P
ara alguns o cinema brasileiro é muito suburbano: fala de assuntos da favela e das periferias, de crime e morte. Essa visão estrábica e limitada não deixa ver do lado de lá da realidade a representação de um Brasil que é pura contradição. Somos um país formado por uma elite delirante, por uma classe média dividida entre aqueles que fazem coro aos mais ricos e aqueles que preferem esquecer do mundo no fim da noite e fins de semana e por uma classe baixa com suas misérias: as secas, as chuvas, a criminalidade, o desemprego, as drogas.
Dentro desse quadro, as mazelas sociais acabarem interessando mais aos cineastas – e principalemte aos documentaristas – em detrimento dos conflitos psicológicos da elite não parece óbvio? Pode ser, mas há espaço para o diferente no atual cinema brasileiro: Os famosos e os duendes da morte ou Lavoura Arcaica, filmes desta década, mostram como é possível tratar de outros conflitos.
Há espaço também para o documentário que foge à linha “miséria, fome, violência”? É o que tenta mostrar “Um lugar ao sol“, documentário de Gabriel Mascaro, jovem diretor recifense. A ideia é não mostrar cenas chocantes, mas de achar as contradições nas palavras, no discurso da elite brasileira.
Tudo começa com um curioso livro que registra o nome de dezenas de moradores de coberturas pelo país. Mascaro consegue contato com nove deles. Suas opiniões são então escutadas, suas vidas revistas e suas contradições escancaradas. Entre as cenas, muitas imagens das cidades (São Paulo, Rio de Janeiro e Recife) vistas de cima, como uma amostra daquilo que pode ser visto das coberturas: prédios e mais prédios, pessoas nas ruas, o mar infinito.

São figuras caricatas que se vê: há aquele que tem uma cobertura só para poder ver o sol nascer e lembrar que tudo aquilo que tem não quer dizer nada; ou aquela que faz trabalhos voluntários, mas gosta de estar numa cobertura por poder ver todos os outros de cima para baixo. Há espaco para a soberba: “eu tenho pena de quem nunca andou num jaguar”, “dependendo aonde vou eu coloco como endereço ‘Co-ber-tu-ra’, não é nem ‘cob.’, é com todas as letras garrafais”. Há também espaço para a visão da violência nas grandes cidades: aquele que acha bonito as rajadas traçejantes (que deixam um rastro de fogo no ar) de metralhadora nas guerras entre as favelas cariocas. Ou a visão de ecologia: aquela que considera um atentado ao planeta as favelas nos morros.
Um lugar ao sol é uma amostra original do mundo pouco visto dos ricos, um filme fundamental para entender a elite, aqueles que vêem todos de cima para baixo.![]()
AQUELES QUE VÊEM TODOS DE CIMA PARA BAIXO, pelo viés de João Victor Moura
Um lugar ao Sol, filme de Gabriel Mascaro, Documentário de 66 minutos. 2009.
