“ES COMO, PARA USTEDES, SI LULA SE MURIESE”

“Devemos agora militar com mais fervor, porque é nosso dever de lealdade e solidariedade com ele continuar com este projeto de dignidade e inclusão”. “Ele mudou a vida de muitas pessoas. E, realmente, sentimos essa morte. Ainda que alguns digam que não, sentimos. Eu penso que a presidente está bem, é forte. Creio que ela […]

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“Devemos agora militar com mais fervor, porque é nosso dever de lealdade e solidariedade com ele continuar com este projeto de dignidade e inclusão”.

“Ele mudou a vida de muitas pessoas. E, realmente, sentimos essa morte. Ainda que alguns digam que não, sentimos. Eu penso que a presidente está bem, é forte. Creio que ela vai seguir ganhando. Eu quero que seja assim. Vai seguir a Cristina, Deus queira que seja assim. Ela vai seguir lutando para seguir’.

“Hoy es un día histórico. Es como, para ustedes, si Lula se muriese”.

“A partir dele houve uma mudança positiva para a classe baixa e para os aposentados. Foi muito positivo porque nossos governos anteriores nunca haviam se preocupado e os primeiros que pagavam o pato eram os de classe baixa. E pude ver que ele ia ao poder econômico, lutava e fazia o que queria e não o que o poder econômico queria que ele fizesse. Assim, tem muita gente que está sentida com a morte. Agora, há que se cuidar da presidente para que ela não seja usurpada pelo vice”.

As frases acima foram ditas nesta última semana por pessoas influentes e por populares que caminhavam. Em entrevista à revista o Viés, o aposentado Leon disse que “ele [Néstor] foi um bom homem. Ajudou os pobres. Muitos planos, sobretudo para as pessoas de 60 anos que nunca haviam visto um peso [peso argentino, moeda local]” . Partes de textos e contextos maiores emolduram o sentimento de grande parte dos argentinos que agora se sentem um pouco “órfãos” politicamente.

A atriz e cineasta Esther Goris, autora da primeira citação, disse que “agora, mais que nunca, temos que lutar junto a nossa queridíssima Cristina pelo projeto do país que Néstor começou”.

Morreu na manhã do dia 27 de outubro de 2010, em Calafate, Argetina, o ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner. Néstor foi presidente do país, governador da província de Santa Cruz e exercia atualmente o cargo de presidente da UNASUL. Foi eleito intendente (prefeito) de Rio Gallegos ainda na década da redemocratização pós-ditadura militar. Governou a cidade até 1991 quando foi eleito governador da província.

A capital Buenos Aires parou para se despedir de um ícone político daqueles que poucas vezes surgem pelos cargos do mundo todo.

Quando assumiu o governo provincial, em 1991, a província de Santa Cruz contribuía com 1% do PIB nacional argentino, atribuído principalmente à produção de matérias primas como o petróleo. Uma grave crise acarretava elevados níveis de desemprego e déficit fiscal.

Kirchner diminui gastos públicos e remanejou os lucros das empresas petrolíferas para contrabalançear as contas públicas. Concebeu políticas centradas na concretização de intervenções para estimular a atividade produtiva da região.

Com o tempo, Santa Cruz demonstrava emergir da dura crise que assolara a região por anos e alcançava níveis razoáveis de crescimento econômico.

Inicialmente, depois de ter conseguido aprovar as reformas na constituição provincial que deixava de limitar o número de reeleições para governador, Nestor foi reeleito em 1995 com ampla vantagem, refazendo o feito em 1999 quando derrotou a aliança entre a Unión Cívica Radical e o Movimiento Federal Santacruceño, formado por setores que seguiam as diretrizes do presidente Carlos Menem dentro do Partido Justicialista. A oposição dentro do peronismo surgira um ano antes, quando Menem, em tentativa de eleger-se pela terceira vez, gerou forte rejeição pela sociedade. Kirchner, na situação, optou por aliar-se com o opositor de Menem, o Presidente da Província de Buenos Aires Eduardo Duhalde.

