LATINOS: DA ILHA DE ITAMARACÁ

LATINOS: Óia, eu só sei que Lia é linda, só Lia é quem sabe amar. Pelo viés de Bibiano Girard.

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Lia, ô Lia
Vem pra ciranda dançar
Óia, eu só sei que Lia é linda
Só Lia é quem sabe amar

Chamam-na de “a diva da música negra” lá pelos lados do Nordeste brasileiro e também na ilha de Manhattan. A cantadora de ciranda que rabalhou como merendeira em uma escola pública vive do salário mínimo que ganha e, agora, de algumas comissões que vem arrecadando ao abrir o vozeirão encarnado, duro, pesado, de uma mulher com quase dois metros de altura. Dizem, também, que seu sorriso é economizado. Nasceu Maria Madalena Correia do Nascimento na cidade de Itamaracá, uma ilha próxima ao litoral pernambucano, na quarta década do século passado. E pela ilha de Itamaracá, Maria Madalena caminhou durante toda a sua vida. Ainda vive lá, dizem. Há outros que afirmam: “Lia é uma lenda, essa mulher não existe”. Mas a voz de Lia é tão viva ao ponto que lenda nenhuma conseguiria arcar com tamanha força encorpada. Sua voz grave e suas cantigas nos içam para as imagens da ciranda, ao ritmo lento da música cantada por várias vozes ao final da tarde na melancolia da espera do marido que foi pro mar. Inicialmente, Çarand, dos árabes. Um instrumento de peneirar farinha. Os espanhóis transformaram em Zarand. No Brasil pernambucano, ciranda. A areia da praia como chão de esperança, a cantoria em grupo como desenho de alento, as mulheres cantantes na beleza da candura majestosa dos costumes populares brasileiros. A batida da cadência caracterizada pelo toque intenso do zabumba. Tem que pisar forte com o pé esquerdo à frente, dançar para a direita, dando dois passos para trás e o mesmo para frente. As letras entoadas pelo coro às vezes surgem com o cálice do andamento, noutras, são cantigas que assim como o brasileiro, surgiram de uma mistura e autor não se sabe quem é. Assim como o povo simples que compõe as danças populares pelos quatro cantos do país, a roda de ciranda é uma massa socializada: não há preconceito quanto ao sexo do participante, muito menos sua cor, idade, condição social ou econômica. E uma dessas cirandeiras, talvez a mais importante, seja a mulher que em 1960 tornou-se tema de uma canção de Mestre Baracho. A mesma canção ganhou força quando Teca Calazans, atualmente residindo na França, cantou na mesma década a célebre letra “Esta ciranda quem me deu foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá”. E assim surge Lia. Lia de Itamaracá. “A rainha da ciranda”, como foi intitulado seu primeiro disco, gravado em 1977, pelo qual a cirandeira não recebeu sequer remuneração. “Nem vi a cor do dinheiro”, como conta aos visitantes das praias da ilha.

Lia tem os trejeitos serenos e segura o microfone sem apertá-lo mostrando as grandes unhas pintadas. Os dentes com minúsculas falhas entre um e outro fazem do sorriso contido uma declaração de exultação pela música que aprendeu a cantar e compor com doze anos de idade, sabendo, a grande Lia, que cada música cantada é uma parte do folclore de Pernambuco, e que cada música acode deferência.

Como é bonito ver o verde do mar
Aonde vivem as sereias

Vamos minha gente
Vamos lá pra beira mar
Ouvir o cantar da sereia

Mesmo considerada a maior cantora de roda do Brasil, Lia sumiria nos anos seguintes após gravar seu primeiro disco. Por 20 anos, as apresentações da cirandeira ficaram limitadas aos moradores e turistas da Ilha, onde vive e trabalha até hoje. Seguiu seu trabalho de merendeira escolar até ser “redescoberta”, em 1998, quando foi convidada pelo produtor Beto Hees a se apresentar no festival Abril pro Rock, o qual acontece anualmente desde 1993 em Recife. O Abril pro Rock trazia à cena musical brasileira um dos principais movimentos culturais que o Brasil já teve: o Movimento Manguebit, quando foram reveladas bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. O Brasil ainda conheceria a voz da ilha, propagando nacionalmente além da ciranda, o repertório de coco de raiz e as loas de maracatu. Somente no ano de 2000 é que Lia seria convidada a gravar mais um disco, “Eu sou Lia”, com texto de apresentação de Hermínio Bello de Carvalho, o qual escreveu:

“’Lia já vem’. Teca Calazans costumava passar uns tempos na Ilha e ia às cirandas de Dona Duda, no Janga — subúrbio de Olinda. E me parece que foi por lá que conheceu a Lia. Ouviu-lhe as cirandas, anotou algumas, e ainda compôs outra que ficou famosa em todo o Brasil, cantada pelo Quinteto Violado: ‘Essa ciranda quem me deu foi Lia/ Que mora na Ilha de Itamaracá’. E ai a cirandeira virou símbolo da ilha, parte integrante de seu folclore. E vem ela chegando.

Bonita essa Lia! Enorme mulher de metro e oitenta. Os cabelos desarrumados, blusa florida e calça jeans, pés gigantescos em sandália de couro cru.

As cirandas pernambucanas de Lia estão na boca de toda a gente, na alegria das pessoas se dando as mãos cirandando em volta dela.

Deixo Lia à porta do estúdio. Parece até que está feliz. Por pouquinho deixa de cruzar com Mestre Capiba, que vem cheio de guizos no rosto, a felicidade lhe tomando a alma. Vai com Deus, Lia! toma conta dele direitinho”.

O sucesso do segundo disco foi tamanho que acabou recebendo o selo de world music. Assim, a voz de Lia chegou a países como França, onde o jornal Le Parisien comparou sua voz à Cesária Évora, a cabo-verdiana ilustre da música mundial, e Estados Unidos, onde o The New York Times a designou como “Diva da música negra”. Gravaria também para o disco afamado do grupo Nação Zumbi, Rádio Samba.

Hoje Dona Maria Madalena Correia do Nascimento, ou a popularmente conhecida Lia de Itamaracá, é dona da medalha de Mérito Cultural, entregue pelo ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, e, desde 2005, o Estado de Pernambuco têm em seu inventário como Patrimônio Vivo da cultura pernambucana a merendeira que mostrou ao mundo como se dança a ciranda.

Olha, eu vi uma preta cirandeira
Brincando com um ganzá na mão
Brincando ciranda animada
No meio de uma multidão

Menina eu parei fiquei olhando
A preta pegou a improvisar
Eu perguntei: “quem é essa negra?”
Sou Lia de Itamaracá

 LATINOS: DA ILHA DE ITAMARACÁ, pelo viés de Bibiano Girard

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