AQUELES QUE VÊEM TODOS DE CIMA PARA BAIXO

ESTANTE: João Victor Moura escreve sobre o documentário “Um lugar ao sol”. Um retrato da elite brasileira.

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Para alguns o cinema brasileiro é muito suburbano: fala de assuntos da favela e das periferias, de crime e morte. Essa visão estrábica e limitada não deixa ver do lado de lá da realidade a representação de um Brasil que é pura contradição. Somos um país formado por uma elite delirante, por uma classe média dividida entre aqueles que fazem coro aos mais ricos e aqueles que preferem esquecer do mundo no fim da noite e fins de semana e por uma classe baixa com suas misérias: as secas, as chuvas, a criminalidade, o desemprego, as drogas.

Dentro desse quadro, as mazelas sociais acabarem interessando mais aos cineastas – e principalemte aos documentaristas – em detrimento dos conflitos psicológicos da elite não parece óbvio? Pode ser, mas há espaço para o diferente no atual cinema brasileiro: Os famosos e os duendes da morte ou Lavoura Arcaica, filmes desta década, mostram como é possível tratar de outros conflitos.

Há espaço também para o documentário que foge à linha “miséria, fome, violência”? É o que tenta mostrar “Um lugar ao sol“, documentário de Gabriel Mascaro, jovem diretor recifense. A ideia é não mostrar cenas chocantes, mas de achar as contradições nas palavras, no discurso da elite brasileira.

Tudo começa com um curioso livro que registra o nome de dezenas de moradores de coberturas pelo país. Mascaro consegue contato com nove deles. Suas opiniões são então escutadas, suas vidas revistas e suas contradições escancaradas. Entre as cenas, muitas imagens das cidades (São Paulo, Rio de Janeiro e Recife) vistas de cima, como uma amostra daquilo que pode ser visto das coberturas: prédios e mais prédios, pessoas nas ruas, o mar infinito.

A gravação do filme "Um lugar ao Sol" - Divulgação

São figuras caricatas que se vê: há aquele que tem uma cobertura só para poder ver o sol nascer e lembrar que tudo aquilo que tem não quer dizer nada; ou aquela que faz trabalhos voluntários, mas gosta de estar numa cobertura por poder ver todos os outros de cima para baixo. Há espaco para a soberba: “eu tenho pena de quem nunca andou num jaguar”, “dependendo aonde vou eu coloco como endereço ‘Co-ber-tu-ra’, não é nem ‘cob.’, é com todas as letras garrafais”. Há também espaço para a visão da violência nas grandes cidades: aquele que acha bonito as rajadas traçejantes (que deixam um rastro de fogo no ar) de metralhadora nas guerras entre as favelas cariocas. Ou a visão de ecologia: aquela que considera um atentado ao planeta as favelas nos morros.

Um lugar ao sol é uma amostra original do mundo pouco visto dos ricos, um filme fundamental para entender a elite, aqueles que vêem todos de cima para baixo.

 

AQUELES QUE VÊEM TODOS DE CIMA PARA BAIXO, pelo viés de João Victor Moura

Um lugar ao Sol, filme de Gabriel Mascaro, Documentário de 66 minutos. 2009.

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