Qual é o meu nome?

Arte: Bibiano Girard

Eu sorri através do espelho para a menina ao meu lado, que tentava arrumar a parte superior de sua roupa. Compreendi a situação dela. Eu usava um vestido verde, com uma manga apenas no braço direito, que havia me incomodado a noite inteira. Era emprestado de uma amiga e a cada segundo provava ser de um tamanho menor que o meu. A costura que deveria ficar em torno do tórax teimava em subir, e me obrigava a ficar com os braços abaixados. Toda vez que eu ia ao toalete, tentava tornar o vestido mais confortável, mas não consegui. Então, quando a vi tentar acertar as mangas de seu vestido claro com impaciência, me identifiquei.

– Estas roupas são problemáticas, não é?

Com um leve levantar dos olhos em direção ao espelho, ela sorriu de volta para mim. Tinha cabelos longos e louros, na altura dos cotovelos. Mesmo com salto alto, era mais baixa, com cerca de um metro e sessenta. As bochechas rosadas e o leve brilho nos olhos verdes revelavam que tínhamos algo em comum naquela noite: ela bebera algumas cervejas ou drinques preparados com vodka. Sua resposta foi breve e risonha, concordando com a minha afirmação. Em frente ao espelho alto, começamos a conversar. Ela me contou que estudava em um curso pré-vestibular, e que pretendia tentar os concursos no fim do ano. Me perguntei por um momento se ela seria menor de idade, mas meu pensamento foi interrompido.

– Vou voltar pra festa!

– Certo, talvez a gente se veja lá! Como é o teu nome, mesmo?

– É Bruna! – ela deu um último sorriso para mim e saiu pela porta vai e vem.

Era cerca de 04h30min da madrugada. O local já estava vazio, apenas alguns dos últimos festeiros resistiam, inclusive eu e minhas amigas. Parei na área mais baixa da festa, perto das grades de ferro que a separavam do restante do local. Olhei descontraidamente para a esquerda, pensando se deveria ir embora. Do outro lado da pista, um barman se apoiava no balcão, com as luzes de dois freezers verticais destacando-lhe a silhueta. Acima, brilhavam também as luzes vermelhas do logotipo de uma marca de cerveja. De repente, vi Bruna caminhando em minha direção. Logo atrás dela, um menino magro, de cabelos curtos, ondulados e castanhos.

– Olha esse cara!

Fiquei parada com uma expressão confusa no rosto, enquanto procurava entender o motivo de ela voltar a conversar comigo. Observei o menino, que continha um sorriso largo no rosto.

– Ele me deu um nome falso!

– Nome falso? Como assim? – perguntei.

– Ele me disse que o nome dele é Lorenzo, mas não é! – Bruna falou rapidamente comigo e saiu, me deixando a sós com o menino desconhecido.

Uma de minhas amigas se aproximou curiosa, para tentar entender o que acontecia. Olhei para o rosto dele, que ainda sorria com o máximo de dentes que conseguia mostrar. A pele era bastante clara e os olhos, castanhos como os cabelos.

– Por que tu deu um nome falso pra ela? – Perguntei.

– Ah, ela é louca! Também não me falou o nome verdadeiro.

– E qual é o teu nome?

– É Lorenzo!

Dei-lhe um olhar de desdém. Ele mantinha o sorriso e parecia se divertir com a situação de desencontros de informações.

– Certo. Lorenzo.

– É! E o teu? – Ele perguntou.

– O nome dela é Mariana. – disse minha amiga, intervindo.

Ele olhou rapidamente para ela e de volta para mim, desconfiado.

– Não é, não. – Ele disse.

– É sim! – Eu afirmei, apesar de ser mentira.

– Se tu me disser qual é o teu nome, eu te digo o meu. – O olhar dele continuava divertido, ainda que me desafiasse.

– Ok. Tu primeiro.

– Meu nome é Augusto.

– Mentira.

– Não, é sim! Juro!

– Prove!

Ele puxou rapidamente as mangas da camisa branca, já trazidas até a altura dos cotovelos. Do bolso traseiro da calça jeans, tirou a carteira e o documento de identidade. Tentei ler, porém o escuro do local não me permitiu ver o nome e comprovar a veracidade da informação.