Duhalde viria se tornar presidente da República depois dos célebres episódios que ficaram conhecidos como panelaços, quando o povo, unido, foi às ruas gritar contra o governo do presidente eleito Fernando de la Rua, o qual renunciou ao cargo após uma das crises econômicas mais graves na história da Argetina. Entretanto, nas vésperas das eleições de 2003, vários líderes do Partido Justicialista aspiravam à candidatura e Duhalde apoiara inicialmente Carlos Reutemann. Somente com a desistência deste, Duhalde declararia apoio a Kirchner.

Nestor Kirchner entrara na campanha numa posição desfavorável, atrás dos peronistas (a Lei argentina permite que um mesmo partido indique dois candidatos) e até do centro-direitista Ricardo López Murphy. Porém, tendo como prioridades a produção, a justiça, a educação, o trabalho, a igualdade e a saúde, a popularidade social-democrata começa a crescer. No Brasil, um ano antes, o programa de campanha de Luis Inácio Lula da Silva, com os mesmos propósitos, fizera-se vencedor.

Como vários de nossos presidentes sul-americanos, Nestor Kirchner era militante político de esquerda desde jovem. Foi militante do movimento justicialista na Juventud Peronista, setor juvenil de esquerda radical contrário a Juan Carlos Onganía e advogado desde 1976 pela Universidad Nacional de La Plata. Logo depois do golpe de 24 de março, junto à esposa Cristina, volta para Rio Gallegos, onde nasceu, para exercer a profissão e afastar-se momentaneamente da política. Durante os anos de ditadura militar da Argentina, foi preso por duas vezes.

“De acordo com o que foi ele, foi uma perda muito grande porque agora ela [Cristina] está sozinha. Ele estava por detrás dela. A maioria dos argentinos o quer bem. Não digo que tudo foi bom, porque nessa vida todos temos problemas, todos cometemos equívocos, mas ele fez muita coisa boa. Aqui na Argentina sumiu muito da pobreza”, disse Antônio Luceno, um aposentado argentino, à revista o Viés.

Como ocorre nos outros países da América do Sul, onde governos de esquerda e centro-esquerda são maioria, Kirchner enfrentou o preconceito das elites, do agronegócio e da mídia hegemônica argentina, em parte apoiadora dos anos ditatoriais, por suspender parte do pagamento da dívida externa e lutar pelos direitos humanos dos cidadãos que viviam em exclusão ou opressão. Criticou publicamente as violações dos direitos humanos durante a última ditadura militar, de 1976 à 1983 – o que, no Brasil, continua em silêncio.

Manteve sempre uma relação de conflito com o Fundo Monetário Internacional, mesmo tendo pagado antecipadamente a dívida com o órgão. Assim como no Brasil, os críticos ao governo argumentavam que o alto crescimento do país durante os anos Kirchner devia-se à tendência mundial. Os críticos de direita e os liberais usaram do discurso globalizante gerado pela necessidade da dinâmica capitalista, afirmando que a salvadora da pátria argentina havia sido a economia do mercado mundial.

Nestor passou o principal cargo para a própria esposa em 2007. Cristina, com alguns momentos de impopularidade, manteve a política do marido e acirrou ainda mais o antagonismo entre os seguidores do governo iniciado com Nestor e a direita oposicionista.

Os procedimentos governamentais audaciosos de Cristina desencadearam uma série de acusações contra o governo. A grande mídia argentina, que prosperou durante o regime dos generais, assim como a do Brasil, acusou a presidente e o seu governo de censuradores e manipuladores. O projeto de barrar os monopólios da comunicação do país vizinho foram rebatidos por organizações midiáticas até no Brasil, como as Organizações Globo, que reservam espaço expressivo na TV para acusar a presidente de manipuladora e a favor da censura. Cristina herda os lírios e os problemas do marido como mostrado no sítio Jornalismo B: A matéria sobre a morte de Kirchner é uma sucessão de acusações, diz apresentar uma “trajetória política” do ex-presidente, quando, na verdade, apenas o ataca. Ataca, por extensão, todos os governos populares latino-americanos. E sabe disso.

