OS 110 ANOS DO MUSEU TREZE DE MAIO

Nei d’Ogum reconta um pouco da história do Treze e da militância negra em Santa Maria.

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São dezesseis horas de um domingo de sol nas imediações do Rosário, o simpático bairro santamariense cujo nome alude à Igreja de Nossa Sra. do Rosário, construída em meados do século XIX por uma irmandade de cristãos negros. O prédio verde-escuro que sedia o Museu Comunitário Treze de Maio começa, aos poucos, a receber o público frequentador da oficina de samba que funciona ali todas as quartas e domingos. Jovens de todas as idades, com ou sem familiaridade com os requebros do gênero, se reúnem na sala mais ampla da casa onde Nega Karen – como gosta de ser chamada a oficineira e mestranda em Ciências Sociais pela UFSM, Karen Tolentino – compartilha os rudimentos do ritmo mais popular do Brasil. Atenta a cada um dos quase 30 alunos, Karen exige concentração nas coreografias e dedicação aos movimentos mais complexos, mediando com cuidado as diferenças entre quem está iniciando e aqueles que demonstram mais experiência. Com destreza, ilustra na prática cada lição, revelando profunda intimidade com o samba que brota de um improvisado sistema de som no canto do espaço. Cada grito de estímulo ou desafio retumba na sala; alguns jovens trazem no olhar uma espécie de arrebatamento, como se evoluíssem sobre uma imensa avenida carnavalesca. A atmosfera alegre contagia geral – mesmo a nós, os poucos observadores que não nos atrevemos a ir além de um tímido tamborilar de dedos na cadeira.

Cerca de 30 alunos frequentam a oficina Cia do Samba no Treze de Maio. Foto: Graciane Martini

 

Treze de Maio, de clube social a museu comunitário

Dias antes, no mesmo Museu Treze de Maio onde Karen ministra suas aulas de samba, Vilnes Gonçalves Flores Júnior – ou simplesmente Nei D’Ogum, como é conhecido –  abriu as portas do antigo prédio verde na rua Silva Jardim para nos receber e contar um pouco das lutas que permeiam os 110 anos de história do espaço, desde quando ali ainda funcionava o antigo clube social negro. Coordenador do Núcleo de Ação Cultural Educativa do Treze de Maio, Nei é também um ativista do movimento gay – o que nem sempre foi uma credencial bem-vista entre as organizações políticas que frequenta desde os anos 80, nas quais aprendeu a defender com igual incisividade as causas negra e de livre orientação sexual. Esclarecendo a sua tomada de consciência e o início do envolvimento com ambos os movimentos, Nei cita o choque causado pela ruptura entre um lar acolhedor e as drásticas mudanças decorrentes da inserção no ambiente do ensino escolar, além do contexto da sua orfandade: “Dentro da minha casa eu era tratado por ‘diamante negro’, ‘coco queimado’, apelidos carinhosos com nomes de coisas escuras; quando eu chego na escola, passo a ser tratado como ‘macaco’, ‘narigudo’, ‘bundudo’…e tem também uma coisa, apesar da dificuldade de obter provas, porque os registros de desaparecidos durante a ditadura só falam dos brancos, mas minha família suspeita que meu pai tenha sido assassinado pelos militares, porque ele já era envolvido com a questão da negritude dentro dos partidos de esquerda.” Falante, avisa logo de cara que se acharmos necessário uma conversa mais pausada ou se não entendermos algo, podemos interrompê-lo. Ao longo do braço esquerdo, a tatuagem em letras vistosas não deixa dúvidas quanto ao engajamento de Nei D’Ogum: poder para o povo preto.

Fundado no início do século XX por funcionários negros ligados às companhias ferroviárias, o Treze de Maio era então a versão negra dos clubes recreativos brancos, segundo Nei “Era um clube social voltado ao lazer das famílias negras, trabalhadores negros da malha ferroviária, que mesmo após a abolição, não tinham direito de frequentar os clubes recreativos dos brancos, então fundaram seus próprios clubes. Mas eram iniciativas que em certo ponto reproduziam as restrições das elites, porque os clubes não tratavam da inclusão econômica do povo negro, embora tenham uma importância enorme para a história dos negros no Brasil. Foi no início dos anos 2000 que a comunidade negra organizada de Santa Maria, junto com instituições parceiras, depois de anos de luta, consegue então transformar o antigo Clube Social Negro no Museu Comunitário Treze de Maio, com uma função afirmativa da negritude.”.

Hoje, o museu é gerido pela Associação dos Amigos do Museu Treze de Maio, que é responsável pela gerência de projetos, sustentabilidade e planejamento do espaço. Além das aulas de samba, o Treze abriga atividades de canto, dança, capoeira e percussão, e guarda diferenças profundas com a ideia tradicional de museu. Apesar de um amplo acervo material (armazenado em casas particulares enquanto o espaço não conta com as condições ideais de preservação das obras), o foco está mais nos processos de sociabilidade e afirmação do protagonismo negro do que nas obras de arte em si. Uma concepção expandida de museu, orientada não pela lógica passiva da relação entre obra de arte e espectador, mas sim pela dinâmica participativa da comunidade no resgate e renovação do patrimônio cultural dos negros brasileiros.