– Então aqui. – ele disse, retirando o celular do outro bolso.

Eu me adiantei para ler a tela, clara como uma lanterna naquela leve escuridão. Ele abriu o próprio perfil em uma rede social. Ao lado do rosto que agora eu conhecia, dizia “Augusto Krauspenhar”.

– Ah, então é verdade! Procura o meu perfil aí, e já te digo meu nome verdadeiro também.

 

 

Augusto entra na sala que fica no sexto e último andar do Fórum de Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul. Há pilhas de pastas azuis em cima de mesas e em prateleiras de metal pintadas de cinza. Atrás de computadores, sentadas em cadeiras pretas estofadas, estão as colegas de estágio e funcionárias que trabalham com Augusto, o único homem do grupo. Nos dias em que ele está mal humorado, elas comentam que estar rodeado por pessoas do sexo feminino o faz sofrer de TPM, também.

– Augusto, faz isso aqui pra mim?

Sentado, olha para cima. Ana Claudia se aproxima com um sorriso e uma das pastas azuis nas mãos. É sua veterana e também estagiária na 1ª Vara Cível. Ana tem longos cabelos louros dourados, olhos azuis e sobrancelhas delineadas. Os dedos são enfeitados com anéis dourados e unhas longas, pintadas de vermelho. O sorriso revela bochechas salientes.

– Ah, não, faz tu.

– Aaaah, Augusto… – eles se encaram por um momento.

– Tá, me alcança isso.

Augusto é bastante prestativo, mesmo quando não quer. O trabalho na Vara da Fazenda Pública é maçante, lida com papéis e processos. Além disso, dura seis horas e ocupa as tardes de segunda a sexta-feira.

Ele e Ana costumam fazer apostas, apesar de o pagamento destas nem sempre ocorrer. Já apostaram sobre notas em cadeiras da faculdade, por exemplo. Certa vez, Ana disse que ele não conseguiria roubar um beijo de uma nova estagiária na Vara. A oportunidade surgiu quando toda a equipe decidiu ir para Vale Vêneto, distrito do município de São João do Polêsine. Todos os anos, ocorre o Festival Internacional de Inverno no distrito, evento que celebra a cultura gastronômica italiana e tem apresentações musicais de artistas da região e de outras partes do mundo. Em 2012, Augusto e a nova estagiária foram a Vale Vêneto de carona com Ana e seu namorado – apelidado por Augusto de “Mendigo”, por causa de sua barba cheia.

Com a aposta feita, Augusto conversou com a menina durante todo o trajeto, na tentativa de conquistá-la. Depois do almoço, já no Festival, a equipe de trabalho sentou em frente à Igreja de Corpus Christi e ali ficaram conversando até anoitecer. Augusto venceu a aposta.

O Centro Universitário Franciscano, Unifra, não foi o local em que Ana e Augusto se conheceram, apesar de frequentarem o mesmo curso nesta universidade. O encontro aconteceu nos primeiros dias de estágio dele e a conversa envolveu a maneira como Ana lidava com a perda recente do pai, em um acidente de carro.

– Minha família é de religião espírita. Tenho alguns livros lá em casa que podem te ajudar. – Augusto lhe respondeu. No dia seguinte, apareceu com o livro e entregou a ela. A partir disso, a amizade entre os dois começou a se construir.

Apesar de extrovertido, Augusto não comenta muito com os amigos sobre a família. A casa em que mora com os pais e o irmão mais novo fica no bairro Pains, com acesso pela Faixa Nova de Camobi. Ele escorrega nas regras algumas vezes. Já ficou de castigo porque passou a noite inteira fora e chegou em casa depois do amanhecer. No entanto, deixa transparecer a preocupação com o irmão, que ocasionalmente tem que se submeter a procedimentos cirúrgicos arriscados de visão. Augusto brinca que um dos dois é adotado: enquanto ele é moreno de olhos castanhos, o irmão é louro de olhos claros.

No horário de almoço, Augusto sempre volta para casa, para “dar o ar da graça”, como ele mesmo diz. Frequentemente este retorno o faz chegar atrasado para o trabalho no Fórum, à tarde. Quando fica doente, a mãe é quem liga para avisar que ele não aparecerá. “Meu pai é a mulher da relação e minha mãe é o homem”, ele comenta com poucos amigos.

