A QUENTE LENTE DE UMA CÂMERA

O obituário do fotógrafo Malcolm Browne, responsável pela fotografia ardente do suicídio de um monge.

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Na primavera de 1963, o mundo tremia enquanto os Estados Unidos – e seu espírito devastador imperialista – atacavam o comunismo oriental subsidiado pela potente União Soviética. Eram os tempos de um mundo dividido entre dois polos, era a Guerra Fria e suas armas: ataque bélico e principalmente ataque ideológico. Malcolm Browne estava no Vietnã naquele junho quando os aparentemente tranquilos monges budistas legitimaram o grito contra o governo do Vietnã do Sul, pró-catolicista apoiado pelos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia.

Avisado anteriormente que “alguma manifestação” iria ocorrer no centro de Saigon, hoje Ho Chi Minh, o fotógrafo se dirigiu até lá, solitário, para clicar o protesto que entraria para a história da humanidade – quiçá com graus elevados de “influência” da precisão do olhar de Malcolm – como um dos mais bárbaros já assistidos. O monge idoso Thich Quang Duc sentou sobre um travesseiro na posição de lótus, e ajudado por dois seguidores – que o banharam com combustível – ateou fogo no próprio corpo.

No Alabama, Robert Kennedy, irmão do então presidente John Kennedy, ligou para o irmão informando-o do acontecido. “Olhe a capa do The New York Times”. Ainda deitado em sua cama, o presidente viu a foto de Browne. “Jesus Cristo”, exclamou John.

Como a questão que vigora entre os profissionais da imprensa – questionamento de respostas imbricadas a mais dúvidas – Browne refletia sobre sua disposição, naquele momento, de continuar fotografando. Disse, tempos depois, que não se sentia orgulhoso de sua imagem, mas conteve-se a acreditar que não poderia ter parado o suicídio do monge, visto que outros duzentos monges acompanhavam o acontecimento de alguns metros e também não fizeram nada. Malcolm Browne respeitou o desejo de um velho homem que, no momento mais impactante daquela guerra, queimou sem gritar, sem se mexer. Mas Browne sempre se perguntou qual o papel que ele havia desempenhado durante a morte de um homem.

Para os amigos e conhecidos, Malcolm Browne era um sujeito discreto e elegante. Trabalhou, depois, na América Latina e cobriu a Guerra do Golfo em 1991. Malcolm veio a falecer 39 anos depois de seu mais ilustre fotografado. Aos 81 anos de idade, na madrugada de uma terça-feira, 28 de agosto de 2012, faleceu no hospital de New Hampshire, Estados Unidos, vítima de problemas respiratórios. Segundo sua esposa Le Lieu, ele havia sido internado um dia antes.

Browne cobriu a Guerra do Vietnã para a agência Associated Press, e trabalhou durante três décadas para o The New York Times. A imagem que eternizou os homens de ambos os lados da câmera tornou-se o ícone da barbárie psicológica enfrentada por civis que morreram – e que morrem até hoje – em consequência da guerra.

Pelo trabalho desenvolvido no Vietnã, recebeu os prêmios World Press de melhor foto e o Pulitzer pela imagem que causou emoção e deixou o mundo consternado. Imagem esta que abalou até mesmo a Casa Branca e seu morador à época, John Kennedy, fazendo os Estados Unidos reavaliarem sua política de conflito contra o pequeno país asiático. Do lado vietnamita, a pressão criada a partir da foto obrigou o governo de Diem a proclamar reparações aos budistas perseguidos, o que não se concretizou. Outros monges perpetuaram a ação do fotografado.

Malcolm Browne Wilde era neto de um primo de Oscar Wilde. Nascido em Nova Iorque em 17 de abril de 1931, concluiu seus estudos, obtendo a licenciatura em Química em Swarthmore, perto da Filadélfia. Em 1956, foi enviado para a Coréia como motorista de tanque, mas tempos depois conseguiria uma transferência para o jornal das Forças Armadas. Após seu desligamento do exército, voltou aos Estados Unidos para dar início a uma carreira na área do jornalismo, trabalhando inicialmente em um periódico local no interior do estado de Nova Iorque. Foi nesse emprego que conheceu Hunter S. Thopmson, seu colega de redação, o qual mais tarde escreveria o célebre Medo e Delírio em Las Vegas. Após rápidas passagens por agências de notícias, acabou entrando para a Associated Press, por onde cursou seu caminho até Saigon em 1961.

Ao chegar ao Vietnã, juntou-se ao grupo de jovens repórteres estadunidenses que, na verdade, demonstrava certa empatia ao apoio dos Estados Unidos ao governo do anticomunista declarado e déspota presidente do Vietnã do Sul, Ngo Dinh Diem. Filho de uma família de trambiqueiros e políticos corruptos, foi acusado por nepotismo, corrupção e perseguição religiosa, esta o estopim da revolta budista. Durante seu governo, 75 mil pessoas foram torturadas e 50 mil foram mortas pela polícia corsária comandada pelo presidente e seus irmãos. Mas depois de chegarem ao país em guerra, e depois de um deles, o jornalista “Neil” Sheehan, ter feito um relato que transformou – em partes – a opinião pública estadunidense sobre a gravidade da guerra, o grupo partiu para o ataque à maneira como aquele apoio estava sendo gerido. Ver corpos jogados pelo chão chocou. Segundo David Halberstam, outro jornalista do grupo, foi só uma questão de tempo para verem os furos da guerra, quão fraudulenta eram aquelas ações.

No dia da foto, vários jornalistas receberam uma ligação do principal pagode budista com a informação de que algo realmente importante aconteceria próximo à embaixada do Camboja. Era como se a imagem que transformaria sua vida – e em partes a história da guerra – estivesse desde o início sendo preparada para um único homem: apenas Browne deu importância à ligação, dirigindo-se sozinho ao local. Foram usados quatro rolos de 35mm.

O fotógrafo, que havia sido alvejado três vezes durante conflitos, expulso de seis países e incluído numa “lista de morte” em Saigon, deu entrada no hospital já com dificuldades respiratórias. Há doze anos sofria de Mal de Parkinson, e em seus últimos anos movimentava-se através de cadeira de rodas. Browne foi enterrado na propriedade da família em Vermont, segundo informações de sua esposa, a quem conheceu em Saigon. Deixa além da esposa, dois filhos, Timóteo e Wendy.

A QUENTE LENTE DE UMA CÂMERA, pelo viés de Bibiano Girard.

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  • http://www.catherinedejupiter.wordpress.com Júlia Schnorr

    Eu cresci ouvindo essa história do monge que se ateou fogo. Quando criança, envolta pela inocência, não entendia como alguém cometia tal ato. Hoje eu penso em diversos ”porque”. Procuro explicações e a garganta só engole uma saliva que desce e desce. Eu, e imagino que tantos outros, quem sabe você também, Bibiano, carregado por apegos da terra (e não falo em espiritualidade), não consigo imaginar como alguém consegue se queimar e não se mexer ou gritar. Ontem queimei o dedinho e resmunguei, e olha que nem criou bolha. Falo tudo isso para explicar que a decisão desse monge foi baseada na insatisfação imensa que o tomava. Isso é muito doloroso. Doía mais que a pele queimada. Isso é muito triste.