Abdias Nascimento e a consciência negra do teatro à política

“O que o Brasil rejeita não é tanto a cor da pele, mas sim a África. O Brasil não quer ser africano”

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Voltava da escola, ainda em Franca, São Paulo, quando acompanhado de sua mãe, uma doceira, viu um menino negro órfão ser espancado por uma mulher branca no meio da rua. No mesmo instante, sua mãe, a cozinheira calma a qual até aquele exato momento conhecia, não suportou ver a cena desumana e correu logo para defender o guri das mãos da senhora que, julgando-se no direito, batia sem dó.

Atrás da barra da saia da mãe, o pequeno Abdias, nascido em 1914 – época próxima ao ano de 1888 – e com marcas protuberantes de racismo consentido pela sociedade, teve como primeira lembrança de vida uma amostra do que as pessoas de sua raça sofreram, sofriam e sofreriam por longas décadas. Assistiu a tudo em silêncio. Silêncio guardado para anos depois virar voz de protesto em plena Casa do povo.

 

“Foi assim que aprendi, desde criança, que não se deve deixar sem resposta uma ofensa racial. Esta é uma lição que venho praticando durante toda minha vida”.

 

 

Muitos negros continuaram escravos ainda anos a seguir da admissão da Lei Áurea em 1888, a qual retirou os negros das senzalas para colocá-los nas ruas, nos morros, nos barracos. “Uma ‘bela’ mentira cívica”, segundo Abdias. Os que foram alforriados literalmente das amarras e das grilhetas físicas, o descaso e o comodismo da época os jogaram às intempéries da vida: sem salário, sem casa, sem terra, sem tudo. Com “uma mão atrás da outra” foram eleitos a existir à margem da sociedade durante os anos futuros. Em declive acentuado construíram casas. Em declive acentuado viveram sem estudo, sem direitos e sem proteção das leis brancas. Isolados das escolas, dos meios de produção, da capacitação profissional. Destratados pelo espectro viciado de que eram a escória. O resquício de um sistema corrupto e cambaleante, consequência do formato mercantil de invasão e colonização sofrido pelo país. Andaram pelas calçadas em busca daquilo que produziram por centenas de anos enriquecendo os cofres dos Senhores da chibata. E o dinheiro destes Senhores perpetuou-se aos seus descendentes que hoje, netos da burguesia escravagista, perpetuam o isolamento social e o racismo de forma camuflada: não aceitam vagas especiais nas universidades àqueles que no histórico de vida trazem antepassados presos nos porões dos barcos negreiros: bisavós escravos, avós explorados, pais empregados sem condições de concederem-lhes educação (escolar) de qualidade. Escondem seu racismo enquanto não aceitam o remanejamento da posse das terras onde seus ancestrais brancos chicotearam, mataram e venderam pessoas furtadas de seu chão. Reconhecer o próprio erro é afanoso. Reconhecer o erro dos antigos, com a distância de épocas, é mais complexo ainda. Mas distinguir que se está errando sucessivamente, é quase impossível.

Solitários, longe de seus familiares, vendidos, trocados, mortos nos troncos. E entre 1888 e 1914 pouco tempo havia se passado para que as agruras e os machucados secassem e as lágrimas dos mais velhos esvanecessem. Era nessa sociedade que Abdias conheceria a vida que se transformava. Ser negro exigia coragem. Ter a cor preta na pele representa(va) preconceito, martírio, sucessão de infelizes momentos.

Contudo, a grande mãe – África e o solo da nova terra mostrara-lhes a força e ensinara-lhes a seiva para resistir e o viço para festejar e levantar o seu próprio espaço. A cultura, ao contrário dos corpos que se despedaçaram com golpes desonestos, sobreviveu, mesmo que escondida ou travestida durante os anos de senzala. Seus atores contiveram a consciência, mesmo que irrefletida, de que lhes fora imposto uma das maiores crueldades da história e que para provocar uma mudança radical na imagem construída sobre seu povo pelos sórdidos e covardes barões e pela aristocracia branca, era imprescindível um revés. Os negros estavam nas ruas. E logo estariam em qualquer lugar, com permissão ou não. Criando ou reafirmando sua cultura e “desvendando” aos oligarcas os patrimônios habituais trazidos do continente negro.

Abdias do Nascimento, negro, economista, deputado, senador, artista. Morreria aos 97 anos sendo um dos mais influentes brasileiros na constituição do perfil do negro como cidadão de direitos e do enfraquecimento, mesmo que em pouca escala, do preconceito estúpido que assola os seres mais pobres de espírito até os dias de hoje.

Abdias não foi o único. Desde o maior herói desta história, Zumbi, muitos outros se levantaram contra a opressão e foram, de maneiras diferentes, condutores da exaltação de um povo que havia de descobrir-se e de demandar seus direitos, além de valorizar suas etnias e refazer a história não contada da participação significativa da força preta na construção desta nação continental.

