O PAPA NÃO É MAIS POP

Enquanto Bento XVI responde por crimes contra a humanidade no tribunal de Haia, Brasil prepara-se para os gastos com sua visita em 2013. Pelo viés de Felipe Severo

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Desde que assumiu o papado, em 19 de abril de 2005, o Papa Bento XVI tem enfrentado uma crescente onda de acusações de atos de pedofilia praticados por padres de sua Igreja, o que o levou a ser acusado formalmente no Tribunal de Haia por crimes contra a humanidade.

A entidade SNAP (Survivors Network of those Abused by Priests, ou Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres, em português), com a ajuda da ONG estadunidense Centro para Direitos Constitucionais, entrou com uma ação no Tribunal Penal Internacional, na última terça-feira (13), acusando Bento XVI e outros três cardeais de “responsabilidade direta e superior por crimes contra a Humanidade, por estupro e outros casos de violência sexual cometidos em todo o mundo”.

O dossiê apresentado no Tribunal, contendo mais de 10 mil páginas, acusa o alto clero do Vaticano de desacreditar e abafar casos de pedofilia por parte de padres católicos por todo o mundo. As principais queixas partem da Alemanha, Holanda, Bélgica e EUA, países que possuem o maior número de membros da SNAP.

O nome do Papa já havia sido diretamente relacionado a casos de pedofilia desde que o bispado da cidade de Ratisbona, na Alemanha, admitiu a existência de casos de abuso de menores no coro de Regensburg, o mais antigo do mundo, durante a época em que o irmão do papa, Georg Ratzinger, era o diretor. Nenhuma palavra a respeito desse caso em específico foi dada por parte do Vaticano

Papa Bento XVI (Foto: Agência Reuters)

Em junho de 2010, depois de um escândalo de pedofilia envolvendo o alto clero da Irlanda, Bento XVI, frente a 15 mil clérigos reunidos na Praça de São Pedro, pediu desculpas à humanidade pelos crimes cometidos por seus religiosos. Também orientou aos bispos que colaborassem com a Justiça para a solução dos casos e pôs-se à disposição de conversar com as famílias das vítimas e responder em tribunal, caso necessário.

Bento XVI não possui o mesmo carisma que João Paulo II, porém tem mostrado-se menos conservador que o seu antecessor – como demonstrou no caso da declaração em que disse que o uso de preservativos era aceitável em alguns casos, como nos de prostituição. Mesmo assim, tem assistido a uma grande queda de número de adeptos à sua religão. No Brasil, país com maior número de fiéis à religião no mundo, estudos de 2009 da Fundação Getúlio Vargas apontam que os católicos são 68,43% da população brasileira, uma queda significativa se comparado ao índice de 73,79% apresentado em 2003 e, se visto a mais longo prazo, aos 88,96% dos que se declararam católicos em 1980, em outra pesquisa similar. A pesquisa de 2009 mostra que, ao contrário do que se imaginava, não houve uma “fuga em massa” para as religiões evangélicas, mas sim houve uma distribuição entre as religiões afro-brasileiras, orientais, asiáticas e também entre aqueles que se declaram ateus ou sem religião.

A acusação no Tribunal Penal Internacional vem em uma época em que a imagem da Igreja Católica e de seu líder está especialmente abalada. Por onde passa, Bento XVI tem sido recebido com protestos. Foi o que aconteceu em Barcelona, em novembro do ano passado, quando cerca de 100 casais gays promoveram um “beijaço” durante a passada do papamóvel pelas ruas da cidade, como forma de criticar a histórica política conservadora do Vaticano frente ao tema da homossexualidade.

Ainda na Espanha, no mês passado, uma manifestação reuniu milhares de pessoas em Madrid, para protestar contra os gastos públicos com a visita do Papa à cidade para participar da Jornada Mundial da Juventude, reunião de diversas entidades católicas do mundo todo. Durante o protesto, faixas com dizeres como “Menos crucifixo e mais trabalho fixo”, “Não com meus impostos” e “Essa não é a juventude do Papa” chamavam a atenção. A manifestação acabou sendo reprimida pela polícia e resultou em 6 prisões e 11 feridos.

Beijaço em Barcelona, durante visita do Papa (Foto: Josep Lago / AFP)

Em uma época em que a Espanha e outros países europeus passam por uma crise financeira sem precedentes, que levou multidões às ruas em protesto (Para saber mais, leia “SE NÃO NOS DEIXAM SONHAR, NÃO OS DEIXAREMOS DORMIR” ), o governo espanhol gastou cerca de 100 milhões de euros com a segurança do Papa, alojamentos e outros gastos com a JMJ.

A próxima Jornada acontecerá no Rio de Janeiro, daqui a dois anos. É bastante provável que se repita, em 2013, o que aconteceu na última visita do Papa ao Brasil, em 2007, em que o nosso Estado – assim como fez a Espanha – bancou com todo o aparato do evento. Até hoje não se têm números certos dos custos da última visita papal. Esse é mais um indicativo de que não vivemos num estado tão Laico quanto se diz. (Para saber mais, leia A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR)

A nossa Constituição Federal de 1988 diz que:

rt. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;

Dessa forma seria inaceitável que o Estado bancasse a visita do Papa, já que o Poder Público não pode “subvencionar” igrejas. No entanto, com a desculpa de que, além de líder da Igreja Católica, Bento XVI é também o chefe do Estado do Vaticano, a visita do Papa é vista como a de qualquer outro presidente ou chefe de estado, logo, dando brecha para que seja gasto dinheiro público em segurança, hospedagem de seu pessoal etc.

