SEXO FRÁGIL É A HIPOCRISIA

Quando a liberdade sexual não passa de uma ironia.

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Sexo frágil: a submissão que é frágil. O sexo, não deveria ser.

Dois casais, tradicionalmente compostos de um homem e uma mulher cada, foram convidados a permanecer durante um final de semana inteiro em uma casa de praia. Tinham direito a se lambuzar em uma piscina de pudim, fazer troquinhas no banheiro, ficar peladão na piscina, enfim. Um programa soft porn para toda a família – ou quase isso.

A situação pertencia a um reality show, no formato padrão da intimidade exposta, ou coisas do tipo. Durante o episódio, para instigar as situações picantes do final de semana, a galera foi convidada a ter aulas de sexo oral com uma mestra no assunto (por assim dizer, bem estereotipada: longos cabelos loiros, seios fartos, unhas felinas e voz macia). Tudo muito normal no universo do pornô levinho. Estranho mesmo foi a ordem passada pela professora: “Os meninos agora aguardem no sofá, enquanto eu demonstro o que as meninas deverão fazer”. Opa. Espera aí. Como assim sexo oral é uma habilidade ensinada e aprendida apenas por mulheres?

Quando as meninas aprenderam a técnica correta, passando para a aula prática, um dos rapazes não pareceu confortável. Inclusive, não chegou “aos finalmente”, visivelmente embaraçado. O clima ficou um pouco denso, claro. O negócio todo ficou um pouco estranho.

Tenho algumas coisas a ponderar após este episódio. Entre elas, é claro, a crítica ao machismo, tão incutido, mas tão incutido, que não livrou nem mesmo o pornô e o sexo casual das suas garras moralistas, sádicas e fragmentadoras. Em primeiro lugar, o macho não cumpriu seu papel de macho, a princípio – pois, como assim você não curtiu a experiência, meu caro? Nem a fêmea cumpriu o seu papel de fêmea, afinal, queridinha, se você não fez o rapagão chegar lá é porque alguma coisa em você não está funcionado. Desempenho e prazer ficam a critério de certa capacidade muito parecida com a pressão diária que as mulheres enfrentam em seus postos. O desempenho das mulheres confere com uma posição que elas sempre devem tomar: a de desinibição, quando na verdade, ao contrário, vivem em uma sociedade que sempre as reprimiu – e as reprime. Por um lado, puxa para a exibição do corpo, e por outro cobre, da cabeça aos pés, por conta de uma moral medida pelo tecido da roupa.

O que incomoda é uma antiga, e predominante, dicotomia: a de puta ou a de santa. O ditado popular, incutido em corações e mentes dos machos por aí, diz que as mulheres são santas na rua e putas na cama. Partiu de ideias, como essa, outras tantas que obrigam as mulheres a desempenharem acrobacias na cama, a fim de segurar seus pares, tendo que gostar de dar todos os orifícios do corpo, expor tudo o que puderem – não gostar de uma dessas práticas é ser, automaticamente, sem sal – a santa. A puta e a santa transitam entre os papeis sociais que as mulheres desempenham. Não nos livramos dessa dicotomia quase que nunca. A invasão ou a inversão de uma pela outra, nos momentos “errados”, leva ao julgamento e – claro – à condenação. Não, o pornô não é a liberdade sexual, ainda.

Ao mesmo tempo, a puta, ou a mulher que precisa de artifícios mais picantes para a própria satisfação, recebe um julgamento muito parecido, ainda que num processo diferente. O cargo de vadia é doloroso e inflexível. Ao mesmo tempo em que a sociedade exige que as mulheres “se deem ao respeito”, os machos buscam satisfação nas “mulheres da vida”. Crucificadas, mas, igualmente requisitadas. Sem a desinibição das vadias, o mundo não caminha. A liberdade sexual da mulher, a sua necessidade de sexo, em todos os níveis, acaba, mais uma vez, como uma espécie de escrava do homem, pronta apenas a satisfazer, e não a ser satisfeita.

E o que dizer da sexualidade lésbica? O pornô para lésbicas existe mais para os homens que querem satisfazer uma fantasia com duas mulheres. Não são pornô para lésbicas. São lésbicas para homens. Até porque, em quase metade ou mais das vezes, um homem não concebe duas mulheres sem achar que o seu pau deveria estar ali no meio, de alguma forma. Por que é tão difícil aceitar que, em certas situações, um homem não é necessário? Por que é tão difícil aceitar que algumas mulheres transam com outras mulheres para se satisfazerem, e não para satisfazerem o prazer alheio masculino?

O pornô que concebe que as mulheres devem ser putas (e isso não significa liberdade sexual, infelizmente, mas uma espécie de prática de satisfação ao macho) não é o pornô que vai contribuir para a própria libertação. Certas obrigatoriedades no pornô são, sinceramente, chatas. Certas obrigações de gozar esguichando, de sexo oral com “carão”, de “vamos eu, você a minha amiga lá pro canto” cansam mesmo. O problema de práticas consolidadas é que elas dificilmente são questionadas – e mais difícil ainda é propor modificações. A liberdade sexual está em instâncias superiores ao número de parceiros ou à atividade sexual de fato: está nas próprias escolhas, impulsionadas pela intenção mais pura (mais genuína de si mesmo), que vai desde transar com quem e como quiser até a de não transar, se quiser.