 

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“Precisa-se de empregado, mas não queremos de cor”

Abdias do Nascimento não se conteve desde a cena que recorda da mãe defendendo o menino a ser espancado. Em 1938 o jovem iniciante na ação política organizaria o congresso Afro-Campineiro. Participaria do primeiro movimento brasileiro de direitos civis, a Frente Negra Brasileira. A Frente lutava por um programa de luta que tinha como propósito a conquista de direitos dos negros em todos os setores da vida brasileira. Um dos seus departamentos, consequentemente, enveredou para questão política, pois seus integrantes perceberam que através da política seria mais provável tornar exigências em acontecimentos, fazendo da Frente um partido político em 1936.

No ano seguinte, protestando contra a ditadura do Estado Novo, comandada por Getúlio Vargas, foi preso e condenado a cumprir pena na Penitenciária Frei Caneca. Em 1938, mesmo ano em que realiza o Congresso, diploma-se pela Faculdade de Economia. Mas como um bom intelectual que era, não seriam apenas a política e a economia suas paixões e anseios. Integrante da Santa Hermandad Orquídea, o também poeta excursiona por toda a América Latina acompanhado de um grupo de poetas argentinos. O branco subiria ao palco. Numa dessas viagens, em Lima, Peru, depois de ministrar uma série de palestras na Universidad Mayor de San Marcos (Escola de Economia), o economista assiste à peça “Imperador Jones”, de Eugene O’Neill. No instante ao surgir no palco o personagem negro, como ele, apresenta-se o ator Hugo D’Evieri: um argentino de pele clara todo pintado de preto.

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“Naquele exato momento imaginei que o teatro poderia ser um grande instrumento da nossa luta anti-racista. Ali mesmo, então, decidi que ao voltar [para o Brasil] iria criar o teatro negro do Brasil. Eu já conhecia a fama que nossos teatros tinham em excluir o negro. Nos teatros municipais do Rio ou de São Paulo, negros entravam apenas para limpar o chão que os brancos sujavam.”

Era hora de voltar ao Brasil, pois a cabeça fervilhava. Em 1941, entretanto, é preso na Penitenciária do Carandiru, condenado à revelia por afrontar abusos racistas. Dentro da penitenciária o espetáculo da imaginação abre as cortinas. Organiza, aparelhado entre celas e grades junto a um grupo de presos que escreviam, dirigiam e interpretavam, o Teatro do Senteciado, grupo que viria a encenar peças dramáticas. Com a liberdade judicial em 1943, começa a organizar e a procurar apoio para a criação do Teatro do Negro. São Paulo não foi receptiva à ideia. Nem mesmo intelectivos como Mário de Andrade se interessaram pelo plano impetuoso. Com o sufrágio de um grupo de negros e da intelectualidade carioca, vem a idealizar em 1944 o Teatro Experimental do Negro (TEN). Havia um porém: nem todos os integrantes do grupo compreendiam a leitura e a escrita. Nada difícil para quem havia sentido a beleza e a esperança em locais como uma cadeia abarrotada de presos políticos. Em horário inverso ao trabalho da maioria dos integrantes, reuniam-se pelas noites no restaurante da sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) para que fossem realizados os primeiros cursos de alfabetização, treinamento dramático e cultura geral para os participantes da entidade, a fim de que os integrantes pudessem dominar a leitura. O TEN ganhava forma. E força.

Imagem de encenação do Teatro Experimental Negro. Arquivo IPEAFRO.

“Teve muita “madame” que se aborreceu com o TEN: nós estávamos botando minhocas nas cabeças de suas empregadas.”

Em 1945 Abdias do Nascimento dirige o espetáculo “O Imperador Jones” na estréia do grupo em pleno Teatro Municipal. Dessa vez quem subira ao palco fora o ator negro Aguinaldo Camargo. Além da arte dos palcos, o grupo era [talvez em maior grau] um espaço de cidadania e conscientização. Para recrutar seus elencos, o público alvo era oriundo das classes desfavorecidas: o operariado, as empregadas domésticas, os desempregados e as pessoas sem emprego ou renda fixas.

“O recrutamento das pessoas era muito eclético. Queríamos gente sem qualquer tarimba, pois tarimba de negro no teatro se restringia ao rebolado ou às palhaçadas. Veio gente humilde, dos morros. A um só tempo, o TEN alfabetizava seus primeiros participantes e oferecia-lhes uma nova atitude, um critério próprio que os habilitava também a ver, enxergar o espaço que ocupava o grupo afro-brasileiro no contexto nacional.”

Para que o movimento ganhasse luz, era necessário um periódico informativo de opinativo para distribuição e debate. Em 1949 o TEN ganharia um suporte de peso, o jornal Quilombo, órgão de divulgação dos acontecimentos do projeto. O sociólogo Guerreiro Ramos e o etnólogo Édson Carneiro seriam os companheiros para a organização de mais um espaço de luta, a Conferência Nacional do Negro.

Criaria também o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros (Ipeafro) em 1981, anos depois do exílio por motivos mais do que óbvios. Negro, intelectual, economista, poeta, escultor e cidadão politicamente engajado nas causas sociais em nome dos oprimidos não era bem-vindo nas terras dos generais. Durante uma visita aos Estados Unidos, entra em vigor o Ato Institucional 5, o AI-5, que o obriga a permanecer no país do Tio Sam. Depois, parte para Nigéria antes de voltar para o Brasil.

