LATINOS: OSVALDO ARANHA NÃO É SÓ UM NOME

Um nome é uma etiqueta, uma ideologia, que estampa muito do que não é dito às claras sobre quem o prega. Pelo viés de Gianlluca Simi

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Foto de Osvaldo Aranha

No Alegrete de 1894, nasceu Osvaldo. De mãe Luísa e pai Euclides, foi o filho nomeado Osvaldo Euclides de Sousa Aranha, pois Osvaldo Aranha. O pai era coronel da Guarda Nacional e grande latifundiário da cidade de Itaqui, na fronteira com a Argentina. Osvaldo Aranha cresceu entre Itaqui e o Alegrete, cidade que seu avô teria fundado. Em 1916, formou-se em Direito e Ciências Sociais pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, hoje parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois de formado, foi estudar em Paris, donde voltou para se estabelecer novamente no Rio Grande do Sul.

De volta à casa, em 1923, lutou pelos chimangos, que defendiam a quinta reeleição de Borges de Medeiros. Dois anos depois, Aranha se tornou o intendente (prefeito) de sua cidade natal. Em 1927, tornou-se deputado federal. Aranha era amigo de Getúlio Vargas e, em 1930, mostrou sua inclinação à diplomacia literal ao negociar com os militares a entrega do governo a Vargas. O episódio lhe rendeu os ministérios da Justiça e da Fazenda.

Em 1934, Aranha não pestanejou ao ser convidado para ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Mudou-se para Washington e por lá quedou-se pelos próximos três anos. Deslumbrou-se com a ilusão de democracia pregada pelos Estados Unidos. Ele e o então presidente estadunidense Franklin Roosevelt tornaram-se amigos e este-cá convidou aquele para viajar por todos os Estados Unidos a palestrar sobre as relações entre aquele país e o Brasil. Aqui, defendia a aproximação cerrada entre os dois países.

Vargas declarou o Estado Novo em 1937 com a chamada ‘polaca’, a nova constituição brasileira, muito semelhante em teor com a constituição da Polônia, que apresentava – tanto lá como cá -, tendências fascistas. Aranha, ao sabê-lo, pede demissão do cargo de embaixador, mas sucumbe ao pedido do amigo Vargas, em 1938, para se tornar ministro das Relações Exteriores. Como tal, em 1942, lidera a Conferência do Rio, na qual todos os países da América, com exceção da Argentina e do Chile, rompem relações com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).

Em 1944, o governo fecha a Sociedade dos Amigos da América, que Aranha tinha fundado, e ele, então, demite-se do seu cargo de chanceler. Por pequenos desentendimentos com Vargas, participa da criação da União Democrática Nacional, a UDN, em 1945 – talvez o partido que tenha dado início à ambiguidade política no Brasil. O lema da UDN era “o preço da liberdade é a eterna vigilância”; ao mesmo tempo em que se opunha à cassação de parlamentares comunistas, defendia a ideia da ‘infiltração comunista’ no país. A UDN acabou aliando-se aos militares em 1964, nada de ambíguo nisso.

Em 1947, foi o representante do Brasil na recém criada Organização das Nações Unidas (ONU). No mesmo ano, presidiu a II Assembleia Geral da ONU, que votou pela partição da Palestina em prol da criação do Estado de Israel.

Evolução da invasão de Israel sobre os Territórios Palestinos

Em resumo, este era Osavldo Aranha – político e diplomata brasileiro. No entanto, não foi pensando em sumarizar sua vida que sobre ele quis pesquisar e, agora, escrever. Sempre liguei o nome de Aranha à presidência da assembleia que votou pela criação de Israel. Dados os desenvolvimentos da questão, de quem olha de hoje para trás, sempre tive isso como uma vergonha para o Brasil. O Estado de Israel mata civis palestinos todos os dias, cria muros físicos para separarem-se dos árabes, bloqueiam navios com ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, interceptam qualquer tipo de sinal de internet, televisão e rádio para evitarem ‘atividades subversivas’. Tudo isso, com uma ajuda financeira dos Estados Unidos que já chega a US$ 124 bilhões (R$ 200 bilhões). Isto é, dos mesmos Estados Unidos cujos discursos sobre democracia inspiraram Aranha. Antes de ser embaixador em Washington, ele nunca havia advogado pela causa sionista – hoje é nome de rua em Tel Aviv. Só sendo muito ignorante – no sentido de ignorar voluntariamente – para negar as íntimas relações entre os Estados Unidos e Israel.

