Violeta foi para o céu

Parra fez de seu cantar um estridente grito de diferença, jamais sem esquecer o lirismo e a dor do simples fato de existir.

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Divulgação.

O filme “Violeta foi para o céu”, aclamado no festival de Huelva, na Espanha, representante chileno para as categorias de melhor filme estrangeiro no Oscar (Estados Unidos), e nos prêmios Ariel (México) e Goya (Espanha), é um acerto cênico de vultoso caráter romântico, mas que, ao contrário de muitas cinebiografias, não persiste no engano de muitas fitas em ovacionar seu protagonista, e torna-lo um visionário de sua própria carreira. Não. “Violeta foi para o céu”, antes conta a história da cantora que é considerada a figura musical de maior relevância do Chile, e umas das mais consagradas da música mundial.

Aguardado há muito tempo nas salas de exibição do Brasil – o que é de praxe com filmes deste caráter – aos poucos a película de Andrès Wood, o mesmo diretor de “Machuca”, de 2004, chega às salas com uma bagagem significativa, de boa crítica e aceitação de públicos e juris, o que torna a espera – e consequentemente o espetáculo – um programa que vai além de um simples filme para assistir naquela hora vaga. Vá ao cinema preparado para uma grande história, e para uma história bem contada.

Entre vários acertos do diretor, além do já citado não envolvimento do elenco numa translucidação carente de instituir uma Violeta com ares de mulher biografada em livro e conhecida por todo planeta, há também outros pontos a serem colocados. Andrès Wood mostra uma Violeta mulher simples, reconstruindo o cotidiano, a família, a pobreza, as roupas. Em mensagem a não se engrandecer a imagem, no filme Violeta não transcreve letras imaginadas como cenas clichês em cinebiografias de músicos. Nem mesmo vê-se no filme o caráter cronológico pleno.

Entre centenas de cenas recortadas, ao mesmo tempo em que é contada a vida da mais influente folclorista chilena, da artista que larga a família – e aí surgem características da história de vida de uma mulher que sofreu até o fim – para cantar na Europa da metade do século XX, os recortes servem também para mostrar um Chile inóspito, de velhos cantadores e camponeses solitários. Uma terra que seca ambições, mas que faz Violeta a percorrer atrás dos verdadeiros folcloristas daquele país. E os encontra com sua poesia cantada das agruras da vida, e também da sensação mórbida do fim.

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Para quem não conhece Violeta Parra, poderá ver nas telas a história da cantora chilena considerada a maior folclorista da história do país e também a mulher que deu voz às lutas sociais de toda América Latina. São de autoria dela, por exemplo, hinos revolucionários de contestação cantados até hoje, como “La carta”, “Volver a los 17”, celebrada nas vozes de Milton Nascimento e Mercedes Sosa, e, sua maior poesia, “Gracias a la vida”. Parra fez de seu cantar um estridente grito de diferença, jamais sem esquecer o lirismo e a dor do simples fato de existir.

 

Violeta foi para o céu, pelo viés de Bibiano Girard

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