Sua volta tinha a força abissal resguardada dos anos passados longe da pátria. No final da década de 1978, já no Brasil, participa de atos públicos e de reuniões com o intuito da criação do Movimento Negro Unificado contra o Racismo e a Discriminação Racial, o MNU. Logo constituiria o Memorial Zumbi, uma organização de promoção dos direitos civis. Nesta, foi eleito presidente em 1989 e só largou o posto em 1998. Eleger-se-ia deputado federal em 1983, legislando até 1987, sendo o primeiro deputado Federal a defender a causa da população de origem africana. No início da década de 1990, torna-se Senador, trazendo em seus programas políticos sempre as mesmas causas sociais de luta. Leonel Brizola, governador do Rio de Janeiro, em sua inteligência política, traz Abdias para a Secretaria de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras. “As coisas somente mudaram quando, no exílio, tive a oportunidade de mostrar a Leonel Brizola a gravidade da situação do negro no Brasil. Ele foi o primeiro político brasileiro a entender e agir a favor de nosso problema”. Exerceu por duas vezes o mandato de senador, sempre com a mão sábia de Brizola como coadjuvante.

Abdias do Nascimento, depois de tanto trabalho, foi agraciado pelo mundo inteiro. Era para Nelson Rodrigues, o maior dramaturgo brasileiro, “o único negro brasileiro”, capaz de esfregar “a cor na cara de todo o mundo”. “Não conte com o Brasil, não conte com o brasileiro”, disse-lhe Nelson Rodrigues ao vê-lo buscar adesão para um movimento avesso ao apartheid na África do Sul. “Somos não sei quantos milhões!”, respondeu-lhe Abdias. Nelson Rodrigues desconversou mesmo triste: “Abdias, só há um negro, que é você mesmo. Não milhões. Você, Abdias, só você”.

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Defensor do sistema de cotas raciais em universidades públicas deixou uma consideração aconselhada sobre as alterações ocorridas no texto inicial do projeto de lei que instituiu o Estatuto da Igualdade Racial, com Lula a frente da presidência. “Foram lamentáveis. As cotas são absolutamente importantes. São um passo adiante da degradação que o negro tem sofrido durante tantos séculos. Se há uma população que necessita de um apoio específico em todos os sentidos, em todos os níveis das atividades nacionais são os negros. São os únicos que foram escravos. As pessoas falam que não precisa de uma proteção, mas ninguém foi escravo aqui, a não ser os africanos”.

Abdias morreu com 97 anos e mais prêmios do que anos de vida. Entre eles, um especialmente criado para ele e para Aimé Cesaire, o prêmio Toussaint Louverture, criado pela UNESCO.

Foi eleito Professor Emérito da Universidade do Estado de Nova York (Buffalo, EUA), onde fundou a Cátedra de Culturas Africanas no Novo Mundo do Centro de Estudos Porto-riquenhos, Departamento de Estudos Americanos. Professor visitante na Escola de Artes Dramáticas da Universidade Yale (1969-70); Visiting Fellow no Centro para as Humanidades, Universidade Wesleyan (1970-71); professor visitante do Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade Temple, Filadélfia (1990-91) e professor visitante no Departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Universidade Obafemi Awolowo, Ilé-Ifé, Nigéria (1976-77). Em 2006, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva o condecorou com a Ordem do Rio Branco no grau de Comendador. O Ministério da Cultura o outorgou a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural e o Ministério do Trabalho dedicou-lhe a Grã Cruz da Ordem do Mérito do Trabalho, as mais altas honrarias do Governo Federal do Brasil.

“Enquanto não houver igualdade, sobretudo nos meios de comunicação e na educação, e enquanto a voz das instituições que apresentam uma outra versão da filosofia que nos foi imposta não tiverem eco, o Brasil não tem o direito de declarar-se uma nação democrática! De maneira nenhuma!”

Arquivo da ABr. Foto: Ricardo Stuckert.

 

ABDIAS NASCIMENTO, DO TEATRO À POLÍTICA, pelo viés de Bibiano Girard

bibianogirard@revistaovies.com

@bibsgirard

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  • Camara Ligada

    SUGESTÃO: disponibilizar também o documentário Abdias Nascimento, produzido pela TV Câmara. Ele pode ser assistido no http://www.camaraligada.com.br

    Abdias Nascimento: a trajetória de um líder negro

    O mês da Consciência Negra nos faz lembrar das reivindicações dos líderes negros que ajudaram a construir o Brasil. Abdias Nascimento foi um dramaturgo, pintor, escritor, professor, deputado e senador da República. Defendeu a inclusão de atores, diretores e autores negros na dramaturgia – debate ainda atual, pois a população negra continua com poucos representantes no teatro, na televisão e no cinema. Como parlamentar, Abdias Nascimento apresentou diversos projetos para reduzir a desigualdade racial. É dele o primeiro projeto de lei propondo ações compensatórias como políticas públicas de igualdade racial. O documentário produzido pela TV Câmara foi baseado no último grande depoimento gravado por Abdias. A direção é de Fernando Bola.