Ignora-se, porém, que Bento XVI não vem em uma visita diplomática, e sim participar de um evento de sua própria Igreja, logo, os gastos deveriam partir do próprio Estado do Vaticano.  Agora é esperar para ver qual voz será ouvida em 2013: Da juventude do papa ou daqueles que, independente da religião que sigam, querem que o dinheiro público seja investido para o bem do povo, e não para professar uma fé em específico.

O PAPA NÃO É MAIS POP,  pelo viés de Felipe Severo

felipesevero@revistaovies.com

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  • http://twitter.com/molks Abn

    Há muito que não via um texto tão genial. Descobri a revista ontem e tenho me surpreendido com as matérias que encontro.

  • http://queerandpolitics.wordpress.com/ Luiz Henrique Coletto

    Ótimo texto, Felipe. Vou divulgar.
    Abraços. =)

  • http://800gritosmudos.blogspot.com Dan Arsky

    Infelizmente, o Brasil só é Estado laico no papel, pois, além de qualquer repartição pública se encontra um crucifixo ou coisa do gênero, são gastos milhões em festejos e alegorias religiosas. Quando isso vai mudar?

    Gostei muito do texto.

  • http://sentinelanoescuro.wordpress.com/ Vinícius

    Pelo contrário, a Câmara do Comércio de Madrid e da Confederação de Empresários de Madrid estimou em 160 milhões de euros o total arrecadado durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). E mais, o protesto de milhares (2000?) na Puerta del sol (que eu vi) não chegou aos pés dos mais de 2 milhões de jovens que foram a Madrid para manifestar sua fé diante de uma Europa triste e secularizada.

    E mais, oitenta por cento do evento foram financiados pelos próprios peregrinos e o restante veio de doações de empresas e dos fiéis. O que o Estado realmente ajudou foi em relação às isenções fiscais das empresas que ajudaram no evento, o que é mais que justo tendo em conta que os peregrinos trouxeram euro para um país em crise como a Espanha.

    Desculpa, mas considero esta viagem um sucesso para todos os envolvidos direta ou indiretamente. Só não vê quem não quer.

    Sobre os abusos, isso não vai dar em nada. O papa não pode se responsabilizar pelo crime dos padres assim como a Dilma não pode se responsabilizar pelo que os emigrantes brasileiros fazem em outros países. A imagem fica manchada, mas a culpa é unica e exclusivamente dos padres abusadores que não merecem nada além do julgamento justo por parte das autoridades civis.

    • Gabriela

      Europa triste e secularizada? O secularismo é benéfico a todos os religiosos, pois ao separar o Estado da igreja é possível se ter liberdade religiosa. Entretanto como você provavelmente é católico a laicidade estatal não lhe deve apetecer justamente porque a igreja católica foi historicamente ligada aos Estados. Isso é egoísmo e egocentrismo.
      Seus números são deveras duvidosos, mas considerando que realmente deve ter havido lucro por parte dos empresários espanhóis com a JMJ, não seria mais produtivo a Espanha investir o dinheiro público em algo proveitoso a longo prazo?
      Isenções fiscais são justas? Onde está o cristianismo e o altruísmo dessas empresas que “auxiliaram” (lucraram) com a visita do “santo” padre?
      O papa deve sim ser responsabilizado pelos crimes de pedofilia e estupro cometidos por seus subalternos, não como chefe de Estado, como é a Dilma Roussef, mas como líder de uma organização religiosa que até hoje exerce hegemonia nos lares de pessoas desavisadas. Os religiosos confiam seus filhos aos padres e nas crianças são produzidas marcas eternas. Novamente você é acometido por egoísmo e egocentrismo por achar que a igreja não é responsável por isso. E jesus não gosta disso, não, né?

    • Gilvane

      “não é o pastor o responsavel por seu rebanho??? logo SIM o papa tem Responsabilidade para com os que cometem estes crimes!” mas sempre sera mais facil furtar a culpa para não gerar mais problemas então é mais facil rapido e agil ocultar, camuflar todos os casos! alias pra que pensar em quem sofreu com pedofilia neh? são só crianças amanha eles crescem e esqueçem tudo!
      PENA QUE MUITOS PENSEM ASSIM!

  • jorge oliveira

    Olá!
    Esta cultura de financiar a igreja vem de muito tempo, pois o Brasil considerado LAICO.
    Mas dentro da nossa política existe uma sociedade velada entre eles. Hoje temos outras correntes religiosas, e por botarem alguns membros dentro de partidos hoje estão também tendo algumas benefícios do regime. Sabendo-se q/o mundo é controlado p/domínio dos poderes ,Econômico, Ideológico e Filosófico. Então fica fácil entender os motivos do investimentos. Pense em quantos votos cada igreja tem?