RETO, DIREITO, JUSTO Y MEDÍOCRE

A pequena torre da esquina marcava a meia-noite que havia chegado tão depressa. Trajano apertava o passo y tentava chegar mais rápido à casa. Estava com dor no braço esquerdo. O taco do sapato bate na calçada y o barulho se espalha pela rua vazia. Fazia frio, era julho, era noite, já tarde. Alguns poucos […]

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A pequena torre da esquina marcava a meia-noite que havia chegado tão depressa. Trajano apertava o passo y tentava chegar mais rápido à casa. Estava com dor no braço esquerdo. O taco do sapato bate na calçada y o barulho se espalha pela rua vazia. Fazia frio, era julho, era noite, já tarde. Alguns poucos ainda se atreviam a desafiar a neve que se mostrava próxima, ele era uma dessas pessoas – Trajano Royal. Jovem, alto, esguio. Vinte y um anos, há dois estudava Administração. Formado de uma escola particular, Trajano nunca teve uma vida difícil. Sonhava em ser presidente de qualquer empresa que lucrasse aos bilhões sob o grilhão do empreendedorismo (egoísta) y do desenvolvimento (unilateral).

 

 

 

 

O pai de Trajano, Rodolfo Royal, era advogado, havia inspirado o filho a seguir carreira pelas clareiras bastante óbvias da burocracia y da tradição. O pai já fora pobre y não lhe acalantava a ideia de sê-lo novamente. A mãe, Líbia Royal, era filha de um casal franco-árabe que havia feito riqueza com o comércio de tecidos, temperos y perfumes no sul da Cisplatina. Rodolfo era filho de um padeiro francês y de uma lavadeira brasiliana. O sobrenome Silva era suprimido sempre que desejável.

Trajano era a gleba francesa, árabe e negra que haveria de ser: a pele quase clara, como uma cuia; os olhos levemente verdes y os cabelos quase ondulados. Era alto, magro, ia à academia todos os dias de manhã, às nove. À tarde, fazia estágio numa empresa de exportação de bebidas. À noite, estudava – em dois anos formar-se-ia administrador pela Universidade da Cisplatina.

Rafaella Teuto era a escorte contínua de Trajano, namoravam já há um ano e meio. Ambos conheciam todos a conhecer da família outra. Banhavam-se na costa juliana no verão e comiam queijo aos bons ares no inverno. Falando nisso, as férias de inverno estavam por chegar. Este ano era igual diferente: iriam esquiar y, mesmo que nevasse donde estavam, preferiram comprar um pacote para qualquer canto do Colorado. Os Teuto, família de sempre rica y latifundiária, desejava o melhor para sua princesa. Rafaella, enquanto esperava pelo melhor que era óbvio, estudava Arquitetura na mesma Universidade da Cisplatina.

 

Trajano lança a mão ao portão preto que guarda o apartamento de dois quartos que ganhou dos avós maternos quando passou no vestíbulo universitário. Rafaella o esperava, mas já cansada, havia desistido de requentar o jantar que havia preparado y se aninhava ainda maquilada no sofá a ver qualquer série californiana sobre vidas tão significantes. Nos ouvidos, fones brancos trazidos da Europa. Por eles, escutava uma canção com a qual – julgava – se identificava muito: uma tal de ovina negra y suas rebeldias. Ah, era Rafaella, a rebeldia em pessoa! Naquele dia que passara tinha até desenhado uma sala de estar com um corte diagonal na quina – nunca visto! A porta é aberta y por ela passa Trajano que mui bem já cumprimenta sua escorte. Miados, chiados, estalos. Diminutivos, ôfegos y já se quedam no leito. Era assim todas as noites.

Trajano suspira, nu. Rafaella vira o corpo, nua. Ele está numa tela branca, cinza, preta, marrom, roxa, branca. Sua cama se dissipa y se monta a novo. Uma badalada. O corpo esculpido a berinjela e a humilhação de outras de Rafaella evapora y se condensa perto do abdome malhado a espelho y a ego de Trajano. O cabelo evapora, os olhos também. Fica a massa encefálica. Ele a toma às mãos, está a escapar. Não consegue ver seu próprio corpo, já não se vê. A mesma badalada. Derrete, escapa, derrama. Formatura, festa de casamento no Hotel da Vila. Badalada. Mestrado em Gestão e Inovação, coordenador, diretor de mercado. Badalada. Um filho – Lúcio Royal -, promoção, batismo, uma filha – Beatriz Royal -, novo carro, batismo. Badalada. Nova casa, final de semana na fazenda do sogro, Natal em Parigi, amante sua, festa de bodas, amante dela, reunião na escola, outro filho, enterro do pai. Badalada, da, lada, dalada, badalada. A massa encefálica se recompõe y se propõe a levá-lo adelante. Aponta o caminho, balbucia algo inteligível. Consente, Trajano! Com sentido – é a realidade.