 

 

Martina olha para os papéis à sua frente, concentrada. A cadeira treme de repente, assustando-a. Indignada, ela vira a cabeça para o lado. Augusto havia esticado as pernas longas. Ele bateu na cadeira em que ela estava sentada e fez com que a mesa tremesse. Com força, Martina chuta a cadeira dele e faz começar, mais uma vez, uma briga recheada de tapas.

Com cabelos tingidos de vermelho, olhos castanhos e sardas espalhadas no rosto, Martina é uma das pessoas mais próximas de Augusto. Ele a chama de melhor amiga, principalmente quando interrompe os beijos dela com algum menino e lhe diz com convicção, como se fosse um irmão mais velho, para que o garoto cuide dela. Nas primeiras vezes em que conversaram, ele disse que colocaria o nome da filha de Martina e ela prometeu batizar o futuro filho de Augusto. Este não é o único plano conjunto: após a formatura, planejam se mudar para Porto Alegre e entrar para a Escola do Ministério Público. Passam tardes a pesquisar sobre futuros empregos, quando não conversam à toa, notando os detalhes em todas as outras pessoas, geralmente com comentários ruins. Diferente da maioria dos homens, Augusto tem o hábito de “reparar”: sabe quando alguém cortou o cabelo ou usa muito alguma roupa.

 

 

Saímos juntas da festa, após pagarmos nossas comandas no caixa. Apenas uma de minhas amigas queria ir embora. Eu e outras três insistimos para ficar em frente à boate, um pouco mais. Havia sido uma noite divertida e eu não queria que acabasse. Atravessamos a rua com passos largos e lentos. O local fica em um declive, o que dificulta a caminhada quando usamos salto alto. Sentamos nos degraus que levam ao estacionamento de um supermercado. Estiquei as pernas, a fim de aliviar a pressão nos pés, já doloridos pelas horas em cima do sapato.

Olhei para a fachada da boate, observando o número de casais que saíam de mãos dadas. A maioria trocava beijos e se separava. Possivelmente, nunca mais se veriam. Observei por um momento a cor escandalosa que emoldurava a entrada do local. No início daquele ano, descobri que os donos haviam reformado o prédio e pintado o trecho em torno da porta de entrada, com um tom de cor de rosa que achei horrível. Preferia quando era preta, aquela nova cor me desagradava, principalmente porque contrastava com o vermelho da primeira letra do logotipo.

– Oi, tudo bem? Qual é o teu nome? – olhei para cima, mas o menino não falava comigo.

– Aaaaai!!! – a resposta impaciente veio de minha esquerda – Meu nome é Franciele, tenho 21 anos, estudo jornalismo… – A irritação de minha amiga me fez gargalhar. Era a terceira vez que um desconhecido vinha lhe fazer um questionário.

– Desespero de fim de festa! – disse a ela, ainda rindo. Ela revirou os olhos de maneira impaciente, mas também se juntou à minha risada. Olhei para a minha direita quando outro casal chegou. A menina encostou-se à parede, balançando os cabelos castanhos. Em frente a ela, estava Augusto. Eu abanei para ele e como resposta recebi outro largo sorriso.

Cerca de uma hora depois, cheguei em casa. Tirei os sapatos, troquei o vestido desconfortável por um pijama e estava preparada para ir dormir. De repente, lembrei que precisava fazer algo. Liguei meu notebook e acessei a internet para aceitar o “pedido de amizade” de Augusto.

 

 

A geladeira é aberta, e deixa à vista uma coleção de latas e garrafas PET de dois litros, que contém refrigerante, principalmente Coca-Cola. Todas têm apenas um pouco de líquido restante. Martina pega três garrafas, abre uma e começa a despejar o conteúdo em uma pia. Quando Augusto vê a cena, fica horrorizado.

– Por quêêê?

– Tu vai tomar? – Martina pergunta com um tom de ironia, e a segunda garrafa em mãos. Eram todas de Augusto. Ele compra refrigerante quase todos os dias, mas para de beber quando não está mais gaseificado.

– Não… – ele responde, sincero. Em um movimento, Martina despeja o resto do líquido, sabendo que ele vai à lanchonete comprar mais.

