. Porém, La Torre é preso. Mariátegui passa a editar a revista Claridad, mas não escapa da prisão. Teve seus dias de cárcere em 1924, após revoltas operárias e estudantis das quais participou.

Na Europa, Mariátegui casou-se com Ana Chiappe, com a qual teve dois filhos. No mesmo ano de 1924, Mariátegui vê as consequências de uma doença que teve no joelho  ainda jovem: precisa ter que amputar uma perna. Mesmo circulando em uma cadeira de rodas, em nada muda sua produção. Mariátegui, juntamente com seu irmão Julio César, funda a editora Minerva. É nessa editora que publica o primeiro dos seus livros mais conhecidos: La escena contemporânea.

primeira edição da revista Amauta, 1926.

No ano seguinte, precisamente em 1926, que surge a revista mais famosa e mais importante na obra de Mariátegui: Amauta, que para a cultura incaica significa o homem sábio de si e do mundo. A revista fica então reconhecida internacionalmente, expoente da intelectualidade de esquerda e da vanguarda do pensamento latino. Mariátegui produz muito na mesma época, e passa a encarar a importância do indígena – semelhante a figura do operário italiano – na construção da luta de classes e no estudo marxista da realidade peruana. Porém, Leguía, ainda firme e forte no poder, acusa Mariátegui de formar um complô comunista no país. Assim, inicia a perseguição ao jornalista e o mesmo é preso novamente em 1927. Pressões e forças populares permitem a saída de Mariátegui da prisão, porém a celebre Amauta é fechada pelo governo e a residência do jornalista sitiada até sua morte. Mas Mariátegui consegue burlar a repressão, e permanece editando Amauta, só que dessa vez com o projeto de uma Editora Sociedad Amauta.

As divergências com o amigo Haya de La Torre começam a ficar mais acirradas, e é nesse crucial momento que Mariátegui decide fundar, em 1928, através de uma reunião secreta na praia de La Herradura, o Partido Socialista do Peru. Torna-se membro da Secretaria Geral do Partido. Ainda em 1928 Mariátegui publica uma de suas obras mais conhecidas, sintetizada em todo o seu pensamento marxista para a América Latina e principalmente para o Peru: Sete Ensaios de interpretação da realidade peruana.

Um ano depois, Mariátegui funda a Confederação Geral dos Trabalhadores do Peru (CGTP), e muda-se com a família para Buenos Aires, Argentina, a fim de continuar com a edição de Amauta e permanecer acompanhando o movimento revolucionário peruano, sem as cancelas do governo de Leguía.

Porém, seu estado de saúde começa a agravar-se ainda mais, e já em 1930 é hospitalizado, tendo que renunciar ao seu cargo na Secretaria Geral do Partido Socialista. A segunda vida, chamada por todos os seus conhecidos de idade revolucionária, tem seu fim em 16 de abril do mesmo ano. Seu corpo é transportado até sua antiga casa, conhecido reduto da esquerda do país, em Lima, onde é velado e saudado por operários, intelectuais, amigos e todos os admiradoress de seu projeto socialista no Peru.

Leila Escorsim comenta sobre a presença de Mariátegui na intelectualidade de esquerda na América Latina:  O intelectual pobre, que foi enterrado por trabalhadores no cemitério limenho onde se oferece o sepulcro à população mais humilde seria reconhecido, décadas depois de sua morte, como a maior expressão da inteligência peruana e um dos mais notáveis pensadores latino-americanos – no âmbito do pensamento marxista, seu posto de primeiro grande marxista da América Latina parece inconteste.

Talvez este que tenha sido o maior pensador marxista da América Latina, tenha vivido suas duas rápidas vidas, dispersas porém ainda coesas e interligadas, cumprindo com aquilo que realmente parecia ser seu verdadeiro objetivo em vida: nas suas próprias palavras, Sou uma flecha que não pode morrer antes de chegar ao alvo.

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O AMAUTA REVOLUCIONÁRIO, pelo viés de Nathália Costa.

nathaliacosta@revistaovies.com

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