 

Acorda Trajano. Molhado, suado, pelado, cansado. Estava lá Rafaella. Rafaella? Seca, seca, pelada, dormida. Quem? Ele se levanta, segue ao quarto do banho. De piyama allora, lava a cara. Fita o espelho. Quem? Ao chegar à sala e à cozinha, vê um jornal sobre a mesa, duas xícaras, um prato com mamão y outro com um ovo cozido. Sala de já limpa, janelas abertas. Ouve algo. Fala alguém. ‘O café está pronto, senhor’. Quem? Nunca ouvira algo antes, quem está lá de manhã. Pietra, a empregada. Não! Colaboradora deveria dizer. Mesmo que não se lembrasse dela, ela também era humana, oras. Não saberia quem estaria a pensar em tal momento algo diferente. Trajano come, toma banho, escova os dentes. A vista treme, sacode, de cima para baixo, de um lado à diagonal. Quer tocar a toalha y não lo pode. Não a alcança. Clarão.
Som do relógio y Rafaella desperta. Trajano já está vestido y sentado à beira da cama. Como parou por lá? É hora de ir. Rafaella passa em branco, voltou a dormir, faltará à aula de Desenho – está cansada.

Zunido. Clarão. Badalada.

Toma o auto mas não lo conduz à academia, nem ao estágio, nem à faculdade. Conduz por aqui, por ali. As ruas não têm sentido, elas têm realidade. Quem são aqueles na calçada? Por que lá se deitam? Faz mais frio do que jamais sentira. Chegou! Aonde? Àquele lugar, branco, cinza, preto, marrom, roxo, branco – à realidade.
Um peso, cinquenta quilos. Dez vezes, três séries. Ducha, toalha y mochila. Vinhos, caixas deles. Serragem, madeira, selo. Carta em inglês, em francês, em chinês y em russo, cartas na mesma língua. Banco, caixa, dinheiro. Clarão. Acaba a aula de Recursos Humanos. Não! Agora é Gestão de Talentos.

Zunido. Clarão. Badalada.

Na balada, pessoas, quiçá amigos, bebida, camisa pólo y mão na cintura de Rafaella. Riso, rio – de álcool, de dinheiro, de gasolina. Música alta. Mais um de vodka. Quem lhe serve? Um jovem de vinte y um anos. Alguém serve? Sim, até às seis da manhã quando o último bêbado se quedar para fora.

 

 

Jantar com os pais, com os sogros. Paella, vinho e queijo. Uma raspada do cartão y lá foram trezentas unidades. Quem trouxe o recibo? Tú?! Que raro!

Trajano não vê muito bem. Escora-se no carro. Há de ir. Estrelas cinzas, longe y então perto; longe y então perto; perto y então nada mais. Está à casa. Deita-se. Badalada. Relógio desperta. Massa encefálica derrete, escapa, recompõe, propõe. Trajano se forma, vai a Parigi, casa-se, é promovido. Trajano perde alguns fios do cabelo, ganha em camisas pólo no armário. Põe o relógio. Tique – realidade! Rafaella quer plástica, Rafaella projeta a área de lazer. Está batizando o filho, votou para o Juán Serrado, churrasco no clube, foto para o jornal. Quem aperta o botão? Sei lá!

Zunido. Clarão. Badalada.

Cabelos brancos, raquetes de tênis, reunião na escola, churrasco, reunião de negócios, foto para o jornal, fatura do cartão, despesas do verão – y para o inverno? -, jantar com a mãe, jantar os sogros. Sono! Massa encefálica. Não se recompôs, só propôs. Óbvio!

Badalada. Zunido. Clarão. Miolo no chão!

 

 

A pequena torre da esquina marcava a meia-noite que havia chegado tão depressa. Da Jin apertava o passo y tentava chegar mais rápido à casa. Estava com dor no braço esquerdo. O taco do sapato bate na calçada y o barulho se espalha pela rua vazia. Fazia frio, era janeiro, era noite, já tarde. Alguns poucos ainda se atreviam a desafiar a neve que se mostrava próxima, ele era uma dessas pessoas – Da Jin Westchester. Jovem, alto, esguio. Vinte y um anos, há dois estudava Direito.

Zunido. Clarão. Badalada. Quão surreal! Tão irreal! Quantos reais?

RETO, DIREITO, JUSTO Y MEDÍOCRE, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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