Os primeiros quarenta segundos da cobertura do Jornal Hoje passam sem solavancos, uma nota coberta sobre os recentes problemas de saúde do ex-presidente. Mas, então, o correspondente Carlos De Lannoy entra em cena. A primeira frase do repórter é: “O ex-presidente Néstor Kirchner acreditava ter encontrado a fórmula ideal para permanecer dezesseis anos no poder”.

De Lannoy lembra, então, que, muito popular, Kirchner preferiu ceder a candidatura à esposa que, vitoriosa, deixou para ele o cargo de coordenação política. Depois, a matéria diz que “em meio à crise de popularidade da mulher, comandou estratégias de ataques à imprensa, aos produtores rurais e aos empresários”. De Lannoy tentou pintar Kirchner como autoritário, projeto de ditador. Fez isso mais de uma vez durante a curta matéria que levou ao ar.

No fim da entrada, o correspondente diz que “muitos diziam que Cristina no governo era Néstor no poder. Agora o desafio de Cristina será manter vivo o estilo populista do kirchnerismo”.

O Jornal Hoje da Rede Globo de Televisões, no Brasil, afirma que Kirchner foi um presidente que atacou a imprensa e o setor do agronegócio. A atual presidente parece ter herdado as lutas do marido contra a polarização da notícia argentina em dois grandes meios apenas. Depois de um braço-de-ferro com a oposição conservadora, o governo de Cristina aprovou com um número expressivo a nova lei de comunicação audiovisual. Com proposta antimonopolista, o projeto é alvo de uma campanha radical da grande mídia. O projeto estabelece que uma mesma empresa não pode possuir canais de TV aberta e a cabo; também reduz de 24 para dez o limite das concessões de rádio e TV em mãos de um mesmo proprietário e cria uma entidade de supervisão das comunicações, com a presença da sociedade civil e do governo. Por tais motivos, ficam claras as intenções de grandes empresas da mídia em desfazer do governo de Nestor Kirchner e sua sucessora.

Um jornalista de San Miguel de Tucumán afirmou que “tem-se que reconhecer que Kirchner foi uma figura importantíssima na Argentina. No momento em que ele entrou no governo, havia um quadro muito tenso na política argentina. O presidente conseguiu fazer algumas mudanças, mas nada de profundo. O quadro social atual não indica mudanças profundas. Essa espécie de histeria pública pela morte do ex-presidente é fruto da época de Perón. O povo argentino acostumou-se em ter uma figura em quem depositar confiança, “paizões” como Getúlio Vargas. Eu tenho medo do quadro atual. O principal problema está dentro do Partido Justicialista. Terá uma pressão enorme sobre a presidente, muita gente querendo influenciar o governo. A oposição, de início, pode ficar quieta esperando ver o que acontece dentro do próprio PJ”.

Centenas de pessoas em fila esperavam para ver o corpo do ex-presidente no Salão dos Patriotas Latino-Americanos da Casa Rosada. A entrada do palácio ficou aberta ao público desde a manhã de quinta-feira quando centenas de cartazes foram pendurados com frases como “Adeus, Néstor!” e “Fuerza, Cristina”. A presidente, durante a passagem dos populares, várias vezes abraçou desconhecidos emanados no mesmo choro que o dela. Os presidentes Lula e Chávez foram dar apoio a Cristina. Como as centenas que esperaram na fila, um senhor, longe da capital, disse à revista o Viés: “Eu peço para que a presidenta siga bem”.

“ÉS COMO, PARA USTEDES, SI LULA SE MURIESE”, pelo viés de Bibiano Girard e Liana Coll

bibianogirard@revistaovies.com

lianacoll@revistaovies.com

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