Foto de uma placa na Rua Oswaldo Aranha, em Tel Aviv

Vejamos, eu não sou antissemita, tenho inclinações antissionistas. Há uma grande diferença! Hitler era antissemita, pois odiava os judeus como pessoas, como indivíduos. Eu me inclino a ser antissionista, pois não me oponho ao Estado de Israel já que concordo que todos os povos têm direito a seus Estados, e o de Israel está aí. No entanto, é esse ‘estar aí’ que me incomoda – a mim e a tanta gente -: a política de Israel com relação à Palestina; e isso nada tem a ver com as pessoas individualmente, pois, mesmo dentro de Israel, há judeus que são contra a política de seu país (logo, antissionistas).

Era de praxe e, às vezes, ainda o é os brasileiros saírem do Brasil e se deslumbrarem, se iludirem com o que aparenta ser o lá fora. A princípio, imagino isso de Osvaldo Aranha: alguém que foi moldado pela ideologia dominante nos Estados Unidos. Mas peno a continuar acreditando na total passividade de alguém que frequentou a universidade, estudou em Paris, foi prefeito, deputado, ministro, embaixador.

O fato é que, iludido ou convencido de algo, Osvaldo Aranha não é só o nome de uma pessoa há muito morta. Ele representa toda uma concepção de relações e de política. Pregar em nome de Osvaldo Aranha é como pregar em nome de Marx – não falamos das pessoas em si, mas daquilo que eleas representam, das ideias a que se foi dado início através daquela pessoa; são os ‘-ismos’. E, assim, por exemplo, o marxismo de que se fale hoje não seja o marxismo pensado por Marx – felizmente ou infelizmente. Logo, Osvaldo Aranha não é meramente o nome de um corpo, mas a etiqueta de uma ideologia, explicitada por suas ações. Osvaldo Aranha, filho de um coronel e latinfundiário, estudou no Rio de Janeiro e em Paris em épocas em que ir a Porto Alegre já era uma diáspora, foi prefeito e deputado logo cedo, amigo de e fiel ao ditador Vargas, chimango, criador da UDN etc. Tudo o que ele foi e fez determina o peso de seu nome. Por isso resolvi escrever sobre Aranha e, a partir dele, ver que não só dos corpos que o carregam vivem os nomes.

Sempre tive uma queda platônica pelas Relações Internacionais. Costumava acreditar que fosse uma área que se preocupava com as pessoas, com as diferenças, com um mundo em que mais gente se entendesse. Vários episódios me mostraram o contrário, que é uma área que, a cada dia, torna-se um tanto mais obsoleta: preocupa-se mais com transações comerciais, acordos militares e manutenção das fronteiras do que com o que se faz com o dinheiro, contra quem se atiram as bombas ou com o porquê de haver tais cisões político-territoriais.

Um desses episódios foi encontrar o blogue do diretório acadêmico do novíssimo curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria. É costume que cada DA (diretório acadêmico) homenageie alguém importante na área e que represente algo do próprio curso. O DA das Relações Internacionais da UFSM se chama ‘Osvaldo Aranha’. Causou-me um asco logo quando disso soube. Dá-lhe, não pode ter sido só o fato à la zerohora de ele ter sido gaúcho nem a rasa constatação meritocrática de que ele foi alguém conhecido na área. Oras, quem foi Osvaldo Aranha? O que ele fez? No blogue do diretório há um texto sobre as contribuições de Aranha às relações internacionais, com ênfase na criação de Israel. Não podemos ser cegos e admitir isso, hoje, como uma vitória incontestável. Que tipo de relações internacionais são essas que eles pregam com o nome Osvaldo Aranha? No fim do texto, aliás, citam a fonte de toda aquela apresentação: Confederação Israelita do Brasil!

Osvaldo Aranha foi, sim, um grande diplomata, pois esteve envolvido em grandes questões. A meu ver, não foi um bom diplomata, não foi um bom político, pelo menos em nível internacional. Suas intenções podem ter sido as melhores, mas os resultados da causa pela qual ele tanto advocou deixam à mercê quatro milhões de palestinos que sofrem com a política autoritária de Israel e tantos milhões de outros que, como os judeus, ainda não têm terra – os nagas, os ciganos, os curdos etc.

Assim repito, um nome não é só um nome nem só aquilo que sobre ele se preza no estado corrente das coisas. Um nome é uma etiqueta, que traz consigo uma ideologia, que estampa consigo muito do que não é dito às claras sobre quem o prega. E, para findar, clamo eu: Osvaldo Aranha, uma das vergonhas da América Latina.

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OSVALDO ARANHA NÃO É SÓ UM NOME, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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