“Aqui no Treze a gente tem um problema com auto-estima. Mas não é carência não, é que sobra confiança mesmo.” Foto: Graciane Martini

O movimento negro em Santa Maria e o elo com a resistência afro em escala global

Para Nei, foi a partir dos anos 1980, com a repercussão mundial do sistema de apartheid na África do Sul e com o declínio da ditadura militar no Brasil, que o movimento negro em Santa Maria conquistou proporções maiores e atingiu a maturidade política necessária para intervir de modo mais efetivo nos processos políticos locais, conectando-se também aos processos de resistência globalizada. “Naquele momento o grande tema era o apartheid, as políticas de isolamento dos negros africanos e americanos. O extermínio e a segregação racial no Brasil eram mais subjetivos, indiretos, aqui o tiro sempre foi dado pelas costas do negro, enquanto na África e nos Estados Unidos o tiro era pela frente (apontando a testa com o indicador).”

A articulação local crescente dos militantes foi marcada também por disputas simbólicas dentro de instituições ligadas ao cristianismo, religião com a qual os descendentes de africanos aprenderam a conviver – de modo forçoso, desde os primeiros tempos de tráfico escravagista, e posteriormente assimilada e relida de forma a camuflar os ritos e entidades das crenças originais, proibidas pela sociedade branca. “Nos organizávamos dentro das pastorais negras da Igreja Católica, porque lá havia os recursos e a estrutura que nós não tínhamos na época. Começamos a imprimir bottons contra o apartheid, montamos grupos de dança afro. Chegamos a organizar uma marcha contra o regime racista da África do Sul, que levou centenas de manifestantes até a Praça Saldanha Marinho, isso no final da década de 80”, relembra Nei. “Sem falsa modéstia, algumas das principais renovações do movimento negro nacional saíram daqui do sul, de Santa Maria”, complementa. “As demarcações dos territórios quilombolas, o sistema de cotas nas universidades públicas, essas bandeiras que beneficiam não só os negros mas também os indígenas, os trabalhadores como um todo, são bandeiras que erguemos muito cedo aqui, tanto que a UFSM foi a segunda instituição no país a adotar as cotas.”

Patrimônio Histórico de Santa Maria, o Museu Treze de Maio carece de recursos para qualificar a estrutura

Ao mesmo tempo, a flexibilização das normas de ingresso nos clubes sociais brancos ia afetando ainda mais o Treze de Maio, que passava a disputar seu público habitual também com as sociedades que até então vetavam a participação da comunidade negra. Logo, a decadência do clube resultaria no abandono da estrutura onde hoje funciona o Museu Comunitário. Junto a outros militantes que classifica como fundamentais para a criação do Museu Treze de Maio, como Giane Escobar, Sirlei Barbosa e Jamaica (apelido de Marta Messias, coreógrafa do grupo de dança Euwá Dandaras), Nei vivenciou um período em que o espaço onde funcionava o Clube Social Negro foi aos poucos perdendo relevância e viabilidade, chegando mesmo a sediar uma casa noturna desvinculada de qualquer função social, enquanto o movimento carecia cada vez mais de um ponto de convergência e organização. Foi graças à intensa mobilização dos militantes e à adesão de alguns importantes parceiros institucionais que o prédio do Treze foi finalmente tombado como Patrimônio Histórico de Santa Maria, criando assim as condições mínimas para a ocupação e início das atividades do museu.

Em constante reforma, o Museu Treze de Maio luta pela conquista de melhores condições estruturais. Foto: Graciane Martini

Fundado em 2001, desde então o Museu Treze de Maio vem lutando para garantir a manutenção de suas atividades e a viabilização das obras que pretendem tornar o espaço um complexo cultural com estrutura qualificada para oficinas, saguão de exposições e até uma cozinha especializada em culinária afro-brasileira. Hoje, o que garante a permanência do Treze é a soma de esforços de diversos artistas, militantes, pesquisadores e apoiadores da ideia, já que os escassos recursos públicos destinados pela prefeitura ao museu dão conta apenas das despesas básicas. “Eu larguei emprego fixo, curso superior, demandas pessoais…não tem como se dedicar pela metade, um projeto assim exige entrega, e aqui todo mundo é voluntário”, escancara Nei sobre as dificuldades resultantes da carência de investimento público no museu (Nota: durante a redação dessa matéria, foi divulgada a aprovação do Museu Treze de Maio no edital da Secretaria Estadual de Cultura do RS para Pontos de Cultura, que implicará – além do reconhecimento simbólico – na injeção de recursos no espaço). Quanto ao investimento privado, Nei vê no pouco interesse das empresas locais em apoiar o Treze uma clara reação à militância das minorias: “É uma questão também política, porque afinal nós defendemos o passe-livre, o sistema de cotas, que desagradam alguns empresários. Tudo isso tá envolvido.”

Festival Municipal de Artes Negras

Apesar das dificuldades, o Museu Comunitário não para: além das inúmeras oficinas ofertadas cotidianamente à comunidade e de sediar encontros do Movimento Negro de Santa Maria, os 110 anos do Treze de Maio serão comemorados em grande estilo, com a realização do Festival Municipal de Artes Negras (FESMAN) nos dias 10 e 11 de maio – um evento de artes integradas que contará com apresentações de música, dança, teatro e capoeira. Todos os artistas abriram mão dos cachês artísticos, em nome de fortalecer o museu como polo de difusão artística e cultural negra no estado. “Não vamos deixar o maio passar em branco, ele vai passar é em preto mesmo. Porque aqui no Treze a gente tem um problema com auto-estima, mas não é porque falta, não: é porque sobra.” E assim, Nei, o eloquente filho de Ogum, traduz um pouco do espírito guerreiro que representa o Museu Comunitário Treze de Maio no cenário da cultura afro da cidade.

*Confira a programação do FESMAN: http://www.museutrezedemaio.blogspot.com.br/

OS 110 ANOS DO MUSEU TREZE DE MAIO, pelo viés de Atilio Alencar¹

 

1.  Atílio Alencar é produtor cultural e midialivrista, formado em História pela Universidade Federal de Santa Maria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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