A porta de vidro é aberta e em seguida fechada. O ambiente do corredor é tão agradável quanto às salas, pela presença dos aparelhos de ar condicionado colocados no teto. O sexto andar do prédio do Fórum proporciona uma bonita visão de um pedaço da cidade. Do lado esquerdo do corredor, é possível ver, quilômetros à frente, onde Santa Maria ainda não cresceu, pela presença de árvores em terrenos conservados, sem construções.

O corredor é largo, com paredes pintadas de bege e portas com placas azuis e detalhes em laranja. Nos cantos, câmeras de vigilância apontam suas lentes. Em intervalos de tempo, é possível escutar no corredor, geralmente silencioso, o bater de saltos altos no chão ou o ranger de sapatos baixos. O fim dele leva aos banheiros e três elevadores. Uma grande janela de vidro ao lado é emoldurada por bancos de madeira e samambaias.

Augusto entra no elevador e aperta o número dois. Ao descer no segundo andar e virar à esquerda, reconhece uma menina magra e de baixa estatura caminhando à sua frente. Ele a chama e ela vira a cabeça, com um balançar nos cabelos lisos e castanhos.

– Agostinho!

– E aí, Katiucia! – ele responde, ao mesmo tempo em que balança o pulso do relógio, fazendo com que o barulho de metais ressoe.

Assim como Augusto chama Katiele com variáveis de seu nome como Katiucia, Katita e Katison, ela o apelidara de Agostinho. A denominação era por conta da semelhança de Augusto com o personagem da série brasileira “A Grande Família” que, apesar de ser mais velho, é magro e alto, como Augusto.

– Trouxe os produtos quentes pra ti. – disse ele, se referindo às provas antigas que ele costuma repassar à Katieli.

– Tá, busco contigo depois.

– Vamos sair sábado? Tem Open Bar.

– Só se tu pagar McDonald’s de novo!

– Não, dessa vez eu não sou o único bem pago!

Em uma das muitas vezes em que Katiele e Augusto saíram juntos, logo depois de ele conseguir o estágio remunerado no Fórum, foram de carro a uma festa Open Bar. Como motorista e responsável pelo veículo, Augusto disse que não beberia. Isso faria com que Katiele acabasse por beber sozinha, já que não gostam de cerveja, ao contrário da maioria, e costumam dividir drinques de vodka ou outros destilados. Porém, naquela noite ela não ficou sozinha, pois ele não cumpriu o que havia dito.

Durante a madrugada, um dos amigos de Augusto assumiu a direção, o que o deixou em pânico, pois o carro era de seu pai, e o garoto não era um bom motorista. Não que Augusto fosse a pessoa apropriada para julgar: também não era talentoso atrás do volante. Apesar das condições adversas, a próxima parada depois da festa foi o restaurante de fast-food McDonald’s.

– Então, Augusto. Agora que tá ganhando bem… poderia pagar McDonald’s pra gente, né?

Não precisou de muita insistência. Sem reclamar, ele pagou o lanche da madrugada aos quatro amigos. Enquanto aproveitavam os hambúrgueres sentados no meio-fio do estacionamento, ao lado do carro que ficara com portas e porta-malas abertos, algumas meninas se aproximaram. Coincidentemente, eram amigas dele, que também estavam aproveitando um pós-festa. Uma delas sentou no porta-malas e de repente foi empurrada para dentro. Apesar de se divertir com a brincadeira, os gritos de um desespero claustrofóbico fizeram com que Augusto voltasse atrás e retirasse a menina do local onde a havia trancado.

Há divergências quanto a data em que se conheceram. Augusto diz que ele e Katiele foram colegas nas disciplinas teóricas da auto escola. Para ela, o encontro só ocorreu depois, porque ele saía com uma de suas amigas, Eduarda. A Duda me apresentou a ele em uma festa. Gostei dele desde o início, achei super simpático e divertido. Durante a conversa, descobrimos que ele era meu veterano. Alguns dos meus colegas, que estavam conosco, odiaram ele. O Augusto estava hiperativo, colocava as mãos nos ombros das pessoas e começava a pular atrás delas. Além disso, não é do tipo que consegue ficar parado em um local, ele prefere circular quando está em festas.

