ZAPATA: UMA VIDA DE REVOLUÇÕES

“Sí, sí, por lastimado e jodido que uno esté, siempre puede uno encontrar contemporáneos en cualquier lugar del tiempo y compratriotas en cualquier lugar del mundo. Y cada vez que eso ocurre, y mientras eso dura, uno tiene suerte se sentir que es algo en la infinita soledad del universo: algo más que una ridícula mota del polvo, algo más que un fugaz momentito.” (Eduardo Galeano, em “El Libro de los Abrazos”)

Poucos nomes marcam tanto um povo e permanecem no imaginário ou nas ações de uma população. Revolucionários, grandes pensadores, pessoas de vanguarda ou tiranos retrógrados. Para os mexicanos, Emiliano Zapata soa um nome carregado de significações e é levado como bandeira por populares e pelos militantes do Movimento Zapatista, que, quase um século depois da morte de Zapata, ainda carrega os valores do caudilho do sul, como era conhecido.

Emiliano Zapata Salazar nasceu de pais mestiços, num cenário rural e num contexto de ditadura cunhado por Porfírio Diaz e capitalistas apoiadores. Cresceu vestido de boas roupas e sendo confundido com os grandes fazendeiros, mas, desde cedo, via-se preocupado com as questões de terra dos camponeses. Desviava-se dos olhares de Porfírio por sua família ter apoiado o ditador em gerações anteriores, mas logo despertou atenção por quebrar essa tradição e chegou a ser preso por pouco tempo.

Zapata conhecia muito bem seu pueblo, no vilarejo de San Miguel Anenecuilco, no estado de Morelos. Por isso, com 30 anos, foi dada a ele a chefia do local. Tornou-se líder e porta-voz dos indígenas e dos mestiços, aos quais não restava muito além de servir braçalmente, como nos tempos feudais, aos grandes fazendeiros. Estes, protegidos e mais fortes e seguros pelo poder que Diaz os relegava, eram cerca de 900 e detinham cerca de 2/3 das terras do México. Assim, eram mandatários em vários campos – econômico e polítco principalmente – e tornavam escravos o povo daquela terra “sem terras”.

 Zapata tentava realizar redistribuição de terras de algumas grandes fazendas, mas, em meio a um contexto favorável aos latifundiários, via-se em dificuldades. Observou lutas e conflitos entre os haciendados (os que não tinham terras e trabalhavam em cultivos dos grandes), presenciou roubos de terras e ateios de fogo como protesto. Suas ideias não agradavam, claro, ao governo de Morelos e menos ainda ao governo do país, apoiado pelo capital estrangeiro e calcado na exclusão dos populares. Por isso que, sem muitos resultados a apoios importantes, começa a organizar luta armada para ocupações de propriedades.

O próximo passo de Zapata, para levar a luta dos camponeses adiante, foi aliar-se ao capitalista Francisco Madero. Madero era um forte concorrente de Porfírio Diaz e Zapata sabia que, para tirar Porfírio do poder, seria preciso aliar-se ao outro lado da força, mesmo que o outro lado, nesse caso, não mudasse tanto assim – ou quase nada. Em 1911, Madero tira Diaz do poder com apoio dos peões rebelados e dos guerrilheiros do Ejército Libertador del Sur, organizado por Emiliano. Madero, preocupado com futuras turbulências, se reune com Zapata para pedir a desativação do Exército, pedido que o líder nega por receber um “não” à questão da redistribuição de terras em partes justas. Os zapatistas lutavam por Reforma, Liberdade, Justiça e Lei e foi por isso que, quando Madero assumiu o poder e deixou no papel os planos de reforma agrária, o Exército Libertador mobilizou-se novamente.

O próximo “mais do mesmo” a assumir o poder, beneficiado pela turbulência no governo de Madero causada pelas lutas do exército, seria um antigo porfirista, Victoriano Huerta. A essa altura, em outro canto do México, ao norte, mais um exército se formava, comandado por Pancho Villa, outro grande nome das revoluções do início do século XX no México. Zapata e Villa ainda nao se conheciam e o primeiro receava unir-se aos villistas (apoiadores de Pancho e membros do exército) devido ao apoio que estes davam a Madero. Mas ambos faziam oposição a Huerta e foram apoiados e incentivados por Venustiano Carranza, oposicionista que também liderava um exército, o Exército Constitucionalista.

Em 1914, as forças formadas pelos três exércitos conseguem derrubar Huerta. Em seguida solicitam uma convocação para pensar no nome a assumir o governo. Emiliano Zapata não comparece, alegando que nenhum dos presentes havia sido sugerido pelo povo. Representantes de Morelos – o estado de Zapata -, porém, vão até a convenção para apresentar o Plano de Ayala (conjunto de princípios e metas zapatistas) e acompanhar os rumos da revolução.

A seguir, acontece novamente outra traição. No poder, Carranza volta-se contra os zapatistas e villistas e passa a divulgar a entrega de um prêmio para quem levasse a cabeça de Zapata a ele. Se o Exército não o traiu, como Carranza pensava que iria, o plano de homicídio do líder foi levado para frente pelo coronel Jesus Guajardo. Em 1919, Guarjardo chama Emiliano para uma conversa, fingindo simpatizar com as causas zapatistas. Quando se encontram, o coronel dispara várias vezes sobre Zapata e leva o corpo para o governo em troca da recompensa.

Com 40 anos de lutas, o pensamento do revolucionário, que permanece, é que a ação faz o caráter. Zapata não viveu para ver, em 1934, a reforma agrária realizada por Cárdenas, presidente na época. Mas a efetivação da redistribuição de terras, baseada em cooperativas,  e a nacionalização de alguns recursos mexicanos é, sem dúvida, um legado de Emiliano Zapata Salazar. E, se hoje, o Movimento Zapatista, formado principalmente por indígenas, luta por autonomia, defende os direitos coletivos e um novo modelo de política que faça resistência ao neoliberalismo e, ainda, defende uma partilha de terras democrática é também porque se inspiram em Zapata, que um século atrás também lutou contras as formas de exploração e opressão do povo mexicano.

ZAPATA, UMA VIDA DE REVOLUÇÕES, pelo viés de Liana Coll.

lianacoll@revistaovies.com