Li esses dias que a Valeska Popozuda pode ser considerada uma mulher à frente da libertação sexual – pois ela fala que goza, ou que não está plenamente satisfeita, exige o que ela quer do homem e o que ela quer do sexo. Sim, tudo isso. Concordo. Mas, infelizmente, o sexo explícito das letras de funk ou das cenas do pornô, ainda que pareçam totalmente libertadores, não o são na sua totalidade.  É no universo do funk, e do pornô, que muitas mulheres não passam do símbolo do objeto, subjetivamente ignoradas em prol do prazer masculino. E não estamos falando de empatia, e nem mesmo da satisfação que as pessoas sentem em dar prazer a alguém, tanto quanto receber. Falamos de uma devoção, quase que sagrada, ao prazer masculino em prol do feminino. E isso fez com que as mulheres fossem colocadas em níveis diferentes dos homens, e que pornô fosse considerado coisa de garoto, preferencialmente. Que é natural um homem ter revistas de mulheres nuas, que é natural um garoto não conseguir se segurar ao ver debaixo da saia de uma mulher, que é natural que os meninos peguem nos peitinhos ao invés de pegar na mão. Para as mulheres, nada disso. Para as mulheres a obrigação de se manterem virgens, santas, intactas. Obrigação de reprimirem um rapaz por olhar para sua saia, a tirarem a mão do garoto do próprio peito, a não assistirem pornôs e nem a terem revistas do tipo debaixo da cama. Ao mesmo tempo, a obrigação de satisfazerem seus machos, de aprenderem o que for possível, de serem as putas e as santas da vida de alguém – e a de não conseguirem nem ser soberanas da própria vida.

Quem são as mulheres que saem nuas nas revistas? Elas não têm prazer? E se elas o têm, como ele é? Como ele deveria ser? O prazer de uma mulher em uma revista é satisfazer alguém? Satisfazendo alguém, ela se satisfaz?

Não prego o hedonismo, o egoísmo. Não acho que é cada um pelo seu prazer, e qualquer um pelo prazer de todos. Mas o que o pornô precisa aprender sobre as mulheres não é que elas têm um prazer diferente dos homens (no sentido de sempre colocar as coisas como oposições entre o feminino e o masculino), mas que elas têm prazer, e que ele precisa ser saciado também. Não saciamos o prazer vendendo a mulher como objeto do homem. Saciamos entendendo que são pessoas, subjetivamente construídas, que não necessariamente irão desejar o mesmo tipo físico, nem as mesmas posições, nem os mesmos dizeres, nem as mesmas fantasias.

No episódio que citei ao iniciar este texto, o que mais impressionou foi o fato de existirem tabus até mesmo no “oba-oba” do mundo do sexo. Até no contingente que consideramos como o mais libertador, audacioso, o tabu está ali: porque um homem não pode negar uma mulher se ela for gostosa. Porque um homem não pode não gostar de uma chupada. Porque uma mulher é quem deve aprender o sexo oral. Porque uma mulher tem que querer comer a amiga, ainda mais se ela for gostosa. Porque uma lésbica não pode transar com uma mulher, e apenas, só porque é de uma mulher que ela gosta. O pornô gay-masculino ainda navega num mar de libertação bem mais sadio que o gay-feminino. E até nisso nós encontramos o abismo que divide o homem da mulher.

O sexo não está do lado de fora da sociedade, ainda que muitos queiram o delegar ao submundo ou à margem. Ele transmite e reproduz os mesmos preceitos da sociedade patriarcal, criada no moralismo do sexo para fins de reprodução. Convivemos com uma sociedade que, quase sempre, consentiu o sexo do homem (com uma mulher, não com outro homem), enquanto denegriu o sexo da mulher – gay ou heterossexual. Que dividiu a sexualidade entre “o que se faz em casa e o que se faz na rua” – entre “o que eu faço com uma mulher” e o que eu faço com “uma puta”. A devoção ao prazer masculino gerou coisas grotescas, como revistas femininas modernas que não sabem falar de outra coisa que não seja “enlouquecer o seu macho na cama”. Gente, atenção. Isso não é liberdade. Não quer dizer que você trocou o avental da submissão sexual por um sex shop que você descobriu o que te dá prazer, de verdade. Que você se libertou.

Nesse sentido, permanece o receio pelos tabus e pelos preceitos que não acabam apenas porque estamos falando de sexo. Falar de sexo não é acabar com o tabu. É preciso ir além disso, é preciso entender a subjetividade dos próprios seres humanos. A liberdade está muito além do que se diz, do que se faz, do que se filma, do que se mostra. A maquiagem hipócrita, para dentro ou para fora do sexo, deve ruir. Pois, pior do que atacar a falta de liberdade, é se iludir com a falsa presença dela.