– Pelo amor de Deus, tira esse teu amigo daqui! – um dos meninos disse para mim com impaciência.

Naquela noite, o Augusto também se irritou em um momento. Ele saiu de onde estávamos para buscar bebidas, e um de meus colegas convidou a Duda para dançar. Quando a música acabou, ele já tinha voltado, mas o menino continuou segurando a mão dela. Ciumento, Augusto ficou furioso e declarou ódio mortal a ele.

Depois, tive que sentar no banco de trás, com os amigos bêbados dele, quando saímos da festa, enquanto a Duda foi no banco do passageiro. Eles eram tão insuportáveis que o Augusto parou o carro para eu descer e sentar junto na frente. Além disso, ele dirigiu pela cidade inteira atrás de uma farmácia para que eu pudesse comprar uma pomada. Eu teria que voltar para a casa dos meus pais e tinha algumas marcas arroxeadas no pescoço que gostaria de esconder.

Katiele se tornou uma companhia de festas e confidente. Pode presenciar algumas situações escandalosas pelas quais Augusto já passou. Em umas delas, ele estava com uma colega de estágio de Katiele. A menina o beijava, passeava pela festa, e voltava. Em um momento começou a dançar com outro garoto e Augusto, na tentativa de também incomodá-la, chamou outra menina para dançar. De repente, a primeira largou o garoto com quem estava, puxou a pessoa que dançava com Augusto e lhe falou algo que ele não conseguiu ouvir, agarrando-o em seguida. Logo depois, se irritou quando ele estava mexendo no celular: arrancou-o da mão dele e o jogou no chão da boate.

Há rumores de que Augusto já levou até bebida na cara por uma menina enfurecida. Outra se irritou porque escutou Katiele, enquanto bêbada, chamando-o de “amor da minha vida”. Indignada, a moça saiu, caminhando para longe deles, sem saber qual era o nível da relação. Augusto não tem muitos escrúpulos para ir atrás de mulheres, mesmo se elas tiverem um histórico amoroso com um de seus amigos. Inclusive, quando vai sair com Katiele, ele pede os “Facebooks para conferência”. É uma maneira de ir para a festa já informado se alguma amiga dela pode ser interessante. Os planos finais às vezes são avisados pelo próprio chat da rede social.

 

Katiele Brandão:

“coloquei tu e o vaner na lista

o aniversariante é marcelo rodrigues”

 

Augusto Krauspenhar:

“thanks katita! bora rachar vodka e tudo o mais!”

 

Katiele Brandão:

“hahahha

nao tenho grana pressas coisa haha”

 

Augusto Krauspenhar:

“nem eu

vou vender meu corpo

acho q nem vendendo os nossos conseguimos uma vodka

se pá um kuat”

 

As luzes verdes no teto se moviam rapidamente, atrapalhando a visão algumas vezes. O som de música sertaneja retumbava em meus ouvidos e os globos de vidro giravam no teto. Quase todas as pessoas tinham copos longos de plástico colorido nas mãos. Meu colega me apresentou um amigo dele, e logo o menino me convidou para dançar.

– Qual é o meu nome? – ele perguntou, com a mão em minha cintura. Olhei para ele, provando que aquele era um ótimo questionamento. Eu não fazia ideia, não havia prestado muita atenção quando meu colega disse. Comecei a citar vários nomes, em uma tentativa de sorte, mas não consegui adivinhar. Foi uma situação engraçada e ele riu comigo.

– É Augusto.

Augusto conheceu Eduarda em 2010. Não demorou muito tempo para um beijo acontecer. Quase todos os dias, ele pegava o carro do pai e dirigia de Camobi até o centro da cidade para buscá-la no curso pré-vestibular que ela frequentava e levá-la até em casa. Se algum dos amigos dele estivesse na rua, bebendo, eles iam até o local, passar um tempo juntos.

Ele era carinhoso com Eduarda, porém o humor oscilava. De um momento em que era bastante afetuoso, de repente mudava e se tornava grosseiro. Subitamente, voltava a ser carinhoso. Isso a irritava, mas também a deixava pensativa. Ele poderia ser simplesmente alguém confuso ou talvez inseguro em demonstrar seus sentimentos, independente de quais fossem.