SEXO FRÁGIL É A HIPOCRISIA, pelo viés de Nathália Costa.

nathaliacosta@revistaovies.com

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  • Flávia Sortica Giacomini

    Meus Parabéns, Nathália Costa, pelo seu texto. Essa sempre foi minha opinião e você colocou no papel de forma a não deixar dúvidas. Salve!
    Flavinha Manda Rima

  • http://queerandpolitics.wordpress.com/ Luiz Henrique Coletto

    Está ótima a reflexão, Nathália. Qual era este reality show que você mencionou, fiquei curioso?

    Penso que a interseção entre pornografia e feminismo siga sendo um dos grandes pontos dilemáticos, mais no feminismo como prática político do que no feminismo acadêmico atual. Eu confesso que acho pornografia hétero mainstream bastante cansativo porque é realmente um receituário sempre idêntico, e em que a participação da mulher quase sempre se dá nos moldes de uma submissão não fantasiosa (digo, que não serve aos propósitos de uma fantasia sexual prazerosa).

    Já a minha avaliação da pornografia gay mainstream é que ela também acaba reproduzindo muito disso, talvez com um pouco menos de intensidade, embora seja muito forte o filão “macho fucker” em que você tem uma atitude de agressividade/virilidade do ativo em relação ao passivo. Quanto à pornografia lésbica, desconheço totalmente.

    Li algo interessante outro dia sobre pornografia feminista, talvez você tenha visto. Segue a matéria: http://colunas.revistamarieclaire.globo.com/mulheresdomundo/2012/05/16/540/ Parece-me interessante porque, se formos honestos, a pornografia é feita para um suposto olhar masculino heterossexual hegemônico. Digo suposto porque você mesma bem tratou disso: não é todo homem que quer sexo daquela maneira, e busca uma representação do sexo daquela maneira. Essa regra das unhas grandes, peitos enormes e dos gemidos ensurdecedores é só uma das que, imagino, não agrade a todos os homens. Enfim, esta matéria traz pra luz a ideia de uma pornografia feita para a mulher (e daí, futuramente, podemos debater o suposto olhar feminino heterossexual hegemônico, risos).

    Por fim, duas questões: não tinha lido seu texto ainda quando compartilhei um comentário de uma moça sobre a Valesca Popozuda. Acho que vai te interessar. A mim, foi bastante interessante porque costumamos esquecer de como a produção acadêmica (leia-se: feminismo acadêmico, teoria queer, estudos de gêneros, etc.) não chega a toda a população e o quanto a produção cultural popular pode ser importante na reflexão destas pessoas. Vou te marcar lá no comentário pra você ler.

    A outra questão: existe um texto de 1984 que eu considero um dos mais fortes e importantes sobre sexo, sexualidade, poder e política. Chama-se “Thinking Sex: notes for a radical theory of the politics of sexuality”, da antropóloga Gayle Rubin. Tem uma tradução do artigo em Português, se você quiser, eu te mando. Eu leio e releio este artigo já faz uns 4 anos e ele sempre me parece impactante e atual, embora escrito há quase 30 anos. Acho que você vai gostar caso ainda não o conheça.

    Parabéns pelo texto, vou compartilhar. Beijos.

  • Gabriela Loureiro

    Oi, Nathalia! Assim como o Luizinho, achei bem interessante a tua reflexão, apesar de já achar a discussão um pouco batida (sei que a maioria das pessoas ainda nem pensa nisso, mas entre os meus amigos já cansei de discutir esse assunto).
    Enfim, a produção da Erika Lust é interessantíssima, além de muito bem feita, e abre espaço pra uma série de reflexões bem legais. Eu tinha lido uma entrevista dela em outra revista, a Vice, que, aliás, é ducaralho. Às vezes é um pouco machista, é verdade, mas tem seus momentos geniais (principalmente a ‘original’, britânica).
    Aqui, ó: http://www.vice.com/pt_br/read/erika-lust-esta-ocupando-o-porno-feminista

    Eles também fizeram uma série de entrevistas com meninas que fazem ensaios sensuais, com um fotógrafo com uma visão bem diferente da mainstream, que ama barriguinhas e outras ‘imperfeições’: http://www.vice.com/pt_br/skinema-show/kimberly-kane-parte-1

    E por fim, já que o Luizinho precisa enfiar a academia em tudo (risos), deixa eu aproveitar pra divulgar a pesquisa de uma amiga, sobre pornô feminino: http://pornoparamulheres.wordpress.com/pesquisa/

    Ela começou a monografia em 2009, na UFBA, sob a supervisão da nossa conhecida pesquisadora dos estudos de gênero Itania Gomes: http://pornoparamulheres.wordpress.com/pesquisa/

    Fucem o blog e descubram outras boas diretoras de pornô feminista, além da inspiração mó legal pra artigos e estudos em geral.
    É, e vamos continuar a expandir a cabecita, né, faz um bem…

    Abs