Nessa época, Augusto cursava o primeiro semestre de Filosofia na Universidade Federal de Santa Maria. Porém, encontrou o que realmente queria fazer quando começou a estudar Direito no Centro Universitário Franciscano. Dias de provas eram antecipados por horas de estudo. Certa vez, ele e Eduarda passavam em frente a escritórios de advocacia, próximos ao prédio cinzento de janelas envidraçadas do Fórum. As três hastes com as bandeiras nacional, do estado e da cidade balançavam ao vento da mesma maneira que os ramos das árvores em frente às grades revestidas de arame farpado no topo.

– Um dia eu vou trabalhar aqui. – ele disse, com um brilho ambicioso nos olhos. – Quando tu passa pelas clínicas, não fica se imaginando ali? – perguntou para Eduarda, que pretendia cursar Fisioterapia.

– Não… – ela respondeu com insegurança.

Ele e Eduarda pararam de se ver porque Augusto começou a namorar outra menina. Entrou na bolha do novo relacionamento e parou de fazer festa e sair com os amigos. No início de 2012, porém, Eduarda iria embora de Santa Maria para Brusque, em Santa Catarina. Eles se encontraram para se despedir e Augusto lhe entregou uma pulseira que usava, para ela levar junto e guardar como lembrança. O abraço, que prometia um “até logo”, era o mais sincero que ela já recebera.

Em setembro, resolvi comemorar meu aniversário em uma boate. Convidei alguns amigos e conhecidos, inclusive Augusto. Dependendo do número de pessoas que comparecessem, dentre minha relação de convidados, eu poderia ganhar algumas bebidas do estabelecimento. Além disso, a entrada sairia mais barata para os nomes presentes nesta lista. No mês seguinte, Augusto não precisaria mais desse tipo de circunstância, pois decidiu adquirir o cartão VIP da boate: com validade de um ano, poderia entrar em qualquer festa, sem passar por filas, com direito a um acompanhante e acesso à área VIP. O cartão custava 600 reais.

 

Apoiei os cotovelos no balcão de madeira do bar. Olhava para o cardápio de bebidas, dividida entre pedir uma dose de tequila, uma marguerita, ou um drinque doce chamado “Orgasmo”. Apesar de ser sábado, o local não estava cheio naquela noite. À minha esquerda, várias pessoas estavam sentadas nos bancos altos de metal com estofado vermelho, em torno de mesas redondas e pequenas, ao lado de uma grade de ferro que separava a área superior da rampa que levava a seção inferior.

A porta da boate abriu e um casal entrou. Olhei e reconheci o menino magro, de mãos dadas com uma loura de vestido preto. Ele tinha olhos fixos no fundo do local, onde ficava o palco, mas o olhar passou rapidamente por meu rosto. Um levantar de sobrancelhas foi seguido de um sorriso. Sem largar a mão de sua acompanhante, ele estendeu o outro braço, a fim de me abraçar.

– Feliz aniversário! – disse. Eu agradeci e ele logo saiu, deixando para trás o cheiro de perfume masculino.

 

A camisa é abotoada, os sapatos amarrados e o perfume, borrifado no pescoço. O relógio de metal é colocado no pulso e as mãos passam rapidamente pelo cabelo. Pega a carteira, o celular e as chaves para então sair de casa.

Quando já está no centro da cidade, passa de meia noite e o celular toca. Augusto atende com um cumprimento rápido. Do outro lado da linha, está um grupo de amigos seus. Querem saber se ele não vai mais ao aniversário para o qual fora convidado. Eles não o veem há algum tempo e não tinham certeza se ele estava na cidade. Quando a universidade entrou em férias, Augusto viajou para o Rio de Janeiro a fim de visitar uma parte da família que tem por lá. Quando disse que já voltara, os amigos insistiram que fosse encontrá-los, mas ele já tinha outros planos para aquela noite quente de janeiro.

– Não posso, combinei de ir pra Kiss.

Ele se despediu brevemente e seguiu para a Boate. 

 

Arte: Bibiano Girard

Qual é o meu nome?, pelo viés de Myrella Allgayer*

*Myrella